Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


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sexta-feira, 1 de abril de 2011

ESTÁGIO EM ENFASE SOCIAL




Um resumo de experiência: (Fala proferida aos estudantes do 1° e 2° semestre de Psicologia da UNIJUÍ) 
* Luciana V. K. Mai.

Partiremos de uma primeira questão:
- O que são processos sociais?
Tentando responder:
É aquilo que circunda a condição humana: (movimentos, mudanças, condição sócio-histórica no contexto de cada época). Os processos sociais são referidos as questões macro e micro histórica. Primeiro, a leitura de um todo da sociedade, numa amplitude mais abrangente conforme seus aspectos inerentes ao socios. Depois, e o mais importante, refere-se as questões do indivíduo, as questões do sujeito: as suas singularidades e a sua subjetividade. A partir disso poderemos ter uma leitura dos processos sociais.

Em Psicologia das Massas e Analise do Ego (1921), Freud nos oferece uma “bomba” quando nos diz o seguinte:
“A psicologia individual é ao mesmo tempo uma psicologia social”.

Em meu estágio trabalhei, por exemplo, com o processo de exclusão social, de vulnerabilidade social e com o fenômeno da violência. Na prática trabalhei com várias subjetividades, aquilo que é de cada sujeito e que comumente dizemos: cada caso é um caso, respeitando, assim, aquilo que vem de maneira singular: o pedido, a demanda, o sofrimento de cada sujeito.

Eugène Enriquez nos oferece esta máxima:
“Torna-se claro que o indivíduo não existe fora do campo social... A psicanálise é uma ciência psicosocial tendo como característica perceber que é a outra cena (aquela do inconsciente, aquela do imaginário) é tão interessante quanto aquela do visível, o objeto habitual das ciências sociais”.

O estágio em ênfase social, erroneamente, parece se confundir com um trabalho meramente burocrático, de pesquisas e entrevistas.... Especialmente aquilo que não é da clínica, por exemplo. E, enquanto, estudantes de psicologia, estamos ávidos pelo atendimento clínico. Mas lhes digo, na ênfase social também produzimos uma escuta – a escuta do social, portanto, temos como prática a clínica do social. A ferramenta (instrumento) essencial de qualquer prática referente a psicologia, sem dúvida é a clínica, bem como as suas ferramentas teóricas que garantem um lugar ético e profissional. O método clínico dentro das instituições é o pilar mestre, independente do projeto que se escolhe. No meu estágio procurei marcar uma posição ética a qual, por minhas afinidades, foi a ética da psicanálise.

Meu estágio em ênfase social foi no CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social do Município de Ijuí. O objetivo era trabalhar junto as famílias dos adolescentes que cumpriam medidas sócio-educativas de internação, ou seja, adolescentes infratores.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Adolescência e Conflito com a Lei: Material para Download



* Revista da defensoria publica de SP:

Edição Especial Temática sobre Infância e Juventude

A publicação é resultado de esforços da Defensoria Pública de São Paulo, através do Núcleo Especializado da Infância e Juventude.

A presente publicação representa a convergência de ações, na busca de criar e aperfeiçoar estratégias de atuação dos Defensores Públicos com atuação na defesa e promoção dos direitos das crianças e adolescente. Para isto, a revista se propõe a discutir a elaboração de diretrizes sustentáveis no tocante à atuação do Defensor Público dentro do Sistema de Garantia dos Direitos das Crianças e Adolescentes.

Organizadores: Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Ano: 2010
Clique aqui para baixar.


* MEDIDA LEGAL – A experiência de 5 Programas de Medidas Sócio-Educativa em Meio Aberto.

Livro traz um diagnóstico da municipalização da liberdade assistida e do perfil socioeconômico e familiar dos adolescentes em cumprimento da medida, por meio de umapesquisa em Guarulhos, Guarujá, Campinas e Jandira.

Durante 7 meses, foram entrevistados 481 adolescentes que cumpriam liberdade assistida ou prestação de serviço à comunidade em programas desenvolvidos nas cidades de Guarulhos, Jandira, Guarujá e Campinas. A partir das percepções dos adolescentes nos programas socioeducativos, foi possível obter uma avaliação do programa em diversos quesitos: atividades desenvolvidas, atendimento, localização, estrutura física, significado da medida na vida dos adolescentes etc.

