Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


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sexta-feira, 1 de abril de 2011

ESTÁGIO EM ENFASE SOCIAL




Um resumo de experiência: (Fala proferida aos estudantes do 1° e 2° semestre de Psicologia da UNIJUÍ) 
* Luciana V. K. Mai.

Partiremos de uma primeira questão:
- O que são processos sociais?
Tentando responder:
É aquilo que circunda a condição humana: (movimentos, mudanças, condição sócio-histórica no contexto de cada época). Os processos sociais são referidos as questões macro e micro histórica. Primeiro, a leitura de um todo da sociedade, numa amplitude mais abrangente conforme seus aspectos inerentes ao socios. Depois, e o mais importante, refere-se as questões do indivíduo, as questões do sujeito: as suas singularidades e a sua subjetividade. A partir disso poderemos ter uma leitura dos processos sociais.

Em Psicologia das Massas e Analise do Ego (1921), Freud nos oferece uma “bomba” quando nos diz o seguinte:
“A psicologia individual é ao mesmo tempo uma psicologia social”.

Em meu estágio trabalhei, por exemplo, com o processo de exclusão social, de vulnerabilidade social e com o fenômeno da violência. Na prática trabalhei com várias subjetividades, aquilo que é de cada sujeito e que comumente dizemos: cada caso é um caso, respeitando, assim, aquilo que vem de maneira singular: o pedido, a demanda, o sofrimento de cada sujeito.

Eugène Enriquez nos oferece esta máxima:
“Torna-se claro que o indivíduo não existe fora do campo social... A psicanálise é uma ciência psicosocial tendo como característica perceber que é a outra cena (aquela do inconsciente, aquela do imaginário) é tão interessante quanto aquela do visível, o objeto habitual das ciências sociais”.

O estágio em ênfase social, erroneamente, parece se confundir com um trabalho meramente burocrático, de pesquisas e entrevistas.... Especialmente aquilo que não é da clínica, por exemplo. E, enquanto, estudantes de psicologia, estamos ávidos pelo atendimento clínico. Mas lhes digo, na ênfase social também produzimos uma escuta – a escuta do social, portanto, temos como prática a clínica do social. A ferramenta (instrumento) essencial de qualquer prática referente a psicologia, sem dúvida é a clínica, bem como as suas ferramentas teóricas que garantem um lugar ético e profissional. O método clínico dentro das instituições é o pilar mestre, independente do projeto que se escolhe. No meu estágio procurei marcar uma posição ética a qual, por minhas afinidades, foi a ética da psicanálise.

Meu estágio em ênfase social foi no CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social do Município de Ijuí. O objetivo era trabalhar junto as famílias dos adolescentes que cumpriam medidas sócio-educativas de internação, ou seja, adolescentes infratores.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Salmo de Repúdio à Schreber: O Deus dos Nervos.



Enoja-me a arrogância de Schreber.

Sinto nojo de sua loucura e de sua capacidade de loucura.

Vontade de dar na cara desse maluco!

Desespera-me a sua incredulidade e seu poder de Deus.

Porque ele e não eu?

Queria poder sentir os raios divinos percorrendo com ânsia o meu corpo anoréxico e hipocondríaco.

Queria ser homem e sentir-me mulher no momento da cópula.

Schreber, eu te abomino, filho do sol. Filho de um louco, mais louco que tu.

Quisera ter o poder de recomposição para fugir de minhas sombras de pensamentos.

Desgraça! Desgraça!

Náusea-me que Deus, na sua decadente onipotência, o reconstrua novamente.

Rogo-te todos os venenos dos cadáveres de teu pai – apodreça verme! E que em teu estupor alucinatório, aquele Deus de teus delírios, te faça sofrer sem vísceras.

Que ao contrário da ordem das coisas, Miss Schreber, Deus te coma pelo rabo, seu maldito!

Redentor, progenitor ah como te detesto!

Eu quero, na minha agridoce inveja, nem que seja uma pena dos teus pássaros negros. Quem sabe mesmo, que você sinta pena de mim.

Schreber diga, diga alto e em bom tom, para as almas do teu inferno particular, para que elas encontrem a minha alma e, então, possam me dar um nervo de teu Senhor. Pois preciso disto para aliviar as minhas fantasias e os meus pensamentos sem grandeza – esses pensamentos duvidosos que temem demasiadamente o Deus Arimã.

Schreber seu arrogante e narcisista, quem mais poderia dizer dos pássaros miraculosos e dos pássaros falantes? Que outra alma mais infame que a tua?

Teu eu não existe! Ninguém te avisou? Não te avisaram que o veneno da ptomaína é veneno de tua bastarda mãe e untado por teu pai tirano? Coitado! O veneno é teu espelho decadente. Quisera poder sussurrar em teus ouvidos esta frase.

Louco arrogante extraordinário filho do sol, és uma águia. Serias capaz de furar meus olhos e, assim, me cegar por completo até o cair de minha pena e de minha voz?

Eu engulo a seco o meu fraco e franco narcisismo melancólico, pois não sou hábil o suficiente nem para ver o demônio – tenho sim, confesso, uns demônios pobrezinhos, diabinhos dentro de mim – diabinhos do prazer de repetir rituaiszinhos diminutos sem qualquer beleza translúcida.

Meu pobre eu é dominado por uma dívida avulsa, sem preço e impagável. De que me adianta arrancar-me a pele para purificar bactérias, se não sou capaz nem de um leve delírio de grandeza? Os vírus e as bactérias riem de mim, então tenho que amortece-las sob a etílica vontade de morrer.

Meu pai talvez seja filho do coco de teu pai miraculoso, ou seja, um verme. E eu filha deste verme.

Schreber Deus dos Nervos tu és um assassino de almas, de sonhos e de fantasias. Eu te vomito te defeco e te enclausuro na minha dor.

Tu és um veado, louco para dar o rabo!

Deus dos Nervos eu te rumino em eletrochoques dos meus neurônios incandescidos. Enquanto eu pensar, mais te eletrocuto seu ordinariozinho.

Ah! Schreber Semideus espedaçado tenha piedade de mim!


- Luciana Mai -  (07.04.2010)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Da Horda ao Estado


* Luciana V. K. Mai - Psicologia Unijuí.


Freud discorreu, em “Totem e Tabu” sobre a importância da morte do pai da horda primitiva como um evento constitutivo da civilização. Para ele, este ato foi necessário para a transformação da vontade de um único, em uma lei comum, marcada pelo interdito do incesto. Então, a civilização, a cultura e o social são dimensões, instâncias criadas e organizadas pelo homem, de forma política.

Este texto freudiano juntamente com o texto “Mal Estar na Civilização”, são produções indispensáveis para se pensar o social. Em nosso estágio tornaram-se bases sólidas quanto às questões que nos remetem aos temas do vínculo familiar, da violência, da lei simbólica, do Estado e da própria constituição das instituições.

“Totem e Tabu” nos norteou, quanto aos fundamentos dos processos sociais, ou seja, daquilo que circunda a condição humana. A exemplo de nosso estudo, com adolescentes em conflito com a Lei, constantemente somos convocados a questionar o que o social tem haver com o sujeito. Que sujeito é esse? Que cultura é essa? Assim, saímos de um pensamento centrado no indivíduo, para o olhar do sujeito, implicado no social. Destacamos do texto, interpretado por Engène Enriquez, algumas passagens significativas que contribuíram para a construção de alguns pressupostos teóricos.

Enriquez assim enuncia: “A humanidade nasceu de um crime cometido em conjunto. Crime do qual não pode jamais se libertar. Este crime não é senão, o prelúdio de uma série ininterrupta de assassinatos, que parece ser o corolário normal da existência humana em sociedade” (p. 29).

O mito, contemporâneo, da horda primitiva, criado por Freud, chega mesmo a nos assombrar. Se desdobrássemos a frase, diríamos que nos assombra, verdadeiramente, em todos os sentidos, pois, a humanidade carrega e transmite incessantemente a marca deste fantasma. A cultura resumida em uma premissa: ela própria é a constituição psíquica do sujeito. Então, se a humanidade nasceu de um crime, ela mesma se compromete na redenção deste crime, através de uma série de significações expressas na organização da sociedade e na organização psíquica do sujeito – constroem-se objetos para fundar uma subjetividade.


