Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Bolo (de maconha) Curta Metragem:




“Bolo de maconha para festa gay faz doméstica evangélica ter reações intensas, que até então eram reprimidas”.

O curta-metragem “O Bolo” – premiado no Festival do Rio 2010, no Festival Mix Brasil da Diversidade e em festivais internacionais – está disponível na internet para ser assistido na íntegra.

A história gira em torno de Dirce (Fabiula Nascimento), uma doméstica evangélica que perde seus sentidos ao comer um pedaço de bolo da festa que seu patrão gay (Eriberto Leão) deu na noite anterior. Ela só não sabia que o bolo era feito com maconha.

O sucesso do curta foi tão grande que ele será transformado em um longa, com orçamento estimado em R$ 4 milhões. O roteiro está em fase de finalização e deve chegar aos cinemas em 2014. “O Bolo” terá a equipe original do curta.


O Bolo na Integra:




*Um curta engraçadinho, divertido para quem está em depressão ou não tem o que fazer. Gostei. Vontade de comer a Fabiula Nascimento e o bolo. A trilha sonora deu um astral bem bacana. Eita maconha abençoada que desreprime!



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Rosa Luxemburgo Vida, Obra e Filme:




Procurava por biografias, foi quando me deparei com Rosa Luxemburgo – só o nome dela, já nos parece inspirador –.  Não possuo conhecimento político sobre esta mulher, que em 1900 fazia ebulir o movimento revolucionário de esquerda. Assisti o filme biográfico “Rosa Luxemburgo” da diretora Margarethe von Trotta e, confesso, de forma envergonhada que este foi meu primeiro momento de clareira do desconhecido, um “aprofundar” raso, mas, curioso.



Filme Rosa Luxemburgo:




O nome Rosa Luxemburgo sempre me foi conhecido, mas sua vida e sua obra, não haviam despertado, ainda o meu interesse, talvez, justamente, por ter ouvido tantas vezes citarem-na de forma banal, de forma superficial e fragmentada. São muito comuns as citações, bonitas por sinal, em redes sociais, em cartas partidárias, em discursos políticos e numa infinidade de outros escritos, mas sempre em citações curtas e cortantes.


Vejo só como é a ignorância, o nome dela parece tão latino, que sempre pensei que tratava-se de alguma revolucionária Latina Americana. Os nomes dizem muito – muito mais de nosso imaginário. Parece que quero me desculpar comigo mesma, sobre essa resistência, sobre este desconhecimento ingênuo. Acho que sim. Mas, o que importa é que tudo vem ao seu tempo e parece que este é o tempo de saber de coisas que um dia não quis saber. Nem por isso desejo engolir a Rosa para cagar sapiências, trata-se apenas de uma descoberta, no sentido raso de descobrir, tirar a venda, a coberta, as ervas daninhas. O que mais me interessa, não é a Rosa política, mas, ao que tudo indica, interessa-me a Rosa mulher, a Rosa feminina de um início de século, onde os homens dominavam, onde o domínio patriarcal estava prestes a trincar. Rosa não era apenas Rosa Luxemburgo, ela era a Doutora Rosa Luxemburgo, com título de doutorado pela Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique. Isso parece ser de grande monta, visto a época na qual viveu.


Fiquei pensando que Freud e Rosa Luxemburgo dividiram o mesmo século. Certamente ela poderia estar deitada no divã do velhinho. No entanto, era uma mulher a frente de sua época. Inserida num ambiente extremamente machista – partido político – foi uma mulher corajosa e muito respeitada nos círculos políticos. Tenho de concordar com as frasezinhas de efeito quando dizem que “Lugar de mulher é na política”. Para Rosa Luxemburgo, não só era lugar, como foi uma escolha de vida, assim determinada por ela – uma vida revolucionária. Acreditar, lutar, ter paciência e determinação, estas coisas pareciam ser uma receita para a vida que teve. Chamavam-na de Rosa Sangrenta, Rosa Vermelha, Rosa Histérica... Rosa Luxemburgo, uma mulher da Revolução!


Estou recortando coisas (cortando Rosas), mesmo que brevemente essa é a história de Rosa Luxemburgo – história de experiência revolucionária. Não encontrei traços de luta feminista, justamente por não se tratar disso, pois, de acordo com as leituras, Rosa não se deteve na questão feminina, muito pelo contrário, uma vez que foi notório seu desprezo pela questão. Mas, existe uma outra dimensão que nos faz pensar em  Rosa e associá-la ao feminismo, justamente, a sua luta incansável para se construir como mulher livre no plano pessoal e político, exposta em detalhes na vasta correspondência com os amigos e namorados.





“Rosa tinha 27 anos quando chegou a Berlim em 1898 para trabalhar no Partido Social Democrata Alemão, a mais importante organização de trabalhadores daquela época. O que queria a jovem judia polonesa, cuja carta de apresentação era tão somente uma tese de doutorado defendida em Zurique sobre o desenvolvimento industrial na Polônia? A resposta é simples: nada menos do que fazer política em pé de igualdade com os maiores teóricos do partido. Essa meta ela alcançou em pouco tempo. Dotada de uma inteligência fulgurante e de uma energia sem limites, Rosa tornou-se rapidamente conhecida na socialdemocracia alemã ao investir contra o velho e respeitado teórico do partido, Eduard Bernstein, que, embora amigo dos fundadores do marxismo, não hesitou em fazer uma revisão da teoria marxista que despencava no mais puro reformismo. A jovem estudiosa e seguidora ortodoxa da obra de Marx não temeu enfrentar a hierarquia da organização, dando assim, o primeiro passo no caminho a que se tinha proposto: construir-se como mulher independente, tanto no plano político, quanto pessoal”.


Conforme artigo de Isabel Loureiro, (Acredito que a mais influente especialista na obra de Rosa Luxemburgo no Brasil) “Rosa não era bonita: um metro e 50 de altura, cabeça desproporcional, nariz grande e um problema no quadril que a fazia mancar. Numa época em que o andar elegante era um dos principais atributos femininos, ela quase sempre conseguia disfarçar essa deficiência por meio do autocontrole e da roupa feita sob medida. Rosa, que certamente sofria com isso, se protegia na medida do possível com a auto ironia, dizendo preferir empregadas altas e fortes, com medo de que quem fosse visitá-la acreditasse ter chegado a uma casa de anões. Segundo a biógrafa Elzbieta Ettinger (Rosa Luxemburgo, Zahar, 1986), esse defeito físico foi determinante em sua vida, levando-a a forjar uma excepcional força de vontade e a tornar-se, a título de compensação, primeiro, aluna modelo, depois, oradora, polemista, jornalista e intelectual brilhante.


As razões para que a fundadora e líder da socialdemocracia polonesa e líder da ala esquerda da socialdemocracia alemã ainda exerça tamanho fascínio sobre nós não são apenas suas ideias políticas libertárias, mas também o fato de que, sendo mulher – o que faz toda a diferença –, e mulher mergulhada na vida política, ela se recusa a sacrificar a felicidade individual à carreira. Porém, neste ponto, acabou se frustrando. Na juventude insistia com Leo Jogiches (também fundador da socialdemocracia polonesa e o grande amor de sua vida durante 15 anos) para ter uma vida “normal”: casar, ter filhos etc. E, junto com isso, dedicar-se à política. Mas Leo era o revolucionário típico, “durão”, acostumado à luta política clandestina e à conspiração. Unir prazer e dever era algo que não estava nos seus planos, se acreditarmos nas eternas reclamações de Rosa, que o censurava por só pensar na “causa”. De temperamentos muito diferentes, a relação entre os dois, depois dos primeiros meses, foi uma fonte contínua de tensões e desavenças, e ela sentia-se infeliz. Segundo Charles Rapoport, que conhecia bem os dois, “Rosa era sentimental e apaixonada, romântica e sensível ao extremo. Talvez Jogiches, no fundo do coração, se parecesse com ela, mas, grande conspirador, soube tão bem esconder sua sensibilidade que mal podia encontrá-la para manifestá-la exteriormente.


É como militante política, como combatente na arena pública, que Rosa enfrenta – e vence intelectualmente – os preconceitos arraigados na socialdemocracia alemã. Nessa medida, ela rompe com o tradicional papel feminino de esposa e mãe, ou mesmo, num outro patamar, de secretária do marido. Não podemos esquecer que ela sofre de vários handicaps para a ultraconservadora Alemanha da época – é mulher, judia, polonesa e revolucionária.


Rosa foi de fato uma figura singular na sociedade imperial alemã, dominada pelo autoritarismo e o patriarcalismo, razão pela qual, ela foi extremamente discreta sobre sua vida privada. E havia motivos para tanta discrição.


Os ataques contra a mulher começaram cedo no ambiente machista da esquerda da época, que temia sua independência de espírito e sua língua mordaz: o socialista austríaco Victor Adler chamou-a de “idiota venenosa”; quando ela foi nomeada redatora-chefe de um importante jornal socialdemocrata e enfrentou quase uma rebelião dos colegas jornalistas que duvidavam de sua competência pelo fato de ser mulher; seus companheiros de partido ao se referirem a ela falavam em “materialismo histérico”. Para Lênin, Rosa era uma águia que ocasionalmente voava mais baixo que uma galinha.


Seus assassinos fizeram questão de vilipendiá-la como mulher: depois de espancada, levou um tiro na cabeça, foi enrolada em arame farpado e jogada nas águas do canal Landwehr. Só pôde ser enterrada meses mais tarde, numa cerimônia acompanhada por milhares de pessoas, quando o corpo, quase irreconhecível, foi identificado a duras penas por sua secretária Mathilde Jacob.


Rosa não compartilhou da crença no progresso, comum na socialdemocracia do seu tempo, mas, ao contrário, enfatizou o lado violento da expansão capitalista que leva à destruição das culturas primitivas, distinguindo-se assim de seus companheiros homens, Marx, bolcheviques, socialdemocratas. Estes encaram como positivo o desenvolvimento capitalista com seus aliados naturais, a grande indústria e o desenvolvimento técnico, vendo tal processo como uma etapa necessária no caminho da humanidade em direção ao socialismo. Para Rosa, em contrapartida, cuja tese sobre o imperialismo tem no centro a ideia de que o capitalismo só pode desenvolver-se anexando – com violência – as formações sociais não-capitalistas, o capitalismo traz apenas destruição. Estas formações sociais não-capitalistas, que antes eram as colônias, abarcam hoje setores como a saúde, a educação, a criatividade intelectual, os recursos ambientais, a cultura, e, segundo as feministas, o trabalho das mulheres no âmbito doméstico.


Muro de Berlin "Eu sou uma terrorista."

Com toda certeza, Rosa ficaria feliz por ter deixado uma obra mais brilhante e duradoura que a da grande maioria de seus companheiros homens. Mas, para nós mulheres, o mais estimulante ainda hoje é o fato de ela ser uma intelectual revolucionária que vê a sociedade do ponto de vista feminino; e, além disso, a preservação dos registros pessoais em que ela, no decorrer dos anos, relata sua penosa construção como mulher independente contribui para nosso próprio autoconhecimento, dando-nos força para lutar contra os limites que continuam nos sendo impostos e que acabamos por introjetar”.


A palavra de ordem, “Socialismo ou Barbárie”, adotada por Rosa em “A crise da socialdemocracia”, (1916) até hoje inspira títulos, teses, chamadas de ordem, poesias e uma gama de utopias.



Uma carta de Rosa:



A Costia Zetkin

Quarten, 17 de Agosto de 1909, quinta- feira



Meu querido Costia, custa-me um grande sacrifício escrever-te ainda, mas quero que no momento de dizer-te adeus vejas tão claro em mim quanto eu vejo em ti.

Consegui vencer a minha dor e estou calma. Para mim é como se desde domingo tivesse passado um ano. O mais duro já tinha passado quando chegaram tuas cartas falsas e quando li a última, essa sincera, senti uma grande dor, meu coração gelou, mas senti também uma grande calma. Tudo se passou como te disse no início: foi o teu amor que me forçou a amar-te, e quando teu amor acabou, o mesmo aconteceu comigo. Sofri por não te ter libertado mais cedo desse peso, sofro com a lembrança dos olhares sombrios e atormentados de um passarinho cativo, mas nunca ousei dizer as palavras libertadoras no fundo eu considerava nossa relação coisa séria e sagrada.

...Na realidade prisioneira era eu, porque a lembrança de um surdo murmúrio no pequeno quarto -" Sê fiel, não deixes de ser fiel"- e uma súplica nas cartas "não me deixes, não me deixes"- prendiam-me a ti como correntes de ferro. O murmúrio de um rapazinho adorável prendia meu coração, mesmo quando teu ar infeliz me torturava de uma forma indescritível quando, em Gênova, durante noites de insônia, a falta de clareza da tua relação comigo me sufocava. Mas tenho um doce consolo ao pensar que realizei o desejo desejo desse rapazinho: fui-lhe fiel até o fim e nunca lhe lancei um olhar desconfiado nunca lhe ocultei meus pensamentos mais secretos.

Agora consegui vencer a minha dor. Lancei-me ao trabalho com prazer e estou decidida a viver ainda com mais rigor, clareza e castidade. Esta regra de vida amadureceu em mim durante o nosso relacionamento, por isso estas palavras ainda te pertencem.

Agora que estás livre como um passarinho, sê feliz. A principuccia não está mais no teu caminho. Adeus. Os rouxinóis dos Apeninos cantam para ti e os bois do Cáucaso, de chifres, te saúdam.


R.



(Rosa Luxemburgo, Vida e obra. Isabel Maria Loureiro - expressão popular)



**Mais sobre Rosa Luxemburgo:












*O mais bacana desta pesquisa foi encontrar as produções de Isabel Loureiro. Apaixonei-me! Encantei-me! Intelectual fantástica.



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Malware no Blog da Peste:


Olha só, entrei no meu blog hoje e o Google deu avido de Malware. Acredito que todos os visitantes estejam recebendo este aviso. Sinceramente não sei o que fazer. Retirei alguns links que desconfie. Porém, continua dando aviso de Peste. Na real, tem os links de compartilhamento e download então, é bem provável que sejam os grandes vilões, porém, porém não vou retirá-los, trata-se justamente dos links de download das obras do Lacan. 

Isso deve ser um complô da conspiração. 

Com Malware ou Bemware a Peste continua, vamos ver o que vai acontecer ou espanta a todos e todos nos contaminamos ou ainda, vamos todos explodir. Acho que tudo isso é um conluio estadunidense pois, o trafego dos EUA é o mais intenso de todos. Fuck Obama! 

Detesto essa coisa podre da net, essa corrupção a partir de vírus, malware, hackear e bulhufas. Tenho o blog por puro prazer de compartilhar coisas, não compreendo as linguagens webmaster e patatipatata... Por isso me fuck. Se alguém tiver sugestões sobre minha problemática, ajudas serão bem acolhidas.

Internet Livre não é somente o compartilhamento, downloads, criações e liberdade de expressão. Internet livre, também, significa ética, moral, conduta, bom senso e caráter para que possamos nos livrar da corrupção de hackers nonsense, trolls, vírus, espionagem e programas mal intencionados (malicious software) a serviço do sistema e de seu próprio ego. Sei lá, atrás de tudo isso sempre tem a condição humana. O ilícito desta prática na internet, não difere em nada da corrupção dos políticos, dos empresários, dos governos, dos ricos opressores. Ela tem a mesma face opressora e corruptora da liberdade, ou seja, causa danos e nos escraviza. É tudo uma questão de bom senso: Free!


Internet Livre!!! Antisistema, o sistema é você!

Enfim, seguimos na utopia.

Que praga da peste!!!

Boa contaminação ou não... Sinto muito!

    

domingo, 22 de setembro de 2013

"Mundo Golden":




Ele nasceu na suíte deluxe de uma maternidade top, estudou em escolas prime, vestiu desde sempre roupas exclusive e acessórios authentic, morou em lofts de décor clean e arredores upper, passou temporadas em países first em numerosos quesitos, circulou por estabelecimentos de extreme class, degustou iguarias premium, bebeu pure drinks, dormiu em hotéis unique, conviveu com pessoas high, colheu vantagens express, dirigiu automóveis limited edition, namorou models, frequentou boates selected, associou-se a private clubs, colecionou certificados advanced, compôs uma cartela master de clientes, acumulou stars, encontrou um plus nas drogas – mas somente as fine -, deu entrada num hospital de reputação international, certo de ser special, até se ver soterrado por espasmos, fluidos e odores desconhecidos, embora gerados por seu próprio corpo, agora, sem power. Em posição fetal, trajando um camisolão disforme, atinou que deixava um mundo golden para passar a eternidade na vala commom-dark-low-dirty-impure dos mortais.



[Raphaela De Campos Mello]


Entrevista com Elisabeth Roudinesco:

Elisabeth Roudinesco é a mais famosa historiadora da psicanálise na França. Hoje, porém, essa psicanalista de 67 anos, com dezenas de livros publicados em 30 países, entre eles uma biografia de Lacan (de 1993) e dois volumes da “História da psicanálise na França”, está no fogo cruzado de uma guerra que a opõe aos detratores da psicanálise, de um lado, e à família de Lacan, de outro. Em entrevista ao GLOBO, Roudinesco defende Freud e Lacan, mas queixa-se que alguns psicanalistas levam os mestres ao pé da letra, como se a psicanálise fosse “uma seita”, ataca. Ela se diz chocada com a disputa na Justiça com a filha de Lacan, Judith Miller, a quem conhece desde os seis anos de idade. A mãe de Roudinesco, Jenny Aubry, especialista em psicanálise de crianças, era amiga de Lacan. Foi uma das pessoas, segundo Roudinesco, que ouviu Lacan falar sobre o sonho de ter um funeral católico, um dos motivos do conflito com Miller.



Na sociedade de hoje, apressada, individualista e pragmática, Lacan e Freud têm o mesmo lugar que antes?

ELISABETH ROUDINESCO: Têm o mesmo lugar na História e na memória. São parte do patrimônio cultural e universal. A grande constatação: eles não pertencem mais apenas aos psicanalistas. Hoje, 72 anos depois de sua morte, os textos de Freud são publicados livremente.

Isso é bom ou ruim ?

É excelente, porque escapa do sectarismo. Os psicanalistas têm o seu Freud, o seu Lacan. Mas não são mais os únicos a pensar a questão.

Qual a grande herança de Lacan, 30 anos após sua morte?

Lacan reintroduziu a filosofia alemã na doutrina psicanalítica. Em segundo lugar, ele abandonou o modelo biológico vindo de Darwin por um modelo linguístico. Para Lacan, a consciência é a linguagem. Isso é importante porque, sem negar a importância do evolucionismo e do materialismo de Darwin, Lacan mostra que a especificidade do ser humano é a palavra e a linguagem: ele não é autômato, nem animal. Em terceiro lugar, Lacan se inscreveu na linha de pensadores pessimistas, ao cultivar uma visão pessoal da pulsão humana depois da exterminação dos judeus [nos campos nazistas] e adotando a linha de Theodor Adorno. Por isso, neste meu livro (“Lacan, a despeito de tudo e de todos”) eu revejo os textos “Kant com Sade” e “Antígona”, que o marcam como um pensador da luz sombria.

Os detratores de Lacan o acusam de ter produzido uma obra obscura e arrogante.

Os detratores dizem a mesma coisa contra Freud, que é muito mais fácil de ler do que Lacan. É tão difícil ler Lacan quanto é ler Spinoza ou Hegel, porque é uma obra mais filosófica.

A senhora diz que os psicanalistas, às vezes, se portam como inimigos da psicanálise. Como assim?

Quem disse isso foi Freud. Eu retomo o que ele disse, referindo-me aos que acham que as obras pertencem a eles. Não quero estes extremistas.

Quem são os maiores inimigos da psicanálise: seus detratores ou as terapias comportamentais?

As terapias comportamentais são minoritárias no mundo. Hoje dominam as escolas de psicoterapias como a Gestalt (com abordagem humanis$), as psicoterapias relacionais, de grupo, psico-corporais. Existem em torno de 700, o risco é a proliferação. Mas ao contrário das psicoterapias, a terapia comportamental tem uma concepção do ser humano radicalmente oposta à psicanálise. O conflito é terrível. Consideram que o sujeito humano se reduz a seu comportamento. Para eles, não há alma nem psiquismo. Não há diferença entre um animal e um homem. Há um terceiro campo: o da neurociência. E outro problema: a psiquiatria se tornou muito química. Vamos assistir a uma reviravolta. Depois de 30 anos, começamos a observar que os medicamentos psicotrópicos têm um efeito devastador no cérebro quando tomados por muitos anos.

As pessoas estão tomando muitos remédios?

E há ainda outro problema: frequentemente psicanalistas fazem uma defesa muito incondicional da psicanálise. Foi isso que Freud quis dizer, quando afirmou que os psicanalistas eram o principal inimigo da psicanálise: quando são muito sectários. No plano terapêutico, acho absolutamente condenável as sessões ultracurtas feitas por certos lacanianos. E eu digo isso no meu livro: não se deve imitar Lacan! Ele foi genial, mas hoje há muitos lacanianos que têm tendência a imitá-lo, a copiá-lo, no lugar de pensar sua herança.

Sessões curtas eram um traço de Lacan. Qual o problema com elas?

Lacan não fez isso o tempo todo, apenas no final de sua vida. Lacan também não teorizou a ideia de que era preciso fazer sessões muito curtas, de 5 a 10 minutos. Para mim, esse é o funcionamento de uma seita: frustra (o paciente), é uma manipulação. As sessões devem demorar, no mínimo, 30 minutos.

O filósofo Michel Onfray escreveu um livro destruindo Freud e o chamando de fascista e incestuoso. Para ele, a psicanálise não passa de uma autobiografia de Freud. Como a senhora responde a isso?

Michel Onfray é uma figura popular, que criou uma universidade popular. Seu livro contém 650 erros. Ele é alguém que não sabe do que está falando e quis produzir voluntariamente um panfleto. É um detrator integrista, que quer inverter a imagem do ídolo, fazendo dele um demônio. O problema é que ele afirma coisas que são inexatas. Por exemplo: Freud não poderia $engravidado sua cunhada em 1923 porque ela tinha 58 anos. Freud não estava em Berlim com os nazistas em 1935 porque ele estava em Viena, na Áustria. As irmãs de Freud não foram deportadas para o campo de concentração de Auschwitz, mas sim para outros campos, como Theresienstadt e Maly Trostinec. E não encontraram Rudolf Hoss (comandante do campo de concentração de Auschwitz). Para amparar sua tese de que Freud é fascista, nazista etc, Onfray torceu a verdade histórica a um ponto caricatural.

Por que foi importante escrever um livro contestando cada ponto dos argumentos?

Porque Onfray é uma figura popular na França. Quando escutei na mídia que Freud era fascista, nazista, eu disse: não podemos deixá-lo fazer isso, simplesmente porque o que ele diz não é verdade.

A senhora pensou em processá-lo?

Jamais! Nunca processo. É um debate intelectual.

Por que tanta raiva contra Freud?

Desde 1905, a cada cinco anos há um livro contra Freud. Isso significa que ele trouxe algo de importante à história do pensamento. Caso contrário, não o atacariam.

A filha de Lacan, Judith Miller, e seu marido Jacques Alain-Miller, herdeiros da obra lacaniana, processam-na por difamação. A senhora escreveu que Lacan teve dois desejos contrariados: ser enterrado na Itália e ter uma cerimônia católica. Os herdeiros dizem que Lacan, ao contrário, queria se livrar da religião.

Ah, de jeito nenhum! Primeiro, eles não são os herdeiros: eles têm o direito sobre a obra de Lacan — o que é diferente. O processo acontece no dia 16 de novembro e eu tornarei pública minha posição neste momento. Eu disse que Lacan manifestou o desejo de ter funerais católicos. Não há prova. Lacan foi muito marcado por ritos religiosos católicos romanos. Ele escreveu isso. E ele sempre sonhou — isso era um fantasma — com a Itália e funerais católicos. Ele disse isso diante de muitas pessoas, que eu cito na minha obra “História da psicanálise”, de 1993.

Como a senhora recebeu este processo?

Este debate é sobre o direito de uma historiadora como eu interpretar as declarações ou fatos. Há algo para mim chocante num processo como esse: deixa subentendido que não se tem direito de escrever sobre Lacan quando não se faz parte da família. A obra não pertence à família.



Enviado por Déborah Berlink, de Paris em 22.10.2011


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sigmund Freud - A Invenção da Psicanálise Documentário da GNT (1997):


Finalmente o documentário completo!!! Uhhuuuu!


O documentário mostra muito material fotográfico e vídeos raros como o de Jung descrevendo seu primeiro encontro com Freud e relato de Ernest Jones, como também as últimas imagens de Freud em seu apartamento em Viena, pouco antes do exílio em Londres, feitas por Marie-Bonaparte, neta de Napoleão Bonaparte. Traz ainda a única gravação em áudio da voz de Freud em entrevista à BBC de Londres em 07 de dezembro de 1938. Mostra, detalhadamente, a trajetória da psicanálise, desde seu nascimento até as direções tomadas no período após a morte de Freud, associando-a aos fatos históricos de cada época. Todo o filme é comentado por Elisabeth Roudinesco e Peter Gay, que escreveu a biografia de Freud, chamada “Freud: Uma vida para nosso tempo”.

Adoroooo ver a Elisabeth Roudinesco neste vídeo (MUSA)!







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