Organizadores: Ilanud e Fundação Telefônica
Ano: 2008
Clique aqui para baixar.


* EM DEFESA DO ADOLESCENTE: Protagonismo das famílias na defesa dos direitos dos adolescentes em Comprimento de Medidas Sócio-Educativas.

Em defesa do adolescente. Protagonismo das famílias na defesa dos direitos dos adolescentes em cumprimento de medidas sócio-educativas

Cartilha fruto um projeto feito pelo Ilanud e pelo Unicef com o intuito de fortalecer o envolvimento das famílias no cumprimento da medida socioeducativa de internação.

Organização: Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco (Amar) e o Cedeca "Mônica Paião Trevisan" - Sapopemba, Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) e Conectas Direitos Humanos.
Ano: 2008
Clique aqui para baixar.


* Justiça, Adolescente e Ato Infracional:

Esta publicação é um dos produtos do projeto "Atualização e Integração de Operadores do Direito: fortalecendo o eixo da defesa e do controle social na garantia de direitos do adolescente em con¬flito com a lei", mas que cumpre uma dupla função.

A primeira é servir como material de suporte de quatro oficinas do projeto, que contaram com a participação de operadores do direito atuantes no âmbito do sistema de justiça da infância e da juventude. A segunda é oferecer um apanhado bastante representativo das principais discussões levadas a cabo ao longo dos mais de quinze anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adoles¬cente, um diploma legal que lançou nova luz sobre o tratamento reser¬vado ao adolescente com conflito com a lei, mas que, infelizmente, ainda não foi inteiramente assimilado por todos aqueles que atuam na área da infância e da juventude.

Organização: Ilanud, Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), Associação Brasileira de Magistrados e Promotores para a Infância e Juventude (ABMP) e Fundo das Nações Unidas para a População (Unfpa).
Ano de publicação: 2006
Clique aqui para baixar.

sábado, 4 de dezembro de 2010

QUERÔ - O FIlme



Pesquisando traças e troços pela net e pela vida me deparei com Querô.

O filme Querô vem de encontro ao meu estudo com a temática dos adolescentes em conflito com a lei, dentro da área de psicanálise e psicologia social. Deixo aqui no blog, por hora, os links de acesso à alguns materiais – Por hora, deixo as coisas, só as coisas soltas, avoadas, perdidas, angustiadas... o resto está em construção, em estado de ebulição. Quando tem angústia é sinal de que algo acontece secretamente, não tão secretamente assim, mas uma precipitação de estados, uma procura de um nome, um encontro de uma Coisa que evoca Aquilo que não sei o quê.

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QUERÔ - O FILME:

Querô é um filme brasileiro de 2007 do gênero Drama, dirigido por Carlos Cortez, baseado na obra de Plínio Marcos. É uma produção da Gullane Filmes, com o apoio do Porto de Santos.

O personagem principal - Querô (seu apelido pois sua mãe morreu após se embriagar com uma garrafa de querosene) é um menor abandonado, criado pela vida. Sobrevivendo sozinho na região portuária de Santos, em situação de pobreza e abandono. Querô não se dobra à disciplina opressora da Febem, ao jogo fácil do tráfico de drogas e, muito menos aos policiais corruptos que o perseguem.

* Link Ofícial do Filme:
http://www.queroofilme.com.br/site.htm


* Oficinas Querô: http://www.oficinasquero.org/

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Querô Baixar Assistir:



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Baixar Plínio Marcos:


* A Balada de um Palhaço: http://www.4shared.com/document/bEsJqi2b/balada_de_um_palhao.html
* Navalha na Carne: http://www.4shared.com/file/182737602/aa15d180/Plnio_Marcos_-_Navalha_na_carn.html

* Dois Perdidos Numa Noite Suja: http://www.4shared.com/document/sWxeT5vx/Dois_Perdidos_Numa_Noite_Suja_.html


Da Horda ao Estado


* Luciana V. K. Mai - Psicologia Unijuí.


Freud discorreu, em “Totem e Tabu” sobre a importância da morte do pai da horda primitiva como um evento constitutivo da civilização. Para ele, este ato foi necessário para a transformação da vontade de um único, em uma lei comum, marcada pelo interdito do incesto. Então, a civilização, a cultura e o social são dimensões, instâncias criadas e organizadas pelo homem, de forma política.