(...) A impotência os torna irmãos (a exclusão), mas não basta; primeiro tem que se estabelecer uma relação de solidariedade, então reconhecer o outro enquanto outro e enquanto semelhantes, daí se reconhecem como irmãos. Eles se descobrem irmãos. Eles se identificam uns com os outros (o desejo é compartilhado). Experimentam a solidariedade e reconhecem o vínculo libidinal que os une no ódio comum contra o pai. (ENRIQUEZ – p. 31)


A “fórmula” da horda primitiva nos leva à compreensão da origem da cultura, pois, sem um ato fundador, o homem seria apenas um bípede, sem penas. Na medida em que este homem reconhece os seus semelhantes e se reconhece enquanto sujeito, ele transforma-se num ser social que passa a estabelecer laços significantes, ou seja, constitui-se a partir da dimensão da linguagem. Algo precisa ser referência para que se faça laço social – “a impotência os torna irmãos” – na luta contra um pai selvagem e violento. Portanto, a identificação é um dos primeiros laços. Posteriormente, estabelecesse-se uma relação de solidariedade para assim, reconhecer o outro e compartilhar um desejo em comum. Matar o pai da horda é fazer um ‘furo’ que adentre numa dimensão simbólica indispensável para criação da cultura.


(...) O parricídio é indispensável para a criação da cultura, ele nos introduz no mundo da culpabilização, da renúncia (tanto da realização do desejo, como ao desejo de realização), da necessidade da referência de uma lei externa transcendente. Tudo isso se manifestará em organização social, restrições morais, e da religião. (ENRIQUEZ – p.34)


Funda-se um pai, funda-se a lei e estabelece-se uma culpa compartilhada por todos e que é paga com constantes renúncias, ou seja, renunciar a um gozo numa dimensão de alteridade, para dizer de uma falta própria. A culpa encontra sua origem no retorno do amor sob a forma do remorso. O amor está, assim, na origem da consciência moral perpassado pelo sentimento de culpa. O símbolo deste ato agressivo de assassinato do pai causou remorso pelo amor que devotavam; aliás, é o próprio ato que cria um pai. Amor e ódio estão assim conjugados na fundação do laço social. Sem a apropriação desses conceitos, parece-nos improvável que um profissional de psicologia possa dialogar com a psicologia social e conjugar sujeito e cultura.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mal Estar na Cultura: Freud



* Luciana V. K. Mai - Psicologia Unijuí.


Quando da escritura do texto “Mal Estar na Cultura”, Freud teceu as seguintes considerações:

“Em nenhum de meus trabalhos anteriores tive, tão forte como agora, a impressão de que o que estou descrevendo pertence ao conhecimento comum e de que estou desperdiçando papel e tinta.... para expor coisas que, na realidade, são evidentemente por si mesmas”.

“O que eu haveria de fazer? Não se pode fumar o dia inteiro e jogar cartas; não tenho mais firmeza para andar, e a maior parte do que se pode ler não me interessa mais. Eu escrevi, e passei muito agradavelmente o tempo com isso”.

As reflexões de Freud suscitam a sua dúvida, como também, uma necessidade teórica da psicanálise em consonância com uma leitura mais sociológica da civilização para que se possa dar conta daquilo que vem dos homens pelo social. Em carta para Lou Andréas-Salomé, ele diz: “Este livro trata da civilização, do sentimento de culpa, da felicidade e de outras coisas nobres do mesmo gênero....” Mas segue dizendo que, “(...) Enquanto me dedicava a este trabalho, descobri as verdades mais banais”.

Quando Freud se refere às verdades banais, nos reportamos ao Capítulo II, onde ele nos ilustra varias formas de se obter a felicidade. Ora, existiria coisa mais banal do que a chamada felicidade? Na seqüência do Capítulo III, a sua premissa nos leva a crer que sim: “(...) A nossa investigação sobre a felicidade não nos ensinou quase nada, que já não pertença ao conhecimento comum”. No entanto, esta coisa chamada felicidade é o que o homem mais persegue e, para compreender este percurso da civilização humana, a grande questão não é propriamente o que o faz feliz, mas o que o homem faz, no sentido da ação, da atividade na cultura, para evitar o sofrimento.

Quais seriam as fontes do sofrimento humano? Freud nos indicou três elementos:
- O poder superior da natureza;
- A fragilidade de nossos próprios corpos.
- A inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade.

Quanto aos dois primeiros elementos, não há como discordar: “Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e de realização”.

Mesmo que o homem domine toda tecnologia, ciência, arte e intelectualidade, o que permanece, transforma-se em processo da civilização – um processo sócio-histórico; seu corpo propriamente se desintegra; sua matéria é incorporada ao grande todo da natureza. Como em poesia de Augusto dos Anjos: “Eu filho do carbono e do amoníaco, digerido e carcomido pelos abomináveis vermes da morte que fazem parte da terra”. No entanto, nada disso paralisa o homem, pelo contrario, ele se serve de seus conhecimentos para aprimorar aquilo que lhe traga momentânea parcela de prazer e felicidade. O saber da morte e sentimento de sofrimento move a civilização, a impulsiona na criatividade das próteses da vida. A contemporaneidade nos prova isto de maneira muito clara, se pensarmos nos elixires, cremes, cirurgias estéticas e toda gama de ciência e tecnologia médica e estética a procura da longevidade. Afora as logosofias, espiritualismos, religiões e auto-ajuda para o homem melhor desfrutar aquilo que chama de vida. Desta forma, o movimento da vida procura, de todas as formas, evitar o movimento da morte. Aquilo que Freud, lá no texto das Pulsões e no texto Além do Princípio do prazer, já antecipava, uma luta constante de EROS e Thanatos.

A terceira fonte do sofrimento humano, poderíamos dizer que é o próprio homem em ação sobre si mesmo. Freud chama de “A Fonte Social do Sofrimento Humano” e acrescenta dizendo que esta fonte é uma parcela de nossa própria constituição psíquica. Ou seja, não há como fugir, ela faz parte de nós. Então, nossa fuga é fuga de nós mesmos. “Todas as coisas que o homem busca a fim de se proteger contra ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte da cultura”. Freud usa o seguinte argumento: “O que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

A cultura humana é algo superficial, não faz parte da natureza. As regras, a família, o Estado, a religião, a sociedade, são criações do homem civilizado numa tentativa de conter os efeitos devastadores daquilo que ele mais anseia – o prazer de um gozo ilimitado, a plena e desconhecida felicidade que tanto o homem almeja para sair de uma condição de prótese artificial. Pois se a natureza goza, então, o homem se sente, também, no direito de desfrutar o impossível, sendo que ele é uma extensão da natureza, mesmo numa condição de artificialidade.

Freud afirma: “Não nos sentimos confortáveis na civilização atual”. E ainda, “a felicidade é algo essencialmente subjetivo”. Então, cada homem, por sua vez, procura da melhor forma e de acordo com sua época, produzir o que lhe traga prazer e alivio do sofrimento. Pois não existe um estado pleno e geral de felicidade e prazer, isto seria o Caos, um estado primordial de origem. Mas se ele existiu, o homem procura ainda este efeito de estado nas coisas e na vida. Diríamos que é uma constante e, então, voltamos às vicissitudes da pulsão. Neste processo de cultura o homem aprendeu a se proteger e criou mecanismos para tolerar as suas frustrações numa sociedade que lhe impõe limites, por isso, doravante, a proteção se faz por meio de um sintoma social, onde o mesmo é fonte e alivio do sofrimento. Freud nos traz como exemplo a religião, ou como ele mesmo nos diz “a vitória do cristianismo sobre o paganismo”, ao qual supomos a neurose – a estrutura ou enfermidade neurótica como uma forma de fuga da sociedade que faz o homem sofrer. Na impossibilidade de tolerar a frustração cultural ele retorna para aquilo que, supostamente, o realizaria na felicidade – viver na fantasia os ideais culturais.

Freud nos provoca a pensar na natureza da civilização. Então, o que é a civilização? “... a palavra civilização descreve a soma integral de realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber, o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos”.

Na história da civilização o homem dominou a língua, o fogo; atravessou o oceano e conquistou novos mundos e povos; aprendeu a escrita e, assim, representou o mundo. A aquisição cultural do homem o transformou num semi-deus – uma concepção de onipotência e onisciência; Freud o chamou de Deus de Prótese. No entanto, o homem com seus ideais culturais e em seu papel de semelhante a deus, não se sentiu feliz. Não basta ser deus é preciso ser belo. Talvez possamos pensar que a civilização realmente começa quando o objetivo primário de satisfação de necessidades é abandonado. O homem civilizado reverencia a beleza, a cultura e passa a ter preocupações para além do valor prático.

