Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)
* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
ESTÁGIO EM ENFASE SOCIAL
Um resumo de experiência: (Fala proferida aos estudantes do 1° e 2° semestre de Psicologia da UNIJUÍ)
Partiremos de uma primeira questão:
- O que são processos sociais?
Tentando responder:
É aquilo que circunda a condição humana: (movimentos, mudanças, condição sócio-histórica no contexto de cada época). Os processos sociais são referidos as questões macro e micro histórica. Primeiro, a leitura de um todo da sociedade, numa amplitude mais abrangente conforme seus aspectos inerentes ao socios. Depois, e o mais importante, refere-se as questões do indivíduo, as questões do sujeito: as suas singularidades e a sua subjetividade. A partir disso poderemos ter uma leitura dos processos sociais.
Em Psicologia das Massas e Analise do Ego (1921), Freud nos oferece uma “bomba” quando nos diz o seguinte:
“A psicologia individual é ao mesmo tempo uma psicologia social”.
Em meu estágio trabalhei, por exemplo, com o processo de exclusão social, de vulnerabilidade social e com o fenômeno da violência. Na prática trabalhei com várias subjetividades, aquilo que é de cada sujeito e que comumente dizemos: cada caso é um caso, respeitando, assim, aquilo que vem de maneira singular: o pedido, a demanda, o sofrimento de cada sujeito.
Eugène Enriquez nos oferece esta máxima:
“Torna-se claro que o indivíduo não existe fora do campo social... A psicanálise é uma ciência psicosocial tendo como característica perceber que é a outra cena (aquela do inconsciente, aquela do imaginário) é tão interessante quanto aquela do visível, o objeto habitual das ciências sociais”.
O estágio em ênfase social, erroneamente, parece se confundir com um trabalho meramente burocrático, de pesquisas e entrevistas.... Especialmente aquilo que não é da clínica, por exemplo. E, enquanto, estudantes de psicologia, estamos ávidos pelo atendimento clínico. Mas lhes digo, na ênfase social também produzimos uma escuta – a escuta do social, portanto, temos como prática a clínica do social. A ferramenta (instrumento) essencial de qualquer prática referente a psicologia, sem dúvida é a clínica, bem como as suas ferramentas teóricas que garantem um lugar ético e profissional. O método clínico dentro das instituições é o pilar mestre, independente do projeto que se escolhe. No meu estágio procurei marcar uma posição ética a qual, por minhas afinidades, foi a ética da psicanálise.
Meu estágio em ênfase social foi no CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social do Município de Ijuí. O objetivo era trabalhar junto as famílias dos adolescentes que cumpriam medidas sócio-educativas de internação, ou seja, adolescentes infratores.
domingo, 13 de março de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Continente Negro
O "Continente Negro" é menstrual.
E é grávido de luas.
Ele é capaz de gerar a vida e gerar a morte.
O Continente Negro é bélico.
E é sentimental demais.
Ele gosta de sexo, prazer e amor.
O Continente Negro usa várias máscaras e véus.
Ele pode querer ou não ter muitos filhos,
Geralmente os tem...
É capaz de gerar alimento para suprir suas crias.
Ele é auto-sustentável.
O Continente Negro é do mais alto clã das bruxarias.
Tem poderes extraordinários,
principalmente, o segredo místico de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Ele pode enfeitiçar homens e comer mulheres.
Sim o Continente Negro pode amar a si próprio e comer de si mesmo.
Afinal, o que quer esse Continente?
Ele é terra firme, cercado de águas turbulentas...
A missão dele é atormentar a vida dos bípedes sem penas.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Falando Nisso: Informativo da Clínica de Psicologia da Unijuí.
Gostaria de falar Nisso...
Em 04 de outubro de 1993 foi fundada a Clínica de Psicologia da Unijuí. Ela presta serviços a comunidade de Ijuí e de outras localidades. Atende crianças, adolescentes e adultos. O trabalho da clínica é pautado pelos referenciais psicanalíticos. Uma proposta de escuta livre, implicando o paciente em sua queixa, para assim, resignificar as motivações de seu sofrimento.