Este texto freudiano juntamente com o texto “Mal Estar na Civilização”, são produções indispensáveis para se pensar o social. Em nosso estágio tornaram-se bases sólidas quanto às questões que nos remetem aos temas do vínculo familiar, da violência, da lei simbólica, do Estado e da própria constituição das instituições.

“Totem e Tabu” nos norteou, quanto aos fundamentos dos processos sociais, ou seja, daquilo que circunda a condição humana. A exemplo de nosso estudo, com adolescentes em conflito com a Lei, constantemente somos convocados a questionar o que o social tem haver com o sujeito. Que sujeito é esse? Que cultura é essa? Assim, saímos de um pensamento centrado no indivíduo, para o olhar do sujeito, implicado no social. Destacamos do texto, interpretado por Engène Enriquez, algumas passagens significativas que contribuíram para a construção de alguns pressupostos teóricos.

Enriquez assim enuncia: “A humanidade nasceu de um crime cometido em conjunto. Crime do qual não pode jamais se libertar. Este crime não é senão, o prelúdio de uma série ininterrupta de assassinatos, que parece ser o corolário normal da existência humana em sociedade” (p. 29).

O mito, contemporâneo, da horda primitiva, criado por Freud, chega mesmo a nos assombrar. Se desdobrássemos a frase, diríamos que nos assombra, verdadeiramente, em todos os sentidos, pois, a humanidade carrega e transmite incessantemente a marca deste fantasma. A cultura resumida em uma premissa: ela própria é a constituição psíquica do sujeito. Então, se a humanidade nasceu de um crime, ela mesma se compromete na redenção deste crime, através de uma série de significações expressas na organização da sociedade e na organização psíquica do sujeito – constroem-se objetos para fundar uma subjetividade.


(...) A impotência os torna irmãos (a exclusão), mas não basta; primeiro tem que se estabelecer uma relação de solidariedade, então reconhecer o outro enquanto outro e enquanto semelhantes, daí se reconhecem como irmãos. Eles se descobrem irmãos. Eles se identificam uns com os outros (o desejo é compartilhado). Experimentam a solidariedade e reconhecem o vínculo libidinal que os une no ódio comum contra o pai. (ENRIQUEZ – p. 31)


A “fórmula” da horda primitiva nos leva à compreensão da origem da cultura, pois, sem um ato fundador, o homem seria apenas um bípede, sem penas. Na medida em que este homem reconhece os seus semelhantes e se reconhece enquanto sujeito, ele transforma-se num ser social que passa a estabelecer laços significantes, ou seja, constitui-se a partir da dimensão da linguagem. Algo precisa ser referência para que se faça laço social – “a impotência os torna irmãos” – na luta contra um pai selvagem e violento. Portanto, a identificação é um dos primeiros laços. Posteriormente, estabelecesse-se uma relação de solidariedade para assim, reconhecer o outro e compartilhar um desejo em comum. Matar o pai da horda é fazer um ‘furo’ que adentre numa dimensão simbólica indispensável para criação da cultura.


(...) O parricídio é indispensável para a criação da cultura, ele nos introduz no mundo da culpabilização, da renúncia (tanto da realização do desejo, como ao desejo de realização), da necessidade da referência de uma lei externa transcendente. Tudo isso se manifestará em organização social, restrições morais, e da religião. (ENRIQUEZ – p.34)


Funda-se um pai, funda-se a lei e estabelece-se uma culpa compartilhada por todos e que é paga com constantes renúncias, ou seja, renunciar a um gozo numa dimensão de alteridade, para dizer de uma falta própria. A culpa encontra sua origem no retorno do amor sob a forma do remorso. O amor está, assim, na origem da consciência moral perpassado pelo sentimento de culpa. O símbolo deste ato agressivo de assassinato do pai causou remorso pelo amor que devotavam; aliás, é o próprio ato que cria um pai. Amor e ódio estão assim conjugados na fundação do laço social. Sem a apropriação desses conceitos, parece-nos improvável que um profissional de psicologia possa dialogar com a psicologia social e conjugar sujeito e cultura.