O homem se serviu de toda uma gama de criações culturais para regulamentar e ordenar os relacionamentos mútuos, pois, substituiu o poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade. Saiu da barbárie para se civilizar. “A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização”. Isto quer dizer que o homem cria o Estado e as Leis para servirem de exemplo e regra a um todo maior; essas Leias passam a ser inseridas de forma natural na convivência entre os homens, com o objetivo de conter as pulsões primitivas que ainda o habitam. De qualquer forma, a ordem sempre está por um fio tênue; então, a cultura exige sublimação contínua. A limpeza, a beleza e a ordem são os primeiros indicativos da cultura civilizada. Freud, inclusive ironiza, citando o sabão como um símbolo da real civilização. Ora, a profilaxia, a higienização são movimentos de prazer e que podem reverter-se em sofrimento. A natureza conserva o estado primordial, então, consequentemente, conserva o principio de prazer, que por ora nos aventuramos a comparar com a estética e com o estado de liberdade. Nada que lembre a sujeira da morte faz o homem ser livre. A ordem estética, em nome do belo, produz um efeito de liberdade.

O homem é um ser protético e a sua liberdade também é uma prótese ou, na melhor das hipóteses, uma garantia de ilusão, pois a humanidade só entrou em relações humanas civilizadas por meio de um contrato social que conferiu ao Estado o poder de coerção. A justiça é feita exclusivamente pela comunidade dos homens, só a ela cabe fazer o que é justo, nenhum indivíduo está autorizado a fazer justiça com as próprias mãos sem a devida punição da comunidade. Liberdade, então, é uma ilusão.

Em suma, as instituições sociais são, sobre tudo, barreiras contra o assassinato, o estupro e o incesto. A vida em sociedade é como uma imposição; tais barreiras funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade, apesar de que também geram seu mal estar... Cabe à cultura interferir no desejo dos indivíduos, suprimindo, reprimindo as necessidades pulsionais primitivas, que continuam a supurar no inconsciente e buscam constantemente uma vazão de força ilimitada.

Referências:

FREUD, Sigmund. O Mal Estar na Civilização – (1929 [1930]) v. XXI. In: ____ Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
GAY, Peter. Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo. Tradução de Denise Bottmanns. SP: Companhia das Letras – 1989.
HENRIQUEZ, Eugène. Da Horda ao Estado: psicanálise do vínculo social. Tradução de Teresa Cristina Carreteiro e Jacyara Nasciutti. RJ: Jorge Zahar Editor – 1996.
MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Tradução de Álvaro Cabral. RJ: LTC Editora, [199?] – 8º Edição.

sábado, 16 de outubro de 2010

Adolescência e Violência:

Recentemente escrevi este textinho que vou postar aqui. A sua escritura se deu por conta do meu estágio em Ênfase Social no curso de psicologia. O projeto de estágio trabalha com o tema dos adolescentes em conflito com a lei. No mês de setembro tivemos um triste episódio com um dos adolescentes do projeto, o que me deixou, particularmente, tomada por algumas questões, como também, ávida pela pesquisa e o desenvolvimento teórico. A dor nos faz escrever, não tenho vergonha de dizer isso. Um sofrimento reconhecido é uma motivação, parafraseando Calligaris.

***

    “É preciso conviver com os homens.
É preciso não assassiná-los!”

- Carlos Drummond de Andrade –


A nossa surdez e a indiferença frente ao outro, denunciam o potencial destrutivo que habita em cada um de nós. Partindo desta reflexão, queremos conjugar adolescência e violência, dois termos que agregam em si mesmos, infinitas e diferentes abordagens de estudo e discussão. Para nos guiar neste texto fizemos a seguinte interrogação: Por que os jovens são apontados como os representantes dos maiores índices de violência, se os dados de 2002 apontam que apenas 10% do total de crimes ocorridos no Brasil são praticados por eles, e desses, cerca de 90% são delitos contra o patrimônio? Em contra partida os adolescentes são as principais vítimas deste fenômeno social, dados da UNICEF de final de 2009 apontam que aproximadamente 16 crianças e adolescentes morrem assassinados no Brasil por dia.

A partir da escuta dos adolescentes em conflito com a lei e dos seus respectivos familiares parece-nos muito ingênuo querer responder de forma direta, apontando aqui ou ali os problemas dos adolescentes e da violência, pois são questões singulares e sociais, que se mesclam e interagem. O social é feito de nossas singularidades, portanto, o social do qual falamos aqui é uma configuração humana que passa a ter sentido pela ordem do discurso. Ou seja, é um Outro que me dá a condição de existência subjetiva, singular e, consequentemente, social.

Quais seriam os agentes potencializadores que levariam os adolescentes a desafiar a Lei, depredando o patrimônio público, violando o semelhante através de agressões físicas, furtos e roubos? Uma das questões que devemos levar em consideração é o processo de subjetivação da adolescência na contemporaneidade como um agente potencial para a produção da violência. O desafio constante dos limites da Lei, e os atos agressivos e destrutivos evidenciam a fragilidade dos adolescentes seja do vínculo familiar, seja da vulnerabilidade social – o que aparece é uma posição de angustia frente aos seus desamparos.

Diante disso, podemos afirmar que, “ninguém nasce mau, ninguém nasce bandido, é tudo uma questão de subjetividade, transmissão e oportunidade”. Há poucos dias a mídia noticiou a morte de um jovem de 17 anos, assassinado. Para muitos ele não passava de um delinqüente, um marginal, porém era um jovem, um adolescente jogado na solitária e individualista rede da contemporaneidade, mais um número para os índices da violência. Ele era um sujeito – um sujeito de angústia e de desejo. Na busca desesperada por uma lei que lhe dê suporte desde a infância, muitos adolescentes transgridem, fazem uma busca desesperada por um olhar que lhe diga algo, em outras palavras, buscam que o Outro lhe reconheça e se faça ver.

Esse ato violento, da morte desse jovem, que testemunhamos em nossos jornais, não deve ser vista como um exemplo a outros jovens, pois, violência nenhuma deverá servir como método pedagógico ou coercitivo. Devemos, sim, sermos solícitos e oferecermos a nossa alteridade. Pensar a violência e a adolescência não é matéria fácil e muito menos de uma página, mas deixaremos três questões para serem pensadas: “violência enquanto resposta aos impasses da condição de adolescer; a fragilidade da função paterna e os ideais sociais contemporâneos”. Sem estas conjugações, é improvável que se possa falar deste tema de forma plausível.


* Luciana Valquíria Kremin Mai - Acadêmica de Psicologia Unijuí.


# Sugestão de Leitura:

BAIXE AQUI: Correio da APPOA nº 189 de abril de 2010 (Associação Psicanálitica de Porto Alegre)
Tema: Ato e Transgressão.

sábado, 14 de agosto de 2010

“A LOUCURA DA SAÚDE MENTAL”

*Luciana V. K. Mai


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o real está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

- Fernando Pessoa -

 
No Tarô de Marselha, a carta “O Louco”, é marcada pela ausência de numeração, para significar que está à margem de qualquer ordem ou sistema. As alegorias da figura mostram um homem de costas, caminhando com um bastão na mão e segurando no ombro um pau em cuja extremidade há uma sacola – simbologia comum para ilustrar um viajante, retirante – alguém que parte para o mundo desprovido de posses, ou ainda, sem lugar para ficar no mundo. O traje do Louco é de várias cores que se organizam de forma incoerente. Lembra um bufão, figura que fazia a caricatura da corte, de reis e senhores. O Louco lembra um homem solitário e errante que atravessa os campos, sendo agredido por um animal, pois ele não se preocupa com os perigos do caminho porque se sabe invulnerável e imortal, por isso mesmo exposto a todo tipo de faltas.

A representação mística desta carta fala de incoerências, impulsividade e ausência de racionalidade, perda do livre-arbítrio, passividade, inconsciência, perigo de se isolar da sociedade, entre outros auspícios, digamos, negativos, sob um ponto de vista do senso comum. Mas, três características fecham os desígnios do Louco: instinto ativo; irracionalidade e caos.

Na Renascença viu-se surgir uma nova e estranha figura ao longo dos canais flamengos e dos rios da Renânia: a Nau dos Loucos, como ilustrou Hyeronimus Boch. Já por aquela época, os loucos tinham uma existência errante. Escorraçados das grandes cidades, expulsos de suas fortificações e condenados à peregrinação, foi-se firmando o costume de confiá-los, também, aos barqueiros. Desta prática surgia a certeza de que os insanos iriam para longe o quê – nas palavras de Foucault – “os tornava prisioneiros de sua própria partida”. É o mesmo autor quem assinala o caráter simbó1ico da atitude: "A navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela, cada um é confiado ao seu próprio destino; todo embarque é, potencialmente, o último. É para outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca" .