No percurso dos trabalhos da Clínica um informativo surgiu, o qual foi batizado de Falando Nisso. O número 1 foi impresso e divulgado em outubro de 1999. Neste informativo, hoje em formato de revista, podemos encontrar as produções teóricas oriundas da prática clínica e dos estudos teóricos/conceituais da psicologia, bem como da psicanálise. Produções de professores, estagiários da clínica e de pesquisadores de áreas afins. O Falando Nisso é um rico material de pesquisa sobre as questões que interpelam a psicologia. Pensando nisso, disponibilizo aqui o link de acesso ao Falando Nisso. O material pode ser baixado gratuitamente a partir do site da universidade. Encontramos do número 1 (onde tudo começou) ao número 35. Juntamente com este material, também, podem ser usufruídos os Anuários da Clínica, que são os registros de todas as atividades da clínica. Mas, o nosso objetivo é falar nisso, portanto, é só seguir o passo, baixar, ler e falar nisso e em outras coisas que isso implicar. (trocadilhos malditos)...
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Trote Universitário:
Copiei esta matéria, justamente, porque, nesta época do ano, voltamos às aulas e nos deparamos com os ditos trotes (Trotear que nem cavalo) - trotes chatos e na maioria das vezes, nojentos. É com prazer que leio as opiniões do professor Paulo Denisar Fraga, querido mestre, que tive a oportunidade de conhecer. Ele ensinou que a vida é muito mais que só carregar o piano... Recomendo a leitura do livro: A Violência no Escárnio do Trote Tradicional.
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Primeiro trote registrado no Brasil terminou em morte
Professores contam a origem do trote e afirmam a sua conotação violenta
por MARIANA NADAI | 11/02/2011
Em 1831, durante a recepção dos novos alunos da Faculdade de Direito de Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o calouro Francisco Cunha e Menezes se revoltou com as brincadeiras realizadas pelos veteranos. Na tentativa de deixar o local, Francisco foi interceptado a facadas por um dos estudantes mais velhos e morreu. A cena descrita marca o primeiro trote que se tem registro no Brasil.
Muito antes do assassinato de Francisco Cunha e Menezes, estudantes do mundo todo já sofriam com as recepções violentas dentro das universidades. “O primeiro trote que se tem registro aconteceu em 1342, na Universidade de Paris. Também há relatos de trotes na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, em 1491”, diz Antônio Álvaro Soares Zuin, professor do departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro O Trote na Universidade: Passagens de um Rito de Iniciação.
De acordo com Zuin, os veteranos faziam coisas pavorosas com os calouros. “Na Universidade de Heidelberg, por exemplo, os 'bixos' eram obrigados a se masturbar, tinham que beber urina com vinho e comer alimentos com fezes”, diz o professor. No fim dos trotes, para assegurar que essa tradicional recepção fosse perpetuada, os calouros eram obrigados a assinar um termo de compromisso de que iriam realizar as mesmas ações no ano seguinte.
Para Paulo Denisar Fraga, professor do Instituto de Ciências Humanas e Letras, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG) e autor do livro A Violência no Escárnio do Trote Tradicional, o trote, na sua origem, estava diretamente relacionado com os estudantes oriundos do meio rural. “O trote teve seu auge na Idade Média, quando os estudantes do meio rural chegavam à universidade. Na passagem do meio rural para o urbano, os estudantes eram execrados. Para eles, havia uma bestialidade na origem dos calouros e o trote representava uma espécie de batismo para a entrada no novo mundo”, afirma.
O trote é sempre violento?
Sim! Pelo menos é o que afirmam os professores. “Os trotes surgiram como uma forma de discriminação. O termo varia em muitas línguas. No francês, por exemplo, trote é brimade, que significa maltratar. Em inglês, vem de to haze, com o mesmo sentido do francês. Ou seja, sempre com o significado de enganar ou fazer joguete de alguém”, constata Fraga.
Segundo Zuin, a origem da palavra no português está relacionada diretamente ao trotar do cavalo. “Esses animais não sabem trotar, eles são domesticados para isso. A intenção de usar essa palavra para designar a recepção dos estudantes mostra essa relação do veterano de querer domesticar o calouro, o ‘bixo’”, explica.