domingo, 30 de maio de 2010

Psicologia Social


Durante o caminho vamos percebendo coisas que antes não percebíamos, caminho cruzado, caminho recaminhado, caminho pedregoso e caminho paradisíaco, tem ainda o caminho penitente e o caminho sem volta.
“Eu não sei onde eu to indo, só sei que to no meu caminho”.
Bem, penso que sei onde quero chegar. Mas, eu queria dizer que nesse andar pelo mundo e pelas palavras do mundo, reencontramos fundamentos que nos guiam para todo sempre. Exagero? Penso que não. Nem quero que dividam comigo lagrimas megarenses. Apenas constatei que algo conspira para reencontros e, neste caminho do social, o qual eu escolhi, acabei me deparando com repetições agradáveis e desagradáveis. Desdobramentos de palavras esquecidas postas juntas às pedras da cerca da estrada. Por isso é sempre bom retornar aos antigos estudos, nem tão antigos assim, mas que a professora Íris Campos, maldita sejas, lançou uma semente que agora brota e rebrota. Quero dizer que o encanto pelo Social nasceu... E continua crescendo por conta das sábias palavras e os ensinamentos desta mestre que também é uma apaixonada pelo social.
Então, para quem deseja percorrer o caminho do social deixo aqui uma boa pedida para leitura. “Abaixem” o livro e aproveitem estes primeiros passos.

"Nosso modo de agir é determinado pelo grupo social ao qual pertencemos. Como, nesta convivência, definimos nossa identidade e peculiaridades? A Psicologia Social, área da Psicologia que estuda o comportamento de indivíduos enquanto seres socialmente influenciados mostra como se forma nossa concepção de mundo, sua vinculação à linguagem que aprendemos e aos valores que assimilamos. Discutindo o desenvolvimento da consciência social na escola e no trabalho, a autora nos faz compreender o que transforma os indivíduos em agentes da história de sua sociedade".

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ABAIXAR O LIVRO SIGA O LINK:

segunda-feira, 1 de março de 2010

O FEMININO, A VIOLÊNCIA E O AMOR





“Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero”.
(Eduardo Galeano – Mulheres – “Janela Sobre Uma Mulher/1)


“Não existe um significante que diga o que é ser uma mulher”.
(Lacan)



“(...) A Psicanálise não tenta descrever o que é a mulher – seria uma tarefa difícil de cumprir – mas se empenha em descobrir como a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual.”.("A Feminilidade” de 1932[1], Freud procurou responder sobre o feminino)





Nosso propósito com esta construção é falar do feminino, fazer uma interlocução com a psicanálise e a área social para que possamos dar conta do tema da violência contra a mulher, especificamente a violência doméstica. Para tanto, nos sentimos intimamente ligados à produção clínica de Freud e aos seus trabalhos sobre a histeria. Mas, queremos avisar que o tema em questão é tão amplo, que se torna difícil nos determos num único foco. Por isso nosso olhar se desdobrou – nosso olhar transformou-se num farol que quer iluminar e a tudo observar, assim, quem sabe podemos pensar algumas questões peculiares. Ou mesmo, num sentido derivado, sermos um farol que apenas quer seduzir, pois as aparências de um olho que tudo vê, pode ser falacioso... Lembrando que quem fala é uma mulher. O que quer uma mulher? Estamos no âmbito familiar. Então, que família é essa? Qual a implicação dos corpos no jogo da paixão e da violência? E o que querem os homens?

É interessante pensar que a psicanálise nasce do “encontro com as mulheres”, por assim dizer – um encontro clínico. Vários autores da área psicanalítica e afins afirmam que a psicanálise foi inaugurada pelas histéricas. Ora, nos idos de 1900, vemos irromper nas sociedades europeias as denúncias das mulheres oprimidas socialmente. As pacientes de Freud, em sua maioria mulheres, revelavam sua intimidade num encontro entre quatro paredes e denunciavam o primado do falo. Emmy Von V. disse a Freud: “Me deixe falar” e assim inaugurou a “talking cure”. Confuso, Freud não sabia, ao certo, o que as mulheres queriam dele... E Dora questionava: “O que é uma mulher?” Será que Freud, não foi o primeiro homem a suportar o grito feminino, o primeiro a dar ouvidos às loucas, malditas, bruxas, feiticeiras, cortesãs... As histéricas, por assim dizer... Com certeza, embora saibamos que o propósito, deveras era outro – era a ciência da psicanálise ou a teoria da sexualidade?!