A loucura, a partir do século XVI, passa a ser vista como o oposto da razão – loucura como sinônimo de irracionalidade. O Louco ultrapassou a loucura, no sentido estrito de uma preocupação ligada ao imaginário da renascença, para tornar-se um problema sócio-político-cultural e econômico. Ele passou a ser um transgressor da norma e, consequentemente, uma fonte de problemas, ligado ao coletivo/social, preso pela moral e os bons costumes. Portanto, os loucos eram todos aqueles que, de alguma forma, transgrediam as leis da sociedade civil – vagabundos, prostitutas, agitadores, pobres, mendigos, criminosos – e eram tratados de maneira uniforme. No mais, eram sempre aqueles que estavam a margem de um padrão considerado normal.

A partir do século XVII, a loucura perpassa por uma classificação de ordem médica, uma espécie de higienização dos costumes. O louco começa a dialogar com o médico, mas a dinâmica da exclusão ainda encontra-se presente, pois é sempre uma classificação por conta dos opostos normal/anormal, razão/desrazão. Novas práticas suscitam uma relação de cura – a loucura é uma doença que pode ser tratada, o louco é um doente que deve ser curado para poder integrar-se e cumprir seu dever de individuo, numa sociedade trabalhadora e produtora de normas – uma sociedade sob os auspícios da neurose.

A exclusão do diferente permeia os discursos no modo como a loucura é vista nas diferentes épocas, seja o louco um personagem da caridade religiosa ou do tipo ocioso e perturbador da ordem ou ainda, um indivíduo doente que perturba a sociedade e é incapaz de integrar-se a ela e produzir, além de representar um perigo social. É a partir desta nova sensibilidade em relação à loucura que nasce a idéia de reclusão – as casas de internação ligadas à ciência da medicina, que no século XVIII desponta e então classifica, emergindo assim, a relação da loucura com a medicina.

Iniciamos com uma pequena ilustração histórica da loucura na sociedade moderna. Neste nosso trabalho abordaremos um pouco da história da saúde mental na contemporaneidade, para falarmos do Movimento Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica. Nosso objetivo, a princípio, é pensar esse tema no contexto das políticas públicas no Brasil; para tanto, nos municiamos de textos pertinentes ao tema e, por fim, do filme O Solista.

O processo decorrente da Reforma Psiquiátrica foi o Movimento Antimanicomial, que teve início na década de 70 (no Brasil), e definida pela Lei 10.216 de 2001, como diretriz de reformulação do modelo de Atenção à Saúde Mental, que transferiu o ponto principal do tratamento, para a Rede de Atenção Psicossocial, estruturada em unidades de serviços comunitários e abertos. A reforma psiquiátrica teve como objetivo modificar o sistema de tratamento clínico da doença mental, eliminando gradualmente a internação como forma de exclusão social. Além disso, objetivou a desativação gradual dos manicômios e a promoção da inclusão social daqueles que sofrem de transtornos mentais.

Neste processo histórico-social de mudança ético-política em relação ao louco no sentido deste afirmar-se como sujeito de direitos e de desejos, foram-se estruturando movimentos, tais como os movimentos de portadores de sofrimento psíquico, de trabalhadores de saúde mental, de familiares e outros em várias partes do mundo. Exigiram-se mudanças em legislações, criaram-se leis e declarações de direitos humanos. Questionou-se o lugar dos profissionais de saúde, os possíveis modos de intervenção e inovações teóricas, provenientes de diversos campos do conhecimento, os quais contribuíram na desconstrução de práticas na área de saúde mental. Foram desdobramentos que permitiram um novo olhar sobre a doença – um ‘repensar’ o lugar do sujeito-objeto e a posição do profissional de saúde, principalmente, quanto à psicopatologia, ligada à exclusão social.

Mas, afinal, o que é a antipsiquiatria e quais são suas origens? O movimento antipsiquiatrico surge na década de 50 e assim foi denominado por um grupo de psiquiatras britânicos. O movimento estava em consonância com as ebulições sócio- políticas-econômicas-culturais da época. Não só lutavam contra os eletrochoques e restrições de liberdade infringidas aos doentes mentais como também contra os princípios nos quais se assentavam toda a medicina mental, como a distinção entre louco e normal.

Na busca das origens do movimento podemos encontrar, por exemplo, a luta contra os muros manicomiais, ou seja, a privação de liberdade; além disso, outras lutas sociais anti-repressivas agregaram-se, tais como, o movimento estudantil, os movimentos ecologistas e os esquerdistas, que reivindicavam um mundo melhor e mais livre. Poderíamos dizer que foram movimentos utópicos que produziram mudanças no pensamento sobre a saúde mental – uma dimensão utópica que deu força e matiz para desencadear mudanças. Além destes desdobramentos, um último componente se fez particularmente presente e igualmente, se não mais, importante – a filosofia de Sartre que prenunciava um humanismo libertário – junto aos quais, o Movimento Surrealista e o Maio de 68 (o Maio francês).

Neste contexto histórico, pensando no Brasil, os hospitais psiquiátricos surgiram no final do século XIX, profundamente influenciados pela psiquiatria francesa e pelo tratamento moral. O primeiro foi o Asilo Pedro II, no Rio de Janeiro fundado em 1853. O Hospício São Pedro de Porto Alegre, hoje Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP), foi inaugurado em 1884. Os doentes mentais constituíam uma população específica, com perda de sua autonomia e por isso, vulnerável e muitos em situação de extremo abandono.

A antipsiquiatria, se pensada na contemporaneidade, não desapareceu; mas se transformou e se disseminou, possibilitando emergirem novas iniciativas e novas políticas públicas, além da continuidade da luta antimanicomial, pois os locais de internação ainda existem. É importante fazer a ressalva de que não é a extinção de hospitais psiquiátricos que, necessariamente, se desejou através das lutas, mas um novo olhar para o doente mental; um novo olhar sobre a doença, ou seja, a inclusão do doente mental ao invés da clausura ou do isolamento social.

Uma das principais contribuições da antipsiquiatria foi a discussão sobre o normal e patológico. Sob este ponto, quando nos referimos ao filme O Solista, podemos abrir um longo debate. Podemos abordar a questão do personagem Nathaniel e sua solidão e fazer um contra ponto com o personagem do jornalista que, por ironia, tenta salvar o psicótico de sua doença. Mas queremos pensar, justamente, na nossa normalidade cotidiana que alcança níveis de doença, enquanto que o Solista, dentro de sua loucura, não faz outra coisa senão, encontrar a saúde através de sua solidão artística ou delírio. No entanto, para nós, um doente que precisa ser curado.

Bem, se pensarmos na “loucura” da vida cotidiana, no tempo que nos consome, nas rodovias cheias de carros que vão e que vem num ritmo neurótico, em nossas casas e apartamentos solitários; na família distante e na vida estressante do trabalho e do consumo, poderíamos supor ser tudo isto um referencial de normalidade? Lembramos que podemos nos referir ao sofrimento do corpo e ao sofrimento da alma. “(...) Phatos não nasce no corpo, pois vem de longe e de fora. Mas passa necessariamente pelo corpo, ele brota no corpo e rege as ações humanas.” Phatos é relativo à paixão, à passividade, ao sofrimento; todas, situações em que se pode tirar proveito, para que se transformem em experiência – um discurso terapêutico sobre o sofrimento.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O FEMININO, A VIOLÊNCIA E O AMOR





“Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero”.
(Eduardo Galeano – Mulheres – “Janela Sobre Uma Mulher/1)


“Não existe um significante que diga o que é ser uma mulher”.
(Lacan)



“(...) A Psicanálise não tenta descrever o que é a mulher – seria uma tarefa difícil de cumprir – mas se empenha em descobrir como a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual.”.("A Feminilidade” de 1932[1], Freud procurou responder sobre o feminino)





Nosso propósito com esta construção é falar do feminino, fazer uma interlocução com a psicanálise e a área social para que possamos dar conta do tema da violência contra a mulher, especificamente a violência doméstica. Para tanto, nos sentimos intimamente ligados à produção clínica de Freud e aos seus trabalhos sobre a histeria. Mas, queremos avisar que o tema em questão é tão amplo, que se torna difícil nos determos num único foco. Por isso nosso olhar se desdobrou – nosso olhar transformou-se num farol que quer iluminar e a tudo observar, assim, quem sabe podemos pensar algumas questões peculiares. Ou mesmo, num sentido derivado, sermos um farol que apenas quer seduzir, pois as aparências de um olho que tudo vê, pode ser falacioso... Lembrando que quem fala é uma mulher. O que quer uma mulher? Estamos no âmbito familiar. Então, que família é essa? Qual a implicação dos corpos no jogo da paixão e da violência? E o que querem os homens?