Para fugir da violência, muitos estudantes tentaram saídas alternativas. Nos Estados Unidos da década de 1960, por exemplo, os veteranos passaram a trocar as tradicionais hell weeks, ou semana dos infernos, dos novos alunos, pelas help weeks (semana da ajuda). Na mesma época, no Brasil, os calouros eram mobilizados para o movimento pelas reformas de base, do governo do presidente João Goulart. “Mas o AI-5 apertou o controle sobre as universidades e contribuiu para a degeneração dos trotes”, afirma Fraga.
Atualmente, as universidade, na tentativa de acabar com as recepções violentas, criou o trote solidário. Nessa modalidade, ao invés dos calouros terem os cabelos raspados, serem pintados, ou, na pior das hipóteses, sofrerem agressões físicas, eles são convidados a fazer boas ações, como doar sangue ou recolher roupas e alimentos para pessoas carentes.
Entretanto, na visão de Zuin, até mesmo os trotes solidários são violentos. “Claro que eles são um avanço aos trotes tradicionais, mas o termo é contraditório. Caso você não queira colaborar voluntariamente, é visto como uma pessoa chata, que não participa das atividades. Ou seja, mesmo sendo uma ação solidária, você continua sendo domesticado a fazê-la. Ele é um avanço, mas não é a solução definitiva”, diz.
Paulo Fraga não chega a ser tão radical quanto Antonio Zuin, mas, para o professor da Unifal-MG, a expressão “trote voluntário” não está bem empregada. “O uso do termo trote tem que ser abandonado, independente do adjetivo que estiver ao seu lado, como nos 'trotes solidários'. Para mim, o correto seria dizer recepções solidárias. Assim, o termo cumpre o papel de combater e ocupar o lugar dos trotes, propondo uma introdução adequada à vida acadêmica, e não a formas explícitas ou veladas de violência e desrespeito entre as pessoas”, propõe.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Hilda Hilst
Quando se está com dor, nada mais agradável do que a literatura. Quando quero sair de mim e, assim, entrar, inevitavelmente, numa espécie de mim-outra, eu leio o que não se recomenda ler. Quando daquela melancolia insuportável, uma dor-veneno vem de mansinho comer por dentro e comer muito, então, nada mais justo do que alimentar o monstruoso e fazer um caldo, quase sopa, daquelas coisas inquietantes, angustiantes, melodramáticas, trágicas, insuportaveis, desonestas, verdadeiras, solitárias, narcisistas, egoístas... A dor da alma é obscena, por isso, vai se mostrando aos pouquinhos, depois engole você e se esconde dentro das palavras.
Fiz uns recortes de coisas da Escritora Hilda Hilst. Uns videos bem bacanas e uns livros para capturar.
A receita é esta: Hilda Hilst para que tudo seja uma grande obscenidade, inclusive Deus. Para que tudo seja, em cada momento, um júbilo. Um noviciado da dor, da vida, da vontade, do desejo...
Alcoólicas
de Hilda Hilst
É crua a vida. Alça de tripa e metal.Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas - I)
***
Videos:
H H Falando
Reportagem especial sobre Hilda Hilst.
(Parte 1,2,3,4)
(1)
(2)
(3)
(4)
Zélia Duncan fala de H H:
Osmo: Peça de Teatro
Cena do Filme: Do Começo ao Fim.
Livros de Hilda Hilst para degustar ao som de boleros e tangos:
A Obscena Senhora D.
Poesia Completa.
O Caderno Rosa de Lori Lamby.
Cartas de um Sedutor.
Cartas de um Sedutor. (Outra versão de arquivo)
Estar Sendo. Ter Sido.
O Rato no Muro.
Contos D'Escarnio.
Biografia e Resumo de Obras.
Revista Cult - 1998.
***
Sites Oficiais da Escritora:
http://www.angelfire.com/ri/casadosol/hhilst.html
***
"Fidelidade é qualidade de cachorro." (LFT - lembrando das palavras de HH)
"Alguns doutos em ciências descobriram que quanto maior o intestino, mais místico o indivíduo. E quem mais místico que Deus? Grande Intestino, orai por nós."