As “denunciantes” da clínica Freudiana falavam de sua insatisfação, do isolamento, da sexualidade reprimida. Desconheciam o prazer, por vezes culpavam-se e, assim, “vomitavam”, paralisavam seus membros, tossiam nervosamente... Mulheres e adolescentes que chegavam até Freud com queixas do corpo. Meninas-mulheres destinadas ao casamento e a procriação. Casamentos de conveniências e vidas ligadas às futilidades domésticas. Mulheres de uma alta sociedade que descobriam, pouco a pouco, possibilidades sociais e culturais, como a exemplo estudar e trabalhar – uma força emancipatória – porém encontravam-se ‘esmaiadas’. E para Freud queixavam-se, não com um grito feminista especificamente, mas nascia ali, implícito o desejo de desfrutar os prazeres “proibidos” e questionar a cultura do patriarcado que estava marcado por uma decadência. Roudinesco nos diz o seguinte:


A partir de 1889, e durante um século, o pai não se constrói como tal senão porque tem obrigações morais para com aqueles a quem governa. Seu estatus lhe impõe obrigações e, caso não às observe, é capaz de naufragar na indignidade e perder seu direito a ser pai. (ROUDINESCO – FAMÍLIA EM DESORDEM – p.41)




Anthony Giddens nos diz que em 1889 a palavra sexualidade aparece publicada em um livro num sentido próximo ao que nos é hoje, ou seja, referindo-se a qualidade de ser sexual, ou possuir sexo, assim a publicação “(...) preocupava-se com o porquê das mulheres estarem predispostas a várias enfermidades que não afetavam os homens – algo atribuído a sexualidade das mulheres”. [2] O autor comenta que este fato estava relacionado à tentativa de se manter sob controle a atividade sexual feminina, pois estava à luz das preocupações da sociedade do início do século XIX. O prazer sexual das mulheres que era considerado anormal. A sexualidade, como nos diz Giddens e Foucault, “(...) é uma elaboração social que opera dentro dos campos de poder”. [3]

Pelos idos de 1920 a 1930, Freud e outros “analistas” entraram num debate sobre a psicologia da mulher. No entanto, afirmou ele, em 1928, “tudo o que sabemos do desenvolvimento inicial feminino parece-me insatisfatório e incerto”. Para Freud a vida sexual feminina tinha algo de “um continente negro”[4]. Apesar das afirmativas de Freud, era visível que ele continuava sua empreitada sobre o estudo da sexualidade e obviamente, o feminino prevalecia amplamente como um enigma, na melhor das hipóteses, um grande desafio para os estudos psicanalíticos, ainda mais se pensarmos na época vitoriana – digamos que o feminino o é, ainda, um grande desafio para a psicanálise. A passagem que segue causou um frenesi enfurecido no movimento feminista que despontava no século XIX. Ora, Inveja do Pênis?

A ênfase recai inteiramente no órgão masculino, todo o interesse da criança está dirigido para a questão de se ele se acha presente ou não. Sabemos menos acerca da vida sexual de meninas do que de meninos. Mas não é preciso envergonharmo-nos dessa distinção; afinal de contas, a vida sexual das mulheres adultas é um ‘continente negro’ para a psicologia. Mas aprendemos que as meninas sentem profundamente falta de um órgão sexual que seja igual em valor ao masculino; elas se consideram por causa disso inferiores, e essa ‘inveja do pênis’ é a origem de todo um grande número de reações femininas características. (Freud, Vol. XX (1925 - 1926) – Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud).