É interessante pensar que a psicanálise nasce do “encontro com as mulheres”, por assim dizer – um encontro clínico. Vários autores da área psicanalítica e afins afirmam que a psicanálise foi inaugurada pelas histéricas. Ora, nos idos de 1900, vemos irromper nas sociedades europeias as denúncias das mulheres oprimidas socialmente. As pacientes de Freud, em sua maioria mulheres, revelavam sua intimidade num encontro entre quatro paredes e denunciavam o primado do falo. Emmy Von V. disse a Freud: “Me deixe falar” e assim inaugurou a “talking cure”. Confuso, Freud não sabia, ao certo, o que as mulheres queriam dele... E Dora questionava: “O que é uma mulher?” Será que Freud, não foi o primeiro homem a suportar o grito feminino, o primeiro a dar ouvidos às loucas, malditas, bruxas, feiticeiras, cortesãs... As histéricas, por assim dizer... Com certeza, embora saibamos que o propósito, deveras era outro – era a ciência da psicanálise ou a teoria da sexualidade?!

As “denunciantes” da clínica Freudiana falavam de sua insatisfação, do isolamento, da sexualidade reprimida. Desconheciam o prazer, por vezes culpavam-se e, assim, “vomitavam”, paralisavam seus membros, tossiam nervosamente... Mulheres e adolescentes que chegavam até Freud com queixas do corpo. Meninas-mulheres destinadas ao casamento e a procriação. Casamentos de conveniências e vidas ligadas às futilidades domésticas. Mulheres de uma alta sociedade que descobriam, pouco a pouco, possibilidades sociais e culturais, como a exemplo estudar e trabalhar – uma força emancipatória – porém encontravam-se ‘esmaiadas’. E para Freud queixavam-se, não com um grito feminista especificamente, mas nascia ali, implícito o desejo de desfrutar os prazeres “proibidos” e questionar a cultura do patriarcado que estava marcado por uma decadência. Roudinesco nos diz o seguinte:


A partir de 1889, e durante um século, o pai não se constrói como tal senão porque tem obrigações morais para com aqueles a quem governa. Seu estatus lhe impõe obrigações e, caso não às observe, é capaz de naufragar na indignidade e perder seu direito a ser pai. (ROUDINESCO – FAMÍLIA EM DESORDEM – p.41)




Anthony Giddens nos diz que em 1889 a palavra sexualidade aparece publicada em um livro num sentido próximo ao que nos é hoje, ou seja, referindo-se a qualidade de ser sexual, ou possuir sexo, assim a publicação “(...) preocupava-se com o porquê das mulheres estarem predispostas a várias enfermidades que não afetavam os homens – algo atribuído a sexualidade das mulheres”. [2] O autor comenta que este fato estava relacionado à tentativa de se manter sob controle a atividade sexual feminina, pois estava à luz das preocupações da sociedade do início do século XIX. O prazer sexual das mulheres que era considerado anormal. A sexualidade, como nos diz Giddens e Foucault, “(...) é uma elaboração social que opera dentro dos campos de poder”. [3]

Pelos idos de 1920 a 1930, Freud e outros “analistas” entraram num debate sobre a psicologia da mulher. No entanto, afirmou ele, em 1928, “tudo o que sabemos do desenvolvimento inicial feminino parece-me insatisfatório e incerto”. Para Freud a vida sexual feminina tinha algo de “um continente negro”[4]. Apesar das afirmativas de Freud, era visível que ele continuava sua empreitada sobre o estudo da sexualidade e obviamente, o feminino prevalecia amplamente como um enigma, na melhor das hipóteses, um grande desafio para os estudos psicanalíticos, ainda mais se pensarmos na época vitoriana – digamos que o feminino o é, ainda, um grande desafio para a psicanálise. A passagem que segue causou um frenesi enfurecido no movimento feminista que despontava no século XIX. Ora, Inveja do Pênis?

A ênfase recai inteiramente no órgão masculino, todo o interesse da criança está dirigido para a questão de se ele se acha presente ou não. Sabemos menos acerca da vida sexual de meninas do que de meninos. Mas não é preciso envergonharmo-nos dessa distinção; afinal de contas, a vida sexual das mulheres adultas é um ‘continente negro’ para a psicologia. Mas aprendemos que as meninas sentem profundamente falta de um órgão sexual que seja igual em valor ao masculino; elas se consideram por causa disso inferiores, e essa ‘inveja do pênis’ é a origem de todo um grande número de reações femininas características. (Freud, Vol. XX (1925 - 1926) – Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud).


Peter Gay na biografia de Freud faz a seguinte consideração acerca dos estudos psicanalíticos sobre o feminino, “(...) a caracterização da mulher como um continente inexplorado é um disfarce para que os homens se defendam, há séculos, contra o misterioso poder oculto das mulheres, qualificando todo o sexo de insondável”[5]. Ainda podemos pensar na possibilidade de uma impotência, uma insatisfação teórica de Freud, como também, na impotência do masculino para a compreensão da mulher. Bem, ainda assim, as mulheres tinham um sexo, mas sejam homens ou mulheres ama-se e deseja-se, pois a pulsão sexual não precisa de alteridade sexuada, o desejo está inscrito nos dois sexos. Roudinesco diz que “Freud introduz uma novidade na classificação, um terceiro termo, o da sexualidade psíquica fundada na existência do inconsciente”[6]. Para o inconsciente não existe feminino ou masculino, o que vai definir-se é um efeito de sentido – uma falta que se situa no significante falo, ou seja, aceitar ou não a castração. E isto vale para ambos os seres. Não se nasce homem ou mulher, embora a anatomia e a cultura sejam o destino e assim, reconhecer-se sujeito numa ou noutra posição. É preciso presentificar com o significante e inscrever uma falta estrutural, assim se dá o caminho do sujeito do inconsciente – a inscrição do desejo e a escolha do objeto.


O AMOR É UMA FALTA


“O amor é um rock e a sua personalidade é um pagode...
O amor é egoísta? Sim sim sim só cuida de si.”

- Tom Zé (O Amor) -



Porque o verdadeiro amor conduz ao ódio? Será que essa pergunta nos conduz para o desafio da violência doméstica contra a mulher? Bem, nos arriscamos nessa aproximação do doméstico, do privado e da conjugalidade e, logicamente, do afetivo; e sendo assim, das ambivalências emocionais – amor/ódio [7] – porque não dizer paixão pela morte... Pulsões de morte.

O amor é uma demanda que evidencia uma falta[8] – falta que está situada culturalmente sob os auspícios do falo. Considerando que o complexo de castração é o que abre espaço para a falta e, ainda, que a castração se dá de forma adversa nos meninos e meninas, cederíamos à ideia  provisoriamente, de que no campo das paixões, o enamoramento também se desenvolve de forma diferenciada entre homens e mulheres. Para a mulher assumir o feminino, existem três saídas: aceitar o seu lugar de objeto, ou seja aceitar a castração; negar a castração e através de uma identificação imaginária com o homem se mascarar de mulher; e, por último, ser mãe e ter o filho como um falo, ou seja, objeto de sua fantasia. Pensando por esta lógica, estaria a mulher mais exposta a paixão, ou seja, num vir a ser, numa posição de passividade, a espera de. Num encontro de. Numa busca de decifração como a Esfinge[9] parada a espera de Édipo. Confuso feminino, que precisa ser arrancado do arrebatamento do Outro materno. O amor passional é sempre feminino nos diz Gori[10].

O endereçamento de amor ao objeto Primordial carrega em si o ódio como equivalente. Ambos dirigem-se da mesma forma ao eu ou ego do sujeito. É preciso trabalhar com a perda do objeto e, para tanto, se faz necessária certa dose de agressão para se fazer sujeito autônomo, que possa responder, posteriormente, por si próprio – perder para poder tornar-se. O ódio consiste em ferir onde fomos feridos ou atingidos e, ainda, ferir-se da forma como gostaríamos de ferir um outro. Na perda do objeto amoroso um turbilhão se faz na cabeça do sujeito, a chama do ódio é incandescida. Reportamos-nos ao mito grego de Jasão e Medeia. Jasão “abandonou” Medeia, sua esposa, por conta de um enamoramento com a jovem Creusa, rica e bela princesa. Medeia, tomada de ódio e raiva pelo abandono do ser amado, não concebe perdão aos amantes. A tragédia tem seu ápice com a morte de Creusa e os filhos de Jasão e Medeia. A esposa “traída” armou uma rede de vingança na qual envolve seus dois filhos. Um crime em nome do amor. Medeia fez-se passar por amiga de Creusa fingindo perdão e apaziguamento de sua dor, no entanto, envia-lhe um belo presente envenenado que foi entregue pelas duas crianças. Medeia matou toda a família de Creusa, assim como seus filhos, para vingar-se de Jasão[11].