"Esquerda, direita, tudo a mesma esterqueira."
"Quem és? Pergunto ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó, Depois nada."
"E por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas, obscenas,
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas, obscenas,
porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro.
E te repito: por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me."
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro.
E te repito: por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me."
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Onde Estivestes de Noite
Meu desânimo parece incompreensível... Uma onda de desassossego, seguido de pensamentos repetitivos. Um suspiro... e faço força para escrever, pensar no nada, respirar... Esta semana encontrei um livro de Lygia Fagundes Telles. Um livro barbada, pois, comprei pela bagatela de 3 reais. Nem acreditei, mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Consegui ler um dos contos, chamado "Onde Estiveste de Noite?" É um relato de um momento singular da autora, uma lembrança de uma lembrança - Lembrança de Clarice Lispector. Não tenho vontade de escrever sobre a coisa, nem tão pouco, dizer nada de nada, por isso, copiei o conto de Clarice e colei ele aqui. Bem, faltou o conto de Lygia, que, na verdade, é o protagonista, mas me desculpem, agora não, depois eu procuro. Quem tiver força vai ler, quem tiver vontade vai usufruir, quem... quem... quem... Não importa. Tudo fragmentado neste momento... Ah, o conto de Clarice tem o mesmo nome, porém, não faz ponto de interrogação. Sutil detalhe compreensível.
***
Onde Estivestes de Noite
(Clarice Lispector)
A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: "Ah, Ah". Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
[...]
Aquela que de noite gritava "estou em espera, em espera", de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:
- Eu te pego, seu porcaria! Quer ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta, vinho bom. E uma flor nasceu. Um flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira do ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.
AMÉM
Os fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.
AMÉM
DEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder - pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Fome e Desejo
Será que sabemos o que é a fome? O que é fome?
A fome só existe no momento em que vê a comida. Antes disso não sabe o que é fome. Não existe fome; não existe nada.
"Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo".
Se um dia, por algum momento, não existia a fome, então, não existia o desejo.
"Não existia a benção da fome".
Antes era limpo, livre e distante do desejo humano. Depois veio a fome e nos tornamos monstruosos. E, assim, envolvemos a criatura numa rede de tiranias e sufocamos a nós e ao outro. O que nos move é a fome - uma fome insaciável. "Fome que nasceu quando a boca já está perto da comida".
Dividimos todos os dias em todos os momentos, sem sossego, sem trégua o nosso movimento faminto. Sim somos milhões de famintos - milhões de estranhos que dividem pão e amor. "Come come e reparte".
Em cada poro de nosso corpo um grito de fome e de nossa boca o pedido:
- Mostre-me o caminho à você, seja o mestre. Não me diga nada e nem me deixe acompanhá-la, apenas me induza, como se adivinhasse aquilo que me sutura.
Eu tenho fome, mas não sei de quê.
* Os grifos são frases de Clarice Lispector, do conto "A Repartição dos Pães".
* A imagem da chuva, que tem haver com fome e desejo? Para mim, solidão e liberdade. A melancolia da chuva transmuta-se em puro desejo. Desejo de.
Livros para Baixar e Ler:
Roland Barthes: Fragmentos de um Discurso Amoroso. (em espanhol)
domingo, 12 de dezembro de 2010
Adolescência e Conflito com a Lei: Material para Download
* Revista da defensoria publica de SP:
Edição Especial Temática sobre Infância e Juventude
A publicação é resultado de esforços da Defensoria Pública de São Paulo, através do Núcleo Especializado da Infância e Juventude.
A presente publicação representa a convergência de ações, na busca de criar e aperfeiçoar estratégias de atuação dos Defensores Públicos com atuação na defesa e promoção dos direitos das crianças e adolescente. Para isto, a revista se propõe a discutir a elaboração de diretrizes sustentáveis no tocante à atuação do Defensor Público dentro do Sistema de Garantia dos Direitos das Crianças e Adolescentes.
Organizadores: Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Ano: 2010
Clique aqui para baixar.
* MEDIDA LEGAL – A experiência de 5 Programas de Medidas Sócio-Educativa em Meio Aberto.
Livro traz um diagnóstico da municipalização da liberdade assistida e do perfil socioeconômico e familiar dos adolescentes em cumprimento da medida, por meio de umapesquisa em Guarulhos, Guarujá, Campinas e Jandira.
Durante 7 meses, foram entrevistados 481 adolescentes que cumpriam liberdade assistida ou prestação de serviço à comunidade em programas desenvolvidos nas cidades de Guarulhos, Jandira, Guarujá e Campinas. A partir das percepções dos adolescentes nos programas socioeducativos, foi possível obter uma avaliação do programa em diversos quesitos: atividades desenvolvidas, atendimento, localização, estrutura física, significado da medida na vida dos adolescentes etc.
Organizadores: Ilanud e Fundação Telefônica
Ano: 2008
Clique aqui para baixar.
* EM DEFESA DO ADOLESCENTE: Protagonismo das famílias na defesa dos direitos dos adolescentes em Comprimento de Medidas Sócio-Educativas.
Em defesa do adolescente. Protagonismo das famílias na defesa dos direitos dos adolescentes em cumprimento de medidas sócio-educativas
Cartilha fruto um projeto feito pelo Ilanud e pelo Unicef com o intuito de fortalecer o envolvimento das famílias no cumprimento da medida socioeducativa de internação.
Organização: Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco (Amar) e o Cedeca "Mônica Paião Trevisan" - Sapopemba, Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) e Conectas Direitos Humanos.
Ano: 2008
Clique aqui para baixar.
* Justiça, Adolescente e Ato Infracional:
Esta publicação é um dos produtos do projeto "Atualização e Integração de Operadores do Direito: fortalecendo o eixo da defesa e do controle social na garantia de direitos do adolescente em con¬flito com a lei", mas que cumpre uma dupla função.
A primeira é servir como material de suporte de quatro oficinas do projeto, que contaram com a participação de operadores do direito atuantes no âmbito do sistema de justiça da infância e da juventude. A segunda é oferecer um apanhado bastante representativo das principais discussões levadas a cabo ao longo dos mais de quinze anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adoles¬cente, um diploma legal que lançou nova luz sobre o tratamento reser¬vado ao adolescente com conflito com a lei, mas que, infelizmente, ainda não foi inteiramente assimilado por todos aqueles que atuam na área da infância e da juventude.
Organização: Ilanud, Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), Associação Brasileira de Magistrados e Promotores para a Infância e Juventude (ABMP) e Fundo das Nações Unidas para a População (Unfpa).
Ano de publicação: 2006
Clique aqui para baixar.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Salmo de Repúdio à Schreber: O Deus dos Nervos.
Enoja-me a arrogância de Schreber.
Sinto nojo de sua loucura e de sua capacidade de loucura.
Vontade de dar na cara desse maluco!
Desespera-me a sua incredulidade e seu poder de Deus.
Porque ele e não eu?
Queria poder sentir os raios divinos percorrendo com ânsia o meu corpo anoréxico e hipocondríaco.
Queria ser homem e sentir-me mulher no momento da cópula.
Schreber, eu te abomino, filho do sol. Filho de um louco, mais louco que tu.
Quisera ter o poder de recomposição para fugir de minhas sombras de pensamentos.
Desgraça! Desgraça!
Náusea-me que Deus, na sua decadente onipotência, o reconstrua novamente.
Rogo-te todos os venenos dos cadáveres de teu pai – apodreça verme! E que em teu estupor alucinatório, aquele Deus de teus delírios, te faça sofrer sem vísceras.
Que ao contrário da ordem das coisas, Miss Schreber, Deus te coma pelo rabo, seu maldito!
Redentor, progenitor ah como te detesto!
Eu quero, na minha agridoce inveja, nem que seja uma pena dos teus pássaros negros. Quem sabe mesmo, que você sinta pena de mim.
Schreber diga, diga alto e em bom tom, para as almas do teu inferno particular, para que elas encontrem a minha alma e, então, possam me dar um nervo de teu Senhor. Pois preciso disto para aliviar as minhas fantasias e os meus pensamentos sem grandeza – esses pensamentos duvidosos que temem demasiadamente o Deus Arimã.