Peter Gay na biografia de Freud faz a seguinte consideração acerca dos estudos psicanalíticos sobre o feminino, “(...) a caracterização da mulher como um continente inexplorado é um disfarce para que os homens se defendam, há séculos, contra o misterioso poder oculto das mulheres, qualificando todo o sexo de insondável”[5]. Ainda podemos pensar na possibilidade de uma impotência, uma insatisfação teórica de Freud, como também, na impotência do masculino para a compreensão da mulher. Bem, ainda assim, as mulheres tinham um sexo, mas sejam homens ou mulheres ama-se e deseja-se, pois a pulsão sexual não precisa de alteridade sexuada, o desejo está inscrito nos dois sexos. Roudinesco diz que “Freud introduz uma novidade na classificação, um terceiro termo, o da sexualidade psíquica fundada na existência do inconsciente”[6]. Para o inconsciente não existe feminino ou masculino, o que vai definir-se é um efeito de sentido – uma falta que se situa no significante falo, ou seja, aceitar ou não a castração. E isto vale para ambos os seres. Não se nasce homem ou mulher, embora a anatomia e a cultura sejam o destino e assim, reconhecer-se sujeito numa ou noutra posição. É preciso presentificar com o significante e inscrever uma falta estrutural, assim se dá o caminho do sujeito do inconsciente – a inscrição do desejo e a escolha do objeto.


O AMOR É UMA FALTA


“O amor é um rock e a sua personalidade é um pagode...
O amor é egoísta? Sim sim sim só cuida de si.”

- Tom Zé (O Amor) -



Porque o verdadeiro amor conduz ao ódio? Será que essa pergunta nos conduz para o desafio da violência doméstica contra a mulher? Bem, nos arriscamos nessa aproximação do doméstico, do privado e da conjugalidade e, logicamente, do afetivo; e sendo assim, das ambivalências emocionais – amor/ódio [7] – porque não dizer paixão pela morte... Pulsões de morte.

O amor é uma demanda que evidencia uma falta[8] – falta que está situada culturalmente sob os auspícios do falo. Considerando que o complexo de castração é o que abre espaço para a falta e, ainda, que a castração se dá de forma adversa nos meninos e meninas, cederíamos à ideia  provisoriamente, de que no campo das paixões, o enamoramento também se desenvolve de forma diferenciada entre homens e mulheres. Para a mulher assumir o feminino, existem três saídas: aceitar o seu lugar de objeto, ou seja aceitar a castração; negar a castração e através de uma identificação imaginária com o homem se mascarar de mulher; e, por último, ser mãe e ter o filho como um falo, ou seja, objeto de sua fantasia. Pensando por esta lógica, estaria a mulher mais exposta a paixão, ou seja, num vir a ser, numa posição de passividade, a espera de. Num encontro de. Numa busca de decifração como a Esfinge[9] parada a espera de Édipo. Confuso feminino, que precisa ser arrancado do arrebatamento do Outro materno. O amor passional é sempre feminino nos diz Gori[10].

O endereçamento de amor ao objeto Primordial carrega em si o ódio como equivalente. Ambos dirigem-se da mesma forma ao eu ou ego do sujeito. É preciso trabalhar com a perda do objeto e, para tanto, se faz necessária certa dose de agressão para se fazer sujeito autônomo, que possa responder, posteriormente, por si próprio – perder para poder tornar-se. O ódio consiste em ferir onde fomos feridos ou atingidos e, ainda, ferir-se da forma como gostaríamos de ferir um outro. Na perda do objeto amoroso um turbilhão se faz na cabeça do sujeito, a chama do ódio é incandescida. Reportamos-nos ao mito grego de Jasão e Medeia. Jasão “abandonou” Medeia, sua esposa, por conta de um enamoramento com a jovem Creusa, rica e bela princesa. Medeia, tomada de ódio e raiva pelo abandono do ser amado, não concebe perdão aos amantes. A tragédia tem seu ápice com a morte de Creusa e os filhos de Jasão e Medeia. A esposa “traída” armou uma rede de vingança na qual envolve seus dois filhos. Um crime em nome do amor. Medeia fez-se passar por amiga de Creusa fingindo perdão e apaziguamento de sua dor, no entanto, envia-lhe um belo presente envenenado que foi entregue pelas duas crianças. Medeia matou toda a família de Creusa, assim como seus filhos, para vingar-se de Jasão[11].

Em nosso trabalho com mulheres que sofrem violência doméstica, somos tentados a crer que as denunciantes, antes de serem vítimas, são também coadjuvantes de cenas de ódio e amor em suas relações. Ideia que não as culpabiliza, exatamente, como também não as eximem de participarem. O grande impasse ou contradição se faz na atuação frente ao juiz no tribunal, quando da retirada da representação judicial, pois que realmente surtiria efeito sobre o possível agressor e assim levá-lo-ia a responder por um crime. O ódio nas relações conjugais tanto pela parte de homens ou mulheres, não revelaria um tentativa de curar-se de algo? Ou seria ainda uma culpabilidade? O ódio e a raiva fazem-nos proferir blasfêmias, das mais sombrias possíveis. Tomando como exemplo um boletim de ocorrência da Delegacia de Polícia para a Mulher, onde estamos alocadas com o estágio, constatamos as mais diversas “agressões verbais”. Citamos algumas, para ilustração; “vagabunda”, “vadia”, “puta”, “cadela”, “vou te matar porque você não presta”, “você não é mulher pra mim”, “vô te cortá a cabeça”. Estas são as “declarações” mais freqüentes, que se repetem em diferentes denuncias. E não pensemos que as mulheres não declaram sua fúria apaixonada da mesma forma, pois nos BOs, também descrevem seus conjugues, se não de igual forma, semelhantes declarações são atestadas: “ele é um traste”, “um homem que não presta”, “vagabundo”, “chinero”, “bêbado, mas bom pai”, “relaxado”, “mulambo”, “vadio”, “ele não é homem pra mim” e coisas do gênero.

No inicio do texto falamos que as pacientes de Freud denunciavam na sua clínica a opressão da sociedade da época quanto às funções femininas. O que acontece contemporaneamente a partir da Lei Maria da Penha, embora num local completamente diferente, local da lei e da justiça e não de um ambiente passivo e mediador da palavra, é semelhante, se não igual, quanto ao que denunciam e o que procuram. O que querem estas mulheres? Tomando as suas descrições nos B.Os da delegacia encontramos uma falta, tanto para um quanto para o outro – primeiro uma falta de compreensão, segundo, avaliando a frase que diz “ele/ela não é mulher/homem para mim”, podemos concluir um desencontro erótico/libidinal dos corpos masculino e feminino – objetos num desencontro. Giddens[12] nos faz uma observação muito interessante, num contexto histórico dizia-se que “as mulheres queriam amor, os homens queriam sexo”. No entanto, essa observação, no mundo atual, poderia ser modificada para “as mulheres querem sexo”. Ora, após a “liberdade” sexual e o alcance de uma emancipação da mulher na sociedade contemporânea, não podíamos pensar de modo diferente, ao menos a repressão sexual feminina foi rompida consideravelmente, pois, a mulher deseja e ela é capaz de buscar o prazer sexual, como um componente básico de sua vida e relacionamentos. E então, os homens querem amor? Certamente, pois amar não é exclusividade das mulheres. Ambos tiveram amor pelo objeto primordial, assim como sentiram sua perda e cultivaram suas feridas narcísicas. Mas não estariam os homens numa posição de fragilidade frente ao domínio das mulheres e uma ascensão do feminino? Giddens[13] diz que o sexo é uma maneira de conseguir poder, então as mulheres, além de uma busca de satisfação, estariam envolvidas na busca de poder através do sexo – uma tentativa de alcance do poder fálico.

No estágio na delegacia de policia para a mulher, foi possível desenvolver um levantamento de dados, a partir dos boletins de ocorrência. Desenvolvemos um formulário de pesquisa para registrarmos dados peculiares sobre a violência doméstica. Um dos dados em específico, que vale a pena discorrer e pesquisar mais profundamente, no futuro, refere-se ao alcoolismo. Em torno de 45% dos acusados de agressão às mulheres, estavam embriagados ou sob efeito de substancias psicoativas. Um dado alarmante, supondo que este índice pode ser maior ainda, pois nem todas as mulheres declaram ou falam sobre isso no momento da denúncia.

Podemos afirmar que o alcoolismo está diretamente relacionado à violência doméstica contra mulheres. O álcool é um acelerador, um catalizador da violência. Com freqüência, a vida familiar das esposas e filhos, está às voltas com a dependência do marido, o que os torna, também dependentes ou Co-dependentes, propiciando um relacionamento específico. Giddens diz que:


(...) Uma pessoa co-dependente é alguém que, para manter uma sensação de segurança ontológica, requer outro indivíduo, ou conjunto de indivíduos, para definir as suas carências; ela ou ele não podem sentir autoconfiança sem estar dedicado às necessidades dos outros. Um relacionamento co-dependente é aquele em que um indivíduo está ligado psicologicamente a um parceiro cujas atividades são dirigidas por algum tipo de compulsividade. (GIDDENS – p.101)


Os relacionamentos permeados pelo vício, seja da bebida ou outros, comumente são permeados pelos hábitos, pela rotina cotidiana, o que também propicia recorrentes momentos turbulentos. Esta alusão de rotina ou “mesmice” é um dado presente na fala das mulheres. Um relacionamento desgastado, que na falta de amor transpõem-se ao ódio e aos apelos raivosos. Então, o ódio torna-se um elemento de cura, e, ainda assim, ligado ao amor – “o ódio enlaça o amor no abraço da ambivalência”[14]. Preserva-se um laço afetivo a partir do ódio. Neste pavoroso relacionamento de vício e ódio tende-se a evitar a intimidade com o outro; tende-se também a preservar as diferenças de gênero e as praticas sexuais não igualitárias.

Observamos que, nas audiências da Lei Maria da Penha, o “perdão” por parte das mulheres é muito comum. Elas deixam de representar e dar continuidade a um processo judicial contra seus maridos por conta da falácia: “ele prometeu que vai mudar, não vai mais beber e nem me bater”. Encontramos a mesma frase falaciosa nos dependentes químicos e alcoolistas: “Eu vou mudar”. A mesma frase vale para o relacionamento brutal onde a mulher é vitima da violência conjugal: “Para mim chega, vou mudar e sair deste relacionamento”. Aludimos à frase, o peso de uma falácia, por conta de uma carência de força, por assim dizer, pois os laços da dependência química e conjugal são muito difíceis de romper. Os participantes destas cenas têm uma fragilidade de identificação, pois constroem ligações dependentes – o vício é uma forma primária de segurança que vem do Outro. Temos, de um lado, um marido alcoolista e, de outro, uma esposa dependente da relação obsessiva. Nestes casos o amor conjugal (a compreensão), se fosse encarado como um fármaco poderia trazer, quem sabe, um respiro, uma ajuda, para a libertação dos laços viciosos. Estamos falando de um resgate afetivo dos casais envoltos em violência doméstica. Trabalho que deveria ser feito, não só com as mulheres, mas também, como prevê a Lei Maria da Penha, com os homens, autores da violência. Buscar um equilíbrio para transformar a intimidade, assim feminino e masculino possibilitarem-se viver e reinventar a vida em consonância com seus desejos.



NOTAS:


[1] FREUD – Conferência XXXIII – A Feminilidade – Vol. XXII – 1932. Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud.

[2] Anthony Giddens – A Transformação da Intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas – p. 32.

[3] Ibid – p. 33.

[4] Peter Gay – Freud: Uma Vida para Nosso Tempo – p. 454.

[5] Ibid – p. 455.

[6] Elisabeth Roudinesco – Família em Desordem – p. 128.

[7] Amódio – termo utilizado por Lacan para ressaltar o enlace do ódio e do amor. “Não conhecer o ódio é também não conhecer o Amor”. (Lacan) – Apud Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 77.

[8] Lacan ainda nos diz com sua máxima que “Amar é dar o que não se tem”, ou seja, não temos o falo.

[9] A Esfinge era mulher?! No mínimo pertencente ao gênero feminino. Talvez mesmo, a grande tragédia Edípica não tenha se dado somente, com assassinato do pai e o casamento incestuoso com a mãe Jocasta. Mas Édipo decifrou a Esfinge, a qual se joga de um penhasco após a decifração, ou seja, é o horror frente ao não saber-se, o horror frente ao sujeito humano (homens e mulheres).

[10] Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 79.

[11] PORTAL GRÉCIA ANTIGA – http://greciantiga.org

[12] Anthony Giddens – A Transformação da Intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas – p. 79.

[13]Ibid – p. 81.

[14] Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 99.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


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GAY, Peter. Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo. Tradução de Denise Bottmanns. SP: Companhia das Letras – 1989.
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APOSTILA DA DISCIPLINA DE METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO. Unijuí. 2001. TEXTO DO PROJETO DE ESTÁGIO COMPOSTO PELA PROFESSORA IRIS FATIMA ALVES CAMPOS. UNIJUÍ. 2008


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