Em nosso trabalho com mulheres que sofrem violência doméstica, somos tentados a crer que as denunciantes, antes de serem vítimas, são também coadjuvantes de cenas de ódio e amor em suas relações. Ideia que não as culpabiliza, exatamente, como também não as eximem de participarem. O grande impasse ou contradição se faz na atuação frente ao juiz no tribunal, quando da retirada da representação judicial, pois que realmente surtiria efeito sobre o possível agressor e assim levá-lo-ia a responder por um crime. O ódio nas relações conjugais tanto pela parte de homens ou mulheres, não revelaria um tentativa de curar-se de algo? Ou seria ainda uma culpabilidade? O ódio e a raiva fazem-nos proferir blasfêmias, das mais sombrias possíveis. Tomando como exemplo um boletim de ocorrência da Delegacia de Polícia para a Mulher, onde estamos alocadas com o estágio, constatamos as mais diversas “agressões verbais”. Citamos algumas, para ilustração; “vagabunda”, “vadia”, “puta”, “cadela”, “vou te matar porque você não presta”, “você não é mulher pra mim”, “vô te cortá a cabeça”. Estas são as “declarações” mais freqüentes, que se repetem em diferentes denuncias. E não pensemos que as mulheres não declaram sua fúria apaixonada da mesma forma, pois nos BOs, também descrevem seus conjugues, se não de igual forma, semelhantes declarações são atestadas: “ele é um traste”, “um homem que não presta”, “vagabundo”, “chinero”, “bêbado, mas bom pai”, “relaxado”, “mulambo”, “vadio”, “ele não é homem pra mim” e coisas do gênero.

No inicio do texto falamos que as pacientes de Freud denunciavam na sua clínica a opressão da sociedade da época quanto às funções femininas. O que acontece contemporaneamente a partir da Lei Maria da Penha, embora num local completamente diferente, local da lei e da justiça e não de um ambiente passivo e mediador da palavra, é semelhante, se não igual, quanto ao que denunciam e o que procuram. O que querem estas mulheres? Tomando as suas descrições nos B.Os da delegacia encontramos uma falta, tanto para um quanto para o outro – primeiro uma falta de compreensão, segundo, avaliando a frase que diz “ele/ela não é mulher/homem para mim”, podemos concluir um desencontro erótico/libidinal dos corpos masculino e feminino – objetos num desencontro. Giddens[12] nos faz uma observação muito interessante, num contexto histórico dizia-se que “as mulheres queriam amor, os homens queriam sexo”. No entanto, essa observação, no mundo atual, poderia ser modificada para “as mulheres querem sexo”. Ora, após a “liberdade” sexual e o alcance de uma emancipação da mulher na sociedade contemporânea, não podíamos pensar de modo diferente, ao menos a repressão sexual feminina foi rompida consideravelmente, pois, a mulher deseja e ela é capaz de buscar o prazer sexual, como um componente básico de sua vida e relacionamentos. E então, os homens querem amor? Certamente, pois amar não é exclusividade das mulheres. Ambos tiveram amor pelo objeto primordial, assim como sentiram sua perda e cultivaram suas feridas narcísicas. Mas não estariam os homens numa posição de fragilidade frente ao domínio das mulheres e uma ascensão do feminino? Giddens[13] diz que o sexo é uma maneira de conseguir poder, então as mulheres, além de uma busca de satisfação, estariam envolvidas na busca de poder através do sexo – uma tentativa de alcance do poder fálico.

No estágio na delegacia de policia para a mulher, foi possível desenvolver um levantamento de dados, a partir dos boletins de ocorrência. Desenvolvemos um formulário de pesquisa para registrarmos dados peculiares sobre a violência doméstica. Um dos dados em específico, que vale a pena discorrer e pesquisar mais profundamente, no futuro, refere-se ao alcoolismo. Em torno de 45% dos acusados de agressão às mulheres, estavam embriagados ou sob efeito de substancias psicoativas. Um dado alarmante, supondo que este índice pode ser maior ainda, pois nem todas as mulheres declaram ou falam sobre isso no momento da denúncia.

Podemos afirmar que o alcoolismo está diretamente relacionado à violência doméstica contra mulheres. O álcool é um acelerador, um catalizador da violência. Com freqüência, a vida familiar das esposas e filhos, está às voltas com a dependência do marido, o que os torna, também dependentes ou Co-dependentes, propiciando um relacionamento específico. Giddens diz que:


(...) Uma pessoa co-dependente é alguém que, para manter uma sensação de segurança ontológica, requer outro indivíduo, ou conjunto de indivíduos, para definir as suas carências; ela ou ele não podem sentir autoconfiança sem estar dedicado às necessidades dos outros. Um relacionamento co-dependente é aquele em que um indivíduo está ligado psicologicamente a um parceiro cujas atividades são dirigidas por algum tipo de compulsividade. (GIDDENS – p.101)


Os relacionamentos permeados pelo vício, seja da bebida ou outros, comumente são permeados pelos hábitos, pela rotina cotidiana, o que também propicia recorrentes momentos turbulentos. Esta alusão de rotina ou “mesmice” é um dado presente na fala das mulheres. Um relacionamento desgastado, que na falta de amor transpõem-se ao ódio e aos apelos raivosos. Então, o ódio torna-se um elemento de cura, e, ainda assim, ligado ao amor – “o ódio enlaça o amor no abraço da ambivalência”[14]. Preserva-se um laço afetivo a partir do ódio. Neste pavoroso relacionamento de vício e ódio tende-se a evitar a intimidade com o outro; tende-se também a preservar as diferenças de gênero e as praticas sexuais não igualitárias.

Observamos que, nas audiências da Lei Maria da Penha, o “perdão” por parte das mulheres é muito comum. Elas deixam de representar e dar continuidade a um processo judicial contra seus maridos por conta da falácia: “ele prometeu que vai mudar, não vai mais beber e nem me bater”. Encontramos a mesma frase falaciosa nos dependentes químicos e alcoolistas: “Eu vou mudar”. A mesma frase vale para o relacionamento brutal onde a mulher é vitima da violência conjugal: “Para mim chega, vou mudar e sair deste relacionamento”. Aludimos à frase, o peso de uma falácia, por conta de uma carência de força, por assim dizer, pois os laços da dependência química e conjugal são muito difíceis de romper. Os participantes destas cenas têm uma fragilidade de identificação, pois constroem ligações dependentes – o vício é uma forma primária de segurança que vem do Outro. Temos, de um lado, um marido alcoolista e, de outro, uma esposa dependente da relação obsessiva. Nestes casos o amor conjugal (a compreensão), se fosse encarado como um fármaco poderia trazer, quem sabe, um respiro, uma ajuda, para a libertação dos laços viciosos. Estamos falando de um resgate afetivo dos casais envoltos em violência doméstica. Trabalho que deveria ser feito, não só com as mulheres, mas também, como prevê a Lei Maria da Penha, com os homens, autores da violência. Buscar um equilíbrio para transformar a intimidade, assim feminino e masculino possibilitarem-se viver e reinventar a vida em consonância com seus desejos.



NOTAS:


[1] FREUD – Conferência XXXIII – A Feminilidade – Vol. XXII – 1932. Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud.

[2] Anthony Giddens – A Transformação da Intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas – p. 32.

[3] Ibid – p. 33.

[4] Peter Gay – Freud: Uma Vida para Nosso Tempo – p. 454.

[5] Ibid – p. 455.

[6] Elisabeth Roudinesco – Família em Desordem – p. 128.

[7] Amódio – termo utilizado por Lacan para ressaltar o enlace do ódio e do amor. “Não conhecer o ódio é também não conhecer o Amor”. (Lacan) – Apud Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 77.

[8] Lacan ainda nos diz com sua máxima que “Amar é dar o que não se tem”, ou seja, não temos o falo.

[9] A Esfinge era mulher?! No mínimo pertencente ao gênero feminino. Talvez mesmo, a grande tragédia Edípica não tenha se dado somente, com assassinato do pai e o casamento incestuoso com a mãe Jocasta. Mas Édipo decifrou a Esfinge, a qual se joga de um penhasco após a decifração, ou seja, é o horror frente ao não saber-se, o horror frente ao sujeito humano (homens e mulheres).

[10] Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 79.

[11] PORTAL GRÉCIA ANTIGA – http://greciantiga.org

[12] Anthony Giddens – A Transformação da Intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas – p. 79.

[13]Ibid – p. 81.

[14] Roland Gori – Lógica das Paixões – p. 99.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


FREUD, Sigmund. Conferência XXXIII – A Feminilidade – v. XXII – 1932. Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. A Sexualidade Feminina – 1931 v. XXI. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica Entre os Sexos –1925 v. XIX. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. As Pulsões e suas Vicissitudes (Os Destinos das Pulsões) – 1915 v. XIV. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Além do Princípio de Prazer – 1920 v. XVIII. In:____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – 1905 Cap. II v. VII. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – 1905 Cap. III v. VII. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. A Dissolução do Complexo de Édipo – 1924 v. XIX. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
GAY, Peter. Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo. Tradução de Denise Bottmanns. SP: Companhia das Letras – 1989.
GIDDENS, Anthony. A Transformação da Intimidade: amor & erotismo nas sociedades. SP: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.
GORI, Roland. Lógica das Paixões. Tradução de Inesita Barcellos Machado e Revisão de Sandra Regina Felgueiras. RJ: Campo Matemático – Companhia de Freud Editora. 2004.
GROSSI, Miriam Pillar. Rimando Amor e Dor: reflexões sobre a violência no vínculo afetivo-conjugal. MASCULINO, FEMININO, PLURAL: gênero na interdisciplinariedade. Organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi. Florianópolis: Ed. Mulheres, 1998. 320 p. (p. 293 – 313).
KEPLER, Selene Ribeiro. Desejo de Mulher. Petrópolis/RJ: Ed. Vozes – 1994.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto (1956-1957) – 2º ed. – RJ: Jorge Zahar Ed. 1998.
MUCCHIELLI. A entrevista não diretiva. SP: Martins Fontes, 1978.
POMMIER, Gerard. A Exceção Feminina: Os Impasses do Gozo. Tradução de Dulce M. P. Duque Estrada. RJ: Jorge Zahar Editor – Coleção Transmissão da Psicanálise – Reimpressão 1997.
PRADO, Maria do Carmo Cintra de Almeida. O Mosaico da Violência: perversão da vida cotidiana. SP: Vetor, 2004.
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WERZER-LANG, Daniel. A Construção do Masculino: dominação das mulheres e homofobia. Revistas de Estudos Feministas – v.2/2001. (p. 460 – 481).
APOSTILA DA DISCIPLINA DE METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO. Unijuí. 2001. TEXTO DO PROJETO DE ESTÁGIO COMPOSTO PELA PROFESSORA IRIS FATIMA ALVES CAMPOS. UNIJUÍ. 2008


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Maquiável e a Modernidade


“Eu acredito que a natureza, assim como ela deu aos homens diversos rostos, lhes deu igualmente diversos espíritos e diversas fantasias. Resulta disso que cada um se comporta seguindo seu gênio e sua fantasia; como, por outro lado, as próprias épocas e as conjunturas se encontram diversas, o homem que vê triunfar ad votum todos os seus desejos, o homem afortunado, é aquele que tem a chance de encontrar o instante propício a seu comportamento; e, ao contrário, o infortunado é aquele cujo comportamento não vai de acordo com o tempo e com a conjuntura.” (MAQUIAVEL – Carta a Piero Soderini, 1513.)



Neste pequeno ilustrativo da Idade Moderna, propomos um recorte, onde convocamos NICOLAU MAQUIAVEL (1469-1527), momento em que o renascimento revela inspiradoramente o protagonista de uma nova fase do pensamento político. Poderíamos colocá-lo entre aqueles que instauraram a modernidade, porque foi o primeiro pensador a entender o conceito de sujeito. Ele o pensou como indivíduo capaz de ser um governante, pois este sustenta o suporte do saber.

Maquiavel foi expectador de agitações e revoluções importantes, participando de manifestações evolutivas, transformadoras que o tempo demarcou para ter uma longa duração. Foi um observador atento desses tempos e participou ativamente da conturbada vida política de sua cidade, Florença. Deteve-se numa investigação minuciosa, que o fez afastar-se do pensamento especulativo, ético e religioso. Assumiu um princípio metodológico, uma especificidade, fazendo dos governantes, da história e da sociedade o objeto de seu estudo, colocando o Príncipe como sujeito capaz de saber da história e acumular exemplos os mais variados, para poder imitar um saber exterior, enciclopédico.

Permitiu ao Príncipe a leitura singular dos acontecimentos que se acumulam numa “memória histórica”, vindo a contribuir para um exercício que ultrapassa o prazer e que é uma escola sábia, atenta das coisas antigas. Ele usou analogias, fundamentando semelhanças entre situações que dão o direito de estabelecer ligações locais que fundamentam a justeza da imitação.

Inspirado no realismo cru, foi um contador de verdades. Com grande argúcia, Maquiavel descreveu as coisas que os homens fazem para conquistar e manter o poder. Ele é autônomo em sua análise; é a realidade italiana que está em questão e o objetivo de seu estudo se restringe para aquele momento específico. Ele ofereceu o que é mais importante – uma nova visão para uma nova realidade (política); uma percepção que exime o sujeito das moralidades religiosas. Maquiavel constata a divisão entre o “ser” e o “dever ser”, pois é necessário se ater à “verdade efetiva das coisas”; diz ele: “julguei mais conveniente ir atrás da verdade efetiva do que das suas aparências...”.

A sociedade é história e sua compreensão é fundamentada no indivíduo. Maquiavel analisou o que as pessoas faziam, pois o ser humano é um ser que age de uma determinada maneira (o fazer o e falar); observou que as pessoas, enquanto agem (objeto mutante), fazem e falam a história. Ele buscou, então, na história o que os outros escreveram (observaram), como por exemplo, a vida dos Césares, Papas, Padres; especificamente Tito Lívio, César Bórgia, Alexandre Magno... e constatou – nas biografias destes grandes conquistadores e governantes – o sincronismo e o diassincronismo de fatos que se constituem uma “história fértil” que está presente no agora. Estudando essas biografias, as pessoas, determinados grupos, pôde entender a totalidade de uma sociedade numa época. Poderia dizer que Maquiavel é o inventor da história social.

Para a Itália da época era necessário que o Príncipe fosse calculista e observador afim de governar com virtuosismo (virtù). Mas quem é o Príncipe? Para Maquiavel, o Príncipe é o sujeito capaz de fazer todas as manipulações necessárias, com coerência e incoerência – sujeito que faz as leis, que é o juiz e o executor – três poderes em um só homem. Lembro que os Papas também eram Príncipes – constituíam os três poderes, mais o poder divino; possuíam exércitos e procuravam ampliar e conquistar territórios – Príncipes do Vaticano. Então, um grande Príncipe é o homem capaz de agir com inteligência, transformando os fatos, as contingências, num estudo capaz de “ler” a sociedade, de acordo com o novo paradigma da modernidade (a “circunstância”). Adaptar-se ao tempo (a “fortuna”), tomar e dominar (o “destino”), pois o Príncipe é sujeito de si mesmo; sujeito do seu próprio destino.

Nestas concepções, e seguindo a idéia do esquema central, quanto mais o Príncipe souber sobre a história da sociedade, mais se liquida com o “destino”. Ele passa a ser um “intérprete”, um observador engajado, que pode/quer usufruir dos exemplos históricos. Maquiavel quis saber da fala e da ação dos poderosos, porque a história é a construtora do poder dos Príncipes – poder de inteligência.

O modelo maquiavélico é isento de moral, ou seja, não julga os atos. Ou como diz a máxima que resume sua doutrina: “O fim justifica os meios”. As ações ocorrerão de acordo com as circunstâncias (com a “fortuna”) sem considerar o divino que transforma-se em ocasião propícia (Kairós) – tempo oportuno.

Volto à idéia anterior sobre o “ser” e o “dever ser”. Ou, simplificando, o “falar” e o “fazer”. Existe um princípio de coerência e incoerência que Maquiavel observou na fala e na ação dos “poderosos”, que resultam em quatro possibilidades:

*
COERÊNCIA 1) Sucesso (Bem) Falar circunstâncias
(resulta em) 2) Inssucesso(Mal) Agir - Fortuna
- Virtù
* - Destino
- Azar
INCOERÊNCIA 3) Sucesso (Bem) Falar
(resulta em) 4) Inssucesso (Mal) Não agir

*
É certo que a fala e a ação estão intimamente relacionadas com a circunstância. O Príncipe não pode temer, ele tem é que manipular; calcular a sua fala e a sua ação. O Príncipe competente (virtù) pode mentir para proteger o Estado, pois o bem o e mal não existem; o importante é ser coerente com as circunstâncias (adaptar-se). Percebe-se, dessa forma, o deslocamento da subjetividade, que muda conforme a circunstância, o “ocásio”, liquidando com qualquer verdade subjetiva ligada ao divino (que é imutável). Visto, então, que o poder se constrói a partir da subjetividade, ilustro duas passagens ... fascinantes: “Não pode e não deve , (...) um príncipe prudente manter a palavra empenhada quando tal observância se volte contra ele e hajam desaparecido as razões que a motivaram”(O Príncipe, p. 112).

(...) É necessário que o príncipe possua espírito capaz de modificar-se de acordo com o que lhe ditam a direção dos ventos e o variar das circunstâncias (...) não se afaste do bem , se possível, mas saiba valer-se do mal, se necessário (O Príncipe, p. 113).


A questão do bem e do mal se deslocou para a competência em se manter o poder; os princípios morais são secundários. É de suma importância manter a soberania do Príncipe e do Estado – o Príncipe é o Estado. A soberania é construída através do cálculo, da observação e da experiência para poder encontrar o fundamento.

VIRTUOSISMO (virtù) = EFICIÊNCIA (competência)


PODER/AUTORIDADE


Análise
Cálculo
Observação

Maquiavel adotou o princípio de inteligibilidade; como base tomou as paixões humanas e disse ser necessário conhecê-las, controlá-las e equilibrá-las. O Príncipe perfeito é aquele que sabe jogar com essas paixões para equilibrar o poder. Há neste pensador o germe da subjetividade moderna, ele foi o conselheiro frio e cínico, realístico e cruel, mas não à toa; precisamos entender seu motivo primordial. É necessário encontrar o fio condutor em Maquiavel. A teoria do Príncipe aflora em nome da pátria; é um presente para a Itália, que precisa de um redentor. E ele – Maquiavel – insiste nesse redentor e, assim como em seu “manual”, as paixões que estiveram encerradas exortaram esperança no seu espírito obstinado.

Nos escritos de Maquiavel há de se observar o uso de alguns vocábulos: “Virtude” (virtù), “Fortuna” (destino), “Circunstância”, “Ocasião” – para melhor compreender as idéias que expressam faço, então, uma pequena análise destes.

A “virtude” de Maquiavel pode ser entendida como vigor, saúde, astúcia e energia. Capacidade de prever e planejar. É uma inteligência natural e imparcial, capaz de empenhar-se e sofrer para atingir uma meta. Nada tem a ver com a “virtù” cristã da igreja, muito pelo contrário, a virtude do Príncipe não é moralizadora, pois não educa e não redime, tão somente justifica o poder. É a vontade do homem que faz ela jorrar da fonte – uma vontade nua carregada de resistências, se não, um obstáculo que está predestinado – na vontade.

A “virtude” se contrapõem à “fortuna” (destino), pois esta é a ocasião; residem nela a resistência e o obstáculo; ela também é a portadora das ocasiões de agir – pode ser o fracasso ou o êxito, a mentira ou a verdade. Fortuna e virtude se encontram no “imprevisível mutável”. Mas como prever a fortuna (destino) se o cálculo e a decisão do conhecimento é limitado, neste caso? Maquiavel nos deu a seguinte solução: “metade das coisas humanas dependem da sorte, a outra metade , da virtude e da liberdade”. Talvez, em sua idéia, fosse preciso usufruir das circunstâncias, da força, para então vencer ou ter a fortuna, porque é preciso dominá-la com audácia.

Familiarizados com os termos maquiavélicos e com sua doutrina, fica claro diversos fatos que ocorrem hoje, na nossa política. Mas para nós, a sabedoria maior é a forma transcendente de análise. Precisamos ter o interesse pela reflexão. É necessário o nosso interesse pela sociedade, em observá-la, estudá-la, saber de sua história, pois só então, a questão da verdade, da liberdade poderá nos afortunar. Somos maquiavélicos, e isto, é uma virtude que significa competência.... como diria Maquiavel, “o ser humano é mutável, ingrato e dissimulado”. Ainda levaremos anos para resolver ou clarear muitas das questões humanas, como a questão da divindade – que subjaz em nossa cultura, confundindo, intrigando, destruindo e conservando...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Música do Faminto


A música do faminto é escutar murmúrios que são seus -
Murmúrios de sua própria alma álacre.
É ouvir sussurros que não provocou;
Além dos gemidos perturbadores vindos de longe
A música do faminto é sentir um gozo que não é seu
Faz o outro gozar e passa fome
Satisfaz sua ânsia olhando a boca lambuzada do outro
A música do faminto é cantar canções de outros
A música do faminto são aspersões
Às vezes come ar,
Noutras, come e bebe nada,
Por isso é faminto.
O faminto despreza o que tem
E o que não tem, faz de música a imaginação à flor da pele.

Anatólia Akkale
18.01.2010 (que data horrenda)

domingo, 10 de janeiro de 2010

ASAS DO DESEJO À POESIA DE REINER MARIA RILKE


Os anjos catalisadores do filme “Asas do Desejo” de Wim Wenders renunciam à imortalidade para provar uma xícara de café e um cigarro. Os anjos ouvem os pensamentos dos humanos, perpassam pelo cotidiano catalisando as dores e emoções que eles não são capazes de sentir; vêem o mundo com seus olhares sem cores, sentem as coisas e os objetos sem sentir; são capazes de roubar uma materialidade para tentar provocar alguma sensação. A dimensão de dois mundos (mundo angelical espectro e mundo humano paixões-desejos) é confrontada com a realidade da dor – a dor do pós-guerra – 2º Guerra Mundial. A dimensão do real vem à tona com as imagens da Alemanha dividida pela guerra. O mundo espectral e onírico dos anjos é de um mundo sem angústias, embora lamentem a eternidade e invejem os humanos, mas sem angústias como dos humanos no sentido cotidiano e banal de suas pobres vidas mortais. Eles anseiam pelas paixões e banalidades, querem saborear dos sentidos e sorver as emoções, pois deus os privou deste emaranhado de coisas duras e saborosas, não há prazer maior para os anjos do que sair da moldura divina e encarnar a moldura humana, mesmo que seja uma moldura trincada.

Asas do Desejo nos oferece uma colagem de teorias filosóficas, uma espécie de síntese da humanidade – vai de Rilke (As Elegias de Duíno), Homero, Kierkegaard, Nietzsche, Sartre, Walter Benjamin... As pinturas de klimt ao roteirista do filme (Peter Handke) ...
Em Kierkegaar encontramos algo mais ou menos assim: “A angústia é a diferença que nos faz humanos. A angústia é humana! É isso que nos diferencia dos anjos e dos animais”.

Em Walter Benjamin: “O que é o anjo do futuro? Ele está com a cara voltada para o passado e não consegue prever o futuro – a memória já é fragmentada, a história é fragmentada”.

Asas do Desejo prevalece como uma grande obra prima do cinema; é sempre bom rever. É um filme carregado de poesia, encanto, dor e angústia. As musas de Homero são outras, a morte nos angustia, mas ainda assim podemos degustar um café e nos pulverizarmos interiormente com a fumaça de um cigarro que carrega nossas angústias em 5 minutos de fumaça. A angústia nos faz humanos – humanos que não conseguem vislumbrar um futuro, tudo é incerto, nossa memória se fragmentou, apesar da oralidade fluir; porém, só a partir de uma leitura singular... Só o sonho ainda pode nos transportar para a realização de nossos desejos – desejos de anjos, desejos de humanos, mas nunca esquecer que a angústia vem de nossos desejos mais profundos e desconhecidos.

O filme de Wim Wenders tem profunda reflexão sobre a subjetividade, sobre a humanidade, sobre a contemporaneidade, sobre o futuro e principalmente sobre as paixões humanas que, por último, constroem as primeiras. É muito para minha pobre associação livre do momento. Nada termina aqui. O filme ainda possui fantástica fotografia da dupla de velhinhos: Henri Aleka e Louis Cochet, além de uma gótica e ótima trilha sonora composta por Jürgen Knieper.

Um poema de Reiner Maria Rilke:


O Anjo


Com um mover da fronte ele descarta

tudo o que obriga, tudo o que corta,

pois em seu coração, quando ela o adentra,

a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas Ihe aparece

e cada qual demanda: vem, conhece.

Não dês às suas mãos ligeiras nem

um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,

cheio de ira, e com a mão mais dura,

como se fosses sua criatura,

te arranca do teu molde com desprezo.

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