Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


terça-feira, 2 de abril de 2013

No dia mundial da conscientização sobre o autismo o Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública lança o seu Manifesto

Diante de tentativas recentes de excluir as práticas psicanalíticas de políticas públicas para o atendimento da pessoa com autismo, os profissionais de Saúde Mental associados ao Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública vêm a público para afirmar seus princípios de ação e sua posição ética frente ao atendimento de pessoas com autismo e suas famílias.

Psicanálise Autismo e Saúde Pública:

  1. O Movimento considera que as famílias das pessoas com autismo devem ter o direito de escolher as abordagens de tratamento para seus filhos (em consonância com a portaria nº 1.820 do Ministério da Saúde, de 13 de agosto de 2009).
  2. O Movimento considera fundamental acompanhar e acolher a família, considerando-a como parceira fundamental no tratamento.
  3. O Movimento apoia e recomenda vivamente a pluralidade, a diversidade e o debate, científico e metodológico, das abordagens de tratamento da pessoa com autismo e também dos critérios diagnósticos empregados em suas avaliações.
  4. O Movimento considera fundamental que o tratamento e a educação de pessoas com autismo leve em conta a singularidade do sofrimento da pessoa com autismo e de sua família.
  5. O Movimento considera que o principal objetivo do tratamento da pessoa com autismo é o estabelecimento de seu vínculo com os outros, ponto sobre o qual há consenso entre todas as abordagens de tratamento.
  6. O Movimento sustenta a inclusão de crianças com autismo em escolas regulares sempre que possível (e como opção prioritária), contando com uma rede de apoio interdisciplinar e intersetorial; a estruturação dessa rede implica a construção de um projeto educacional visando à aprendizagem da criança na medida de suas possibilidades, bem como sua integração  às atividades escolares.
Diante da importância de tratar e educar crianças e adultos com autismo de uma perspectiva que leve em conta a singularidade de seu sofrimento e de sua família, o Movimento propõe a adoção, em políticas públicas, das seguintes medidas:
  1. Ampliação do campo da detecção e da intervenção precoces diante de sinais de risco para o desenvolvimento infantil nos equipamentos públicos de saúde, educação e assistência social.
  2. Investimento na formação e capacitação de profissionais e na disseminação de conhecimentos, instrumentos e estratégias clínicas de detecção e intervenção precoce, com ênfase na atenção primária de saúde.
  3. Fortalecimento, nos serviços de saúde e educação, de perspectivas de atendimento que levem em conta a singularidade, ou a subjetividade, da pessoa com autismo, por meio da atenção a suas manifestações próprias.
  4. Fortalecimento, nos serviços de saúde e educação, de perspectivas de atendimento que levem em conta a importância do estabelecimento do vínculo da pessoa com autismo com os outros.
    1. Disseminação dos conhecimentos a respeito da multicausalidade do autismo e ampliação do debate sobre a prevalência do diagnóstico em exames laboratoriais e de seu tratamento medicamentoso, denunciando a criação de falsas epidemias (como a multiplicação do diagnóstico de autismo na atualidade).
    2. Preservação, sem exclusão de nenhuma delas, das quatro dimensões que devem estar igualmente presentes no atendimento da pessoa com autismo: física (orgânica), mental (psíquica), social (relativa à cidadania) e temporal (a perspectiva do desenvolvimento).
    3.  Adoção de  projetos terapêuticos singulares (PTS), bem como o acolhimento e o acompanhamento implicados (formulados pelo Ministério da Saúde em 2005).
    4. http://psicanaliseautismoesaudepublica.wordpress.com/2013/04/02/no-dia-mundial-da-conscientizacao-sobre-o-autismo-o-movimento-psicanalise-autismo-e-saude-publica-lanca-o-seu-manifesto/Apoio à implementação efetiva da Linha de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde.
    5. Sustentação e ampliação de redes intersetoriais e interdisciplinares de tratamento (com a presença dos setores da Saúde, da Educação, da Assistência Social, do Direito e da Justiça) que considerem as diferenças territoriais e locais, bem como a sustentação de projetos particulares e inovadores que vêm surgindo a partir delas.
O objetivo principal deste Movimento é o de tornar mais presente a Psicanálise, dadas as evidências de que suas práticas podem contribuir para a promoção da melhora da qualidade de vida da pessoa com autismo e de seus familiares.
O Movimento considera que a presença da Psicanálise nas instituições públicas de saúde e educação, nas instituições não governamentais, no setor privado, nas universidades, a acolhida da população em geral bem como o apoio dado a ela pelos órgãos de fomento nacionais e internacionais de pesquisa há mais de 70 anos são manifestações de seu reconhecimento pela comunidade científica  e pela sociedade em geral.