Schreber seu arrogante e narcisista, quem mais poderia dizer dos pássaros miraculosos e dos pássaros falantes? Que outra alma mais infame que a tua?
Teu eu não existe! Ninguém te avisou? Não te avisaram que o veneno da ptomaína é veneno de tua bastarda mãe e untado por teu pai tirano? Coitado! O veneno é teu espelho decadente. Quisera poder sussurrar em teus ouvidos esta frase.
Louco arrogante extraordinário filho do sol, és uma águia. Serias capaz de furar meus olhos e, assim, me cegar por completo até o cair de minha pena e de minha voz?
Eu engulo a seco o meu fraco e franco narcisismo melancólico, pois não sou hábil o suficiente nem para ver o demônio – tenho sim, confesso, uns demônios pobrezinhos, diabinhos dentro de mim – diabinhos do prazer de repetir rituaiszinhos diminutos sem qualquer beleza translúcida.
Meu pobre eu é dominado por uma dívida avulsa, sem preço e impagável. De que me adianta arrancar-me a pele para purificar bactérias, se não sou capaz nem de um leve delírio de grandeza? Os vírus e as bactérias riem de mim, então tenho que amortece-las sob a etílica vontade de morrer.
Meu pai talvez seja filho do coco de teu pai miraculoso, ou seja, um verme. E eu filha deste verme.
Schreber Deus dos Nervos tu és um assassino de almas, de sonhos e de fantasias. Eu te vomito te defeco e te enclausuro na minha dor.
Tu és um veado, louco para dar o rabo!
Deus dos Nervos eu te rumino em eletrochoques dos meus neurônios incandescidos. Enquanto eu pensar, mais te eletrocuto seu ordinariozinho.
Ah! Schreber Semideus espedaçado tenha piedade de mim!
- Luciana Mai - (07.04.2010)
sábado, 4 de dezembro de 2010
QUERÔ - O FIlme
Pesquisando traças e troços pela net e pela vida me deparei com Querô.
O filme Querô vem de encontro ao meu estudo com a temática dos adolescentes em conflito com a lei, dentro da área de psicanálise e psicologia social. Deixo aqui no blog, por hora, os links de acesso à alguns materiais – Por hora, deixo as coisas, só as coisas soltas, avoadas, perdidas, angustiadas... o resto está em construção, em estado de ebulição. Quando tem angústia é sinal de que algo acontece secretamente, não tão secretamente assim, mas uma precipitação de estados, uma procura de um nome, um encontro de uma Coisa que evoca Aquilo que não sei o quê.
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QUERÔ - O FILME:
Querô é um filme brasileiro de 2007 do gênero Drama, dirigido por Carlos Cortez, baseado na obra de Plínio Marcos. É uma produção da Gullane Filmes, com o apoio do Porto de Santos.
O personagem principal - Querô (seu apelido pois sua mãe morreu após se embriagar com uma garrafa de querosene) é um menor abandonado, criado pela vida. Sobrevivendo sozinho na região portuária de Santos, em situação de pobreza e abandono. Querô não se dobra à disciplina opressora da Febem, ao jogo fácil do tráfico de drogas e, muito menos aos policiais corruptos que o perseguem.
* Oficinas Querô: http://www.oficinasquero.org/
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Querô Baixar Assistir:
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Baixar Plínio Marcos:
* A Balada de um Palhaço: http://www.4shared.com/document/bEsJqi2b/balada_de_um_palhao.html
* Navalha na Carne: http://www.4shared.com/file/182737602/aa15d180/Plnio_Marcos_-_Navalha_na_carn.html
* Dois Perdidos Numa Noite Suja: http://www.4shared.com/document/sWxeT5vx/Dois_Perdidos_Numa_Noite_Suja_.html
Da Horda ao Estado
* Luciana V. K. Mai - Psicologia Unijuí.
Freud discorreu, em “Totem e Tabu” sobre a importância da morte do pai da horda primitiva como um evento constitutivo da civilização. Para ele, este ato foi necessário para a transformação da vontade de um único, em uma lei comum, marcada pelo interdito do incesto. Então, a civilização, a cultura e o social são dimensões, instâncias criadas e organizadas pelo homem, de forma política.
Este texto freudiano juntamente com o texto “Mal Estar na Civilização”, são produções indispensáveis para se pensar o social. Em nosso estágio tornaram-se bases sólidas quanto às questões que nos remetem aos temas do vínculo familiar, da violência, da lei simbólica, do Estado e da própria constituição das instituições.
“Totem e Tabu” nos norteou, quanto aos fundamentos dos processos sociais, ou seja, daquilo que circunda a condição humana. A exemplo de nosso estudo, com adolescentes em conflito com a Lei, constantemente somos convocados a questionar o que o social tem haver com o sujeito. Que sujeito é esse? Que cultura é essa? Assim, saímos de um pensamento centrado no indivíduo, para o olhar do sujeito, implicado no social. Destacamos do texto, interpretado por Engène Enriquez, algumas passagens significativas que contribuíram para a construção de alguns pressupostos teóricos.
Enriquez assim enuncia: “A humanidade nasceu de um crime cometido em conjunto. Crime do qual não pode jamais se libertar. Este crime não é senão, o prelúdio de uma série ininterrupta de assassinatos, que parece ser o corolário normal da existência humana em sociedade” (p. 29).
O mito, contemporâneo, da horda primitiva, criado por Freud, chega mesmo a nos assombrar. Se desdobrássemos a frase, diríamos que nos assombra, verdadeiramente, em todos os sentidos, pois, a humanidade carrega e transmite incessantemente a marca deste fantasma. A cultura resumida em uma premissa: ela própria é a constituição psíquica do sujeito. Então, se a humanidade nasceu de um crime, ela mesma se compromete na redenção deste crime, através de uma série de significações expressas na organização da sociedade e na organização psíquica do sujeito – constroem-se objetos para fundar uma subjetividade.
(...) A impotência os torna irmãos (a exclusão), mas não basta; primeiro tem que se estabelecer uma relação de solidariedade, então reconhecer o outro enquanto outro e enquanto semelhantes, daí se reconhecem como irmãos. Eles se descobrem irmãos. Eles se identificam uns com os outros (o desejo é compartilhado). Experimentam a solidariedade e reconhecem o vínculo libidinal que os une no ódio comum contra o pai. (ENRIQUEZ – p. 31)
A “fórmula” da horda primitiva nos leva à compreensão da origem da cultura, pois, sem um ato fundador, o homem seria apenas um bípede, sem penas. Na medida em que este homem reconhece os seus semelhantes e se reconhece enquanto sujeito, ele transforma-se num ser social que passa a estabelecer laços significantes, ou seja, constitui-se a partir da dimensão da linguagem. Algo precisa ser referência para que se faça laço social – “a impotência os torna irmãos” – na luta contra um pai selvagem e violento. Portanto, a identificação é um dos primeiros laços. Posteriormente, estabelecesse-se uma relação de solidariedade para assim, reconhecer o outro e compartilhar um desejo em comum. Matar o pai da horda é fazer um ‘furo’ que adentre numa dimensão simbólica indispensável para criação da cultura.
(...) O parricídio é indispensável para a criação da cultura, ele nos introduz no mundo da culpabilização, da renúncia (tanto da realização do desejo, como ao desejo de realização), da necessidade da referência de uma lei externa transcendente. Tudo isso se manifestará em organização social, restrições morais, e da religião. (ENRIQUEZ – p.34)
Funda-se um pai, funda-se a lei e estabelece-se uma culpa compartilhada por todos e que é paga com constantes renúncias, ou seja, renunciar a um gozo numa dimensão de alteridade, para dizer de uma falta própria. A culpa encontra sua origem no retorno do amor sob a forma do remorso. O amor está, assim, na origem da consciência moral perpassado pelo sentimento de culpa. O símbolo deste ato agressivo de assassinato do pai causou remorso pelo amor que devotavam; aliás, é o próprio ato que cria um pai. Amor e ódio estão assim conjugados na fundação do laço social. Sem a apropriação desses conceitos, parece-nos improvável que um profissional de psicologia possa dialogar com a psicologia social e conjugar sujeito e cultura.
sábado, 13 de novembro de 2010
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