Instituições participantes

Universidades:

FEUSP (professores: Leny Mrech, Rinaldo Voltolini, Leda Bernardino)
FMUSP (professor Wagner Ranna)
Grupo de estudo sobre a criança (e sua linguagem) na clínica psicanalítica – GECLIPS/UFUMG
IPUSP (professores Cristina Kupfer, Christian Dunker, Rogerio Lerner)
PUC /RJ (professora Beatriz Souza Lyma)
Psicologia PUC /SP (professores (Silvana Rabello, Isabel Khan)
Fono PUC/SP (professores Claudia Cunha, Luiz Augusto P. Souza, Regina Freire)
UERJ (professor Luciano Elia)
UFBA – ambulatório infanto-juvenil da Residência em Psicologia Clínica e Saúde Mental do Hospital Juliano Moreira/UFBA-SESAB (professora Andréa Fernandes)
UFMG (professora Angela Vorcaro)
Laboratório de Estudos Clínicos  da PUC Minas  (professor Suzana Faleiro Barroso).
UFPE (professora Joana Bandeira de Melo)
UFRJ (professoraAna Beatriz Freire)
UFSM (professora Ana Paula Ramos)
UnB (professores Izabel Tafuri, Marilucia Picanço)
Unesp Bauru (professores Edson Casto, Erico B. Viana, Cristiane Carrijo)
UNICAMP (Nina Leite)
Univ. Católica de Brasília (professora Sandra Francesca)
Setor de Saúde Mental do Departamento de Pediatria da UNIFESP
Centro de Referência da  Infância e da Adolescência  – CRIA/UNIFESP
DERDIC/PUCSP (professores Sandra Pavone, Yone Rafaele, Lucia Arantes e Carina Faria)
Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG) (professora Paula Pimenta)

Instituições de Psicanálise

ALEPH – Escola de Psicanálise
Associação Psicanalítica de Curitiba- APC
Circulo Psicanalítico MG – CPMG
Círculo Psicanalítico de Pernambuco – CPP
EBP/SP ( escola brasileira de psicanálise)
EBP/MG ( escola brasileira de psicanálise)
EBP/RJ ( escola brasileira de psicanálise)
Escola Letra Freudiana
Espaço Moebus/BA
Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil (EPFCL-Brasil)
Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo (FCL-SP)
Rede de Pesquisa sobre as Psicoses do FCL-São Paulo
Rede Brasil Psicanálise Infância/ FCL
IEPSI
Associação Psicanalítica de Porto Alegre -APPOA
Instituto APPOA
IPB ( instituto de psicanálise brasileiro)
Intersecção Psicanalitica do Brasil/NEPP
Grupo que estuda a clinica com bebês e as intervenções precoces da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Grupo de Estudos e Investigação dos TGD da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (SEDES)
Departamento de Formação em Psicanálise do  Instituto SEDES
Departamento de Psicanálise de Crianças do Instituto SEDES
Espaço Potencial Winnicott do Depto. Psicanalise de Crianças do  Instituto SEDES
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto SEDES
Núcleo de Investigação Clínica Hans da Escola Letra Freudiana
Sigmund Freud Associação Psicanalítica/RS
GEP/Campinas
NEPPC/SP
Instituto da Família –IFA/SP

Centros de atendimentos não governamentais

Ateliê Espaço Terapêutico/RJ
Attenda/SP
Centro de Atendimento e Inclusão Social CAIS/MG
Carretel – Clínica Interdisciplinar do Laço/SP
Carrossel/BA
Centro da Infânica e Adolescênica Maud Mannoni CIAMM
CERSAMI  de Betim
Centro de Estudos, Pesquisa e Atendimento Global da Infância e Adolescência – CEPAGIA/Brasília/DF
Clínica Mauro Spinelli/SP
CPPL – Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem
Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem de Recife – CPPL
Escola Trilha
ENFF
Espaço Escuta de Londrina
Espaço Palavra/SP
GEP-Campinas
GLUBE/SP
Grupo Laço/SP
Grupo de Pesquisa CURUMIM do Instituto de Clínica Psicanalítica/RJ
Incere
Instituto de Estudo da Familia INEF
Insituto Langage
Instituto Viva Infância
LEPH/MG
Lugar de Vida
Centro Lydia Coriat de Porto Alegre
NIIPI/BA
NINAR – Núcleo de Estudos Psicanalíticos
NÓS – Equipe de Acompanhamento Terapêutico.
Projetos Terapêuticos/SP
Trapézio/SP
Associação Espaço Vivo/RJ

Centros de atendimentos do governo

Caps Pequeno Hans/RJ
Capsi Guarulhos/SP
Capsi-Ipiranga/SP
Capsi-Lapa/SP
Capsi Mauricio de Sousa/Pinel-RJ
Capsi Mooca/SP
CAPSI-Taboão/SP
CAPSI de Vitória
CARM/UFRJ
NASF Brasilandia/SP
NASF Guarani/SP
UBS Humberto Pasquale/SP
Centro de Orientação Médico-Psicopedagógica – COMPP/SES-DF
Capsi COMPP/SES-DF
Capsi Campina Brande/PB
Associações
ABEBÊ – Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê.
ABENEPI/Maceio
ABENEPI/RJ
ABENEPI/BSB
Associação Metroviária do Excepcional AME
Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental
CRP/SP ( conselho regional de psicologia)

Hospitais

Centro Psíquico da Adolescência e Infância da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (CePAI/FHEMIG)
CISAM/UPE – Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros – Universidade de Pernambuco
HCB (Hospital da Criança de Brasilia)
Serviço de psicossomática e saúde mental do Hospital Barão de Lucena -HBL/ Recife
Hospital Einstein
IEP/HSC Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Santa Catarina
Hospital Pinel
Hospital das Clínicas – Universidade de Pernambuco

Revista

Revista Mente e Cérebro

Grupo de pesquisa

PREAUT BRASIL
Grupo de pesquisa IRDI nas creches

 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Suzana Herculano-Houzel: Programa Roda Viva

Suzana Herculano-Houzel, nesta entrevista, nos fala da pesquisa no Brasil, de seu percurso nas instituições estrangeiras e pontua de forma muito direta a falta de investimentos na pesquisa brasileira, nos diz ainda de que em nossas universidades não temos pesquisadores mas, professores que não recebem incentivo para a pesquisa.

Nos fala da distinção entre mente e cérebro e responde de forma muito interessante sobre os estudos da psicanálise e a neurociência.

Formada em Biologia Modalidade Genética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992). Fez mestrado pela universidade americana Case Western Reserve (1995), doutorado na França pela Pierre et Marie Curie (1998) e pós-doutorado na Alemanha pelo Instituto Max Planck (1999), todos em neurociências.
Em 1999 voltou ao Brasil e passou a dedicar-se à divulgação científica, lançando também o site Cérebro Nosso de Cada Dia.
É autora de alguns livros, produziu inúmeros artigos científicos, além de textos e colunas para revistas e jornais como Folha de S. Paulo.
Exerce o cargo de professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 2002, além de dirigir o Laboratório de Neuroanatomia Comparada.
É membro do corpo editorial da Revista Neurociências e colaboradora de Jorge Zahar Editor.



 Livros:

O Cérebro Nosso de Cada Dia (Vieira & Lent, 2002)
Sexo, Drogas, Rock and Roll... & Chocolate (Vieira & Lent, 2003)
O Cérebro em Transformação (Objetiva, 2005)
Por que o Bocejo É Contagioso? (Jorge Zahar Editor, 2007)
Fique de Bem com seu Cérebro (Sextante, 2007)
Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor (Sextante, 2009)

Site oficial

Cérebro Nosso de Cada Dia

Entrevista para o programa Roda Viva em 2008

"É hora de parar de mentirinhas e fazer campanha pela razão certa: não porque maconha é "leve" (não é, maconha vicia, e bem rápido), muito menos porque "não faz mal" (faz, sim), e sim porque a proibição obviamente não funcionou para conter a expansão do tráfico. Eu mesma fui, por muito tempo, contrária à legalização, por acreditar que era papel do Estado proteger os cidadãos contra suas próprias más escolhas. Mas deixei disso: agora acho que cada indivíduo deve ser responsabilizado por suas próprias escolhas, boas ou ruins, e é papel do Estado proteger os cidadãos contra as más escolhas DOS OUTROS, com penas severas para quem causar danos a terceiros sob influência. Legalizar a maconha é um bom começo, que espero que logo seja estendido para todas as outras drogas formadoras de vício. Isso deve ser bem mais produtivo do que a tentativa de conter o tráfico, que tem se mostrado tão eficaz quanto enxugar gelo, aqui e em outros países".
(Palavras da Suzana, a neurocientista de plantão, lá em sua página)


segunda-feira, 25 de março de 2013

Jacques Lacan - Seminário Inédito:


Jacques Lacan, Seminário inédito em francês:

Jacques Lacan, l’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977)

Organização de Patrick Vallas.

Página Oficial de Patrick Valas (Baixe arquivo):

 

domingo, 24 de março de 2013

Verdade Criadora

(Conjecturas de uma amanhecer cinza)

A linguagem nos aprisiona, isso como uma premissa. Mas, nos aprisiona porque e em que sentido?
Por uma "vontade" de saber!
Porque Édipo fura seus olhos?
Pois, que a tragédia do conhecimento nos cega!
Édipo quando descobre que Jocasta é, verdadeiramente, sua mãe, ele não suporta a verdade e fura os olhos..
Então, saber a verdade carrega em si uma tragédia. O saber é trágico?! Saber a verdade é ficar cego... Pois, que a verdade carrega uma potência...
Querer saber desta potência é um ato trágico, por isso, furar os olhos, já que nos revelam a verdadeira natureza da realidade...
Vontade de potência significa criar algo...não desejar dominar a vontade, pois que a vontade é criadora... E onde se encontra toda essa verdade criadora? Na linguagem..."

(Imagem da Divina Comédia de Dante)
  Illustration by Gustav Dore

(Pela cabeça ele tinha o membro para servir como lanterna do sábio. Pendente na mão, olhando para nós ele disse: "Ai sou eu!")

Dante - Canto 28, lines 116-119.

sábado, 23 de março de 2013

Espanando a Peste ao som de Kusturica

Retomando e recauchutando o blog da Peste.... vamos reciclar, customizar e passar o espanador...
Vamos ver o que acontece...
Como disse Nelson Rodriguês:
"Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé."

Peço desculpas pelo tempo que me afastei, mas foi essencialmente necessário para realizar um intento.
Voltamos e vamos escrever, debater e utopizar o mundo.
 Enquanto espano que tal escutar Emir Kusturica....


"Amor" letal

Por Contardo Calligaris*
Folha de S. Paulo, 31/01/2013

Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar?

Algumas reflexões depois de assistir a "Amor", de Michael Haneke. Adolescente, eu já achava bizarra a certeza com a qual alguns amigos se expressavam: "Se eu ficar 'assim'", diziam, "eu me mato na hora. E, por favor, se eu não me matar, seja generoso comigo, mate-me você”. O "assim" que justificava tamanha convicção dependia de relatos, leituras e filmes --ia desde uma impotência sexual talvez passageira (mas que parecia acabar com o charme da vida) até a condição terrificante do protagonista de "Johnny Vai à Guerra", livro e filme de Dalton Trumbo: o soldado Joe, sem braços, sem pernas, sem rosto, parece ser apenas uma carne disforme, enquanto amente dele continua funcionando. Eu não concordava com a certeza suicida de meus amigos; imaginava que, antes de decidir me matar, seria bom experimentar minha nova condição durante um tempo. Afinal, em geral, as imperfeições nunca impediram os humanos de viver --ao contrário. Na época de minha adolescência, não dispúnhamos do exemplo do físico Stephen Hawking ou de Christy Brown, o protagonista de "Meu Pé Esquerdo", de Jim Sheridan. Em compensação, um amigo de meus pais, severamente inválido, disse-me, uma vez: "Você, por exemplo, não pode voar como as aves e é desafinado como um sino quebrado; ou seja, tem coisas que não pode fazer, e você vai procurar o valor de sua vida em outras coisas, que você pode fazer. Comigo não é diferente". Entendi. Mas me sobrou um certo medo (justamente, pela leitura precoce de "Johnny Vai à Guerra"): poderia acontecer que, de imediato, por causa de um acidente cerebral ou, sei lá, de um incidente de carro, eu me encontrasse numa condição na qual eu não quisesse viver de jeito nenhum e na qual eu não tivesse sequer a capacidade material e mental de pôr fim à minha vida ou de pedir para um próximo que ele me ajudasse a morrer .Anos atrás, conheci alguém realmente preocupado (muito mais do que eu) com essa eventualidade. Ele envelheceu desesperado, oscilando entre o medo de se matar cedo demais, quando ainda poderia viver um tempo que valesse a pena, e o perigo de esperar além da conta e decidir sair de cena quando ele não tivesse mais condição de se matar ou de pedir a alguém que o matasse. O mesmo alguém se consolava pensando assim: no caso extremo em que eu não pudesse mais pedir, quem me ama (ou melhor, quem amava aquela pessoa que eu era antes) saberá decidir que eu, embora impedido de me manifestar por minha invalidez, não estou querendo mais viver. Nessa situação, para quem me ama (ou amava, que seja), me ajudar a morrer seria um gesto de amor. Pois é. Não é tão fácil assim nem tão claro. Na sua coluna de sexta passada, Barbara Gancia escreveu, com razão, que "o fardo de cuidar dos idosos tornou-se um dos maiores dramas da atualidade". Os avanços da medicina fazem que, hoje, sejam cada vez mais numerosos os que cuidam de próximos que sobrevivem transformados pela idade, pela invalidez ou pela demência. E sobrevivem, muitas vezes, tanto irreconhecíveis quanto incapazes de reconhecer os que cuidam deles. Perguntas básicas. 1) Será que o outro que nós amávamos, se ele pudesse escolher, toparia viver como ele está agora? 2) Será que o ser do qual cuidamos hoje é o mesmo que nós amávamos antes do acidente, da invalidez ou da demência? Se ele não for o mesmo, será que esse "novo" ser não tem seus próprios critérios do que é uma vida que valha a pena de ser vivida --critérios diferentes dos do nosso amado de antes? 3) Difícil continuar amando alguém que não nos reconhece mais. Mas será que por isso o deixaríamos morrer --por ele não ser mais aquele ou aquela que amávamos? 4) Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar? É porque o custo (em todos os sentidos) é excessivo e queremos recuperar nossas vidas? Ou é porque é quase impossível fazer o luto de um amado que já se foi, mas continua de corpo presente? Acontece que alguém se suicide depois de ter matado um amado inválido e demente, de quem não consegue mais cuidar. É mais que uma maneira de evitar a culpa: renunciando a viver sem você, confirmo que foi por amor que matei você --ou melhor, que matei o desconhecido que tinha tomado seu lugar. Pois é, foi mesmo por amor que matei você? Ou por vingança, por você ter me deixado sozinho? Seja como for, fica confirmado, embora num sentido inabitual, que o amor resiste dificilmente ao tempo.

*Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".

domingo, 9 de outubro de 2011

Cortina de Fumaça: você precisa ouvir o que eles têm a dizer - Documentário


Cortina de Fumaça é um projeto independente movido pela vontade de colaborar na construção de uma sociedade mais equilibrada e alinhada com os princípios de liberdade, diversidade e tolerância.
Um documentário ousado sobre um tema polêmico que interessa a todos e que precisa ser debatido de forma honesta; a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, precisa ser repensada porque muitas de suas conseqüências diretas, como a violência e a corrupção por exemplo, atingiram níveis inaceitáveis.
“O modelo atual de política de repressão às drogas está firmemente arraigado em preconceitos, temores e visões ideológicas. O tema se transformou em um tabu que inibe o debate público por sua identificação com o crime, bloqueia a informação e confina os consumidores de drogas em círculos fechados, onde se tornam ainda mais vulneráveis à ação do crime organizado”. Relatório da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia (2009).

O documentário de 88 minutos traz informação fundamentada para o grande público através de depoimentos nacionais e internacionais. Além do Brasil, o diretor Rodrigo Mac Niven gravou na Inglaterra, Espanha, Holanda, Suíça, Argentina e Estados Unidos; visitou feiras e congressos internacionais, hospitais, prisões e instituições para conversar com médicos, neurocientistas, psiquiatras, policiais, advogados, juízes de direito, pesquisadores e representantes de movimentos civis. Dentre os 34 entrevistados, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva e o criminalista Nilo Batista.
O filme fala sobre a relação entre o homem e as drogas psicoativas; revela a discordância entre a atual classificação das drogas e o conhecimento científico sobre essas substâncias; discute a situação particular da Cannabis (maconha), seu uso industrial e medicinal; levanta fatos relacionados ao surgimento dos projetos proibicionista e aponta para o colapso social que algumas cidades, como o Rio de Janeiro, vivem por causa da violência e da corrupção.
O filme foi produzido, escrito e dirigido pelo jornalista Rodrigo Mac Niven, numa co-produção entre a J.R. Mac Niven Produções e a TVa2 Produções.

Para o diretor, “é preciso instigar os indivíduos a repensarem a sociedade porque ela está em constante mutação. As pessoas desconhecem informações fundamentais que determinam uma política de drogas que interfere diretamente na vida delas, na liberdade delas, na segurança delas. Uma política que ignora princípios e direitos universais de liberdade e soberania. Muita gente está lucrando com isso e quem sofre é a sociedade que não consegue enxergar tamanha é a desinformação”.



Documentário Completo You Tube:




***Documentário no Vimeo: http://vimeo.com/22144223 (Pode fazer Download autorizado pelo autor)

***Neip – Núcleo de estudos interdisciplinares sobre psicoativos: http://www.neip.info/index.php




Maria Rita Kehl: "Drogas e Psicanálise"

Conferência da psicanalista Maria Rita Kehl: "Drogas e Psicanálise", no Café Filosófico da TV Cultura.
(1)

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(4)



Link do Café: http://www.cefetsp.br/edu/eso/culturainformacao/drogaspsicanalise2.html

sábado, 8 de outubro de 2011

LACAN Obras Completas Download (atualizado link)

(Jovem Lacan pegando um bronzeado)


"Herdo de Freud, muito à minha revelia, por ter enunciado de modo propício o que podia ser extraído com boa lógica da lengalenga daqueles que ele chamou de seu bando, e que não tenho necessidade de nomear. Trata-se daquela cambada que acompanhava as reuniões de Viena e da qual se pode dizer que ninguém seguiu a via por mim chamada de boa lógica."

"Depois que Adão nomeou os animais, Evida (a mãe dos vivos) será a primeira a se servir da língua para falar com a serpente." ( Jacques Lacan, O Sinthoma - Livro 23, 1975-1976)

Para os despossuídos da Obra de Jacques Lacan mas, ávidos por consumi-la e devora-la, eis a oportunidade de baixar a obra completa. Não se reprimam, nem se assustem com a tradução em espanhol, estejam certos de que a loucura é a mesma, não importa a língua. Aliás, a língua é o melhor que temos.


*** Links: para baixar a Obra de Jacques Lacan:

O Scribd tem umas frescuras para poder baixar, mas dá pra encarar. (É preciso fazer cadastro e upar alguma coisa em troca dos downloads)



Conjunto de livros sobre psicanálise (INCLUINDO OBRA COMPLETA DO LACAN) no PirateBay que podem ser resgatados pelo torrent. O arquivo contém um conjunto de 109 livros sobre/de psicanálise, com 3,61 GB, todos em língua portuguesa.
http://thepiratebay.se/torrent/8240165

(É PRECISO BAIXAR O APLICATIVO utorrent, Se liguem nessa baixaria, pois, vem junto com o negócio, se não cuidarem, o incomodo ASK - (Ask Toolbar) que perturba nossos navegadores.)

Sugestão: entre no site acima, clique com o botão direito em GET THIS TORRENT, clique em "copiar endereço do link", abra o programa utorrent (http://download-new.utorrent.com/…/utorrent/os/windows/trac…), clique em Arquivo, clique em Adicionar Torrent da URL e dê enter. Caso não queira baixar todos os arquivos, vá na guia 'Arquivos' do utorrent, selecione os livros que você não quiser baixar, clique com o botão direito em cima deles e clique em 'Não baixar'. Para saber em que pasta seus livros estão indo, clique em Opções > preferências > diretórios.

(Com as recentes mudanças, proibições, perseguições e processos muitas ferramentas da net, links etc deixaram de funcionar)
Para baixar no Shared, se faz necessário um cadastro e senha, de resto é só correr pro abraço). Boa leitura!

*Caso este novo link não funcione, favor deixar mensagem. Reatualizado em 30.11.2014.



"Havia um tempo em que eu era um pouco dado a alardes. Dizia como Picasso - Eu não procuro, acho. Mas agora me custa mais trilhar meu caminho." (Jacques Lacan)
                                                                                                                                                                                         

sábado, 10 de setembro de 2011

Entrevista com Michael Foucault



Esta mini-entrevista de Michel Foucault (1926-1984) fue publicada en un diario italiano el 11 de septiembre de 1981, a dos días de la muerte de Lacan.

-J. Nobécourt -Suele decirse que Lacan ha sido el protagonista  de "una revolución del psicoanálisis". ¿Piensa que es exacta y aceptable esta definición de "revolucionario"?

M. F.-Yo creo que Lacan habría rechazado ese término de "revolucionario" y la idea misma de una revolución en psicoanálisis. Él quería simplemente ser "psicoanalista". Lo que a sus ojos suponía una violenta ruptura con todo lo que tendiera a hacer que el psicoanálisis dependiera de la psiquiatría, o a hacerlo un capítulo algo sofístico de la psicología. Él quería sustraer al psicoanálisis de la proximidad, que consideraba peligrosa, de la medicina y las instituciones médicas. Buscaba en él no un proceso de normalización de los comportamientos, sino una teoría del sujeto. Es porque, pese a la apariencia de un discurso extremadamente especulativo, su pensamiento no era ajeno a los esfuerzos que se habían hecho para cuestionar las prácticas de la medicina mental.

-Si Lacan, como usted dice, no ha sido un revolucionario, es totalmente cierto que sus obras han tenido una influencia muy grande en la cultura en las últimas décadas. ¿Qué es lo que ha cambiado después de Lacan en los modos de ser de la cultura?

M. F.- ¿Qué ha cambiado? Si me remonto a los años cincuenta, la época donde el estudiante que yo era leía las obras de Lévi-Strauss y los primeros textos de Lacan, me parece que la novedad era la siguiente: descubríamos que la filosofía y las ciencias humanas vivían sobre una concepción muy tradicional del sujeto, y que no era suficiente decir, con algunos, que el sujeto era radicalmente libre, y con otros, que estaba determinado por condiciones sociales. Nosotros descubrimos que había que buscar liberar todo lo que se esconde detrás del empleo aparentemente simple del pronombre "yo" [je]. El sujeto, una cosa compleja, frágil, de la que es tan difícil hablar, y sin la cual no podemos hablar.

-Lacan tuvo muchos adversarios. Fue acusado de hermetismo y de "terrorismo intelectual". ¿Qué piensa de esas acusaciones?

M. F.- Pienso que el hermetismo de Lacan se debía al hecho de que él quería que la lectura de sus textos no fuera simplemente una "toma de conciencia" de sus ideas. Él quería que el lector se descubriera él mismo [lui-même] como sujeto del deseo a través de esta lectura. Lacan quería que la obscuridad de sus Escritos fuera la complejidad misma del sujeto, y que el trabajo necesario para comprenderlo fuera un trabajo a realizar sobre sí mismo [soi-même]. En cuanto al "terrorismo", solamente subrayaré una cosa: Lacan no ejercía ningún poder institucional. Los que lo escuchaban querían escucharlo, precisamente. Solo aterrorizaba a los que tenían miedo. La influencia que uno ejerce nunca puede ser un poder que se impone.

(Trad. Gabriel Meraz)

Lacan, le "libérateur" de la psychanalyse, de Dits et écrits (IV) , Gallimard, Paris, 1994, pp. 204-205.

***Esta postagem encontra-se originalmente no Blog La Biblioteca del Psicoanalista y su Escritório. Blog de Gabriel Meraz. Endereço: http://bibliotecadelpsicoanalista.blogspot.com/

sábado, 3 de setembro de 2011

Psicanálise e Sexualidade na Contemporaneidade

A Semana Acadêmica de Psicologia da Unijuí aconteceu, passou... E, não consegui postar, com antecedência, a divulgação do evento. Mas, quero marcar o acontecido e postar a capa, para sempre que possível, voltar e lembrar como uma das melhores Semanas de estudo que tive nos últimos anos. Com certeza inspirou muitos sujeitos!


“(..) O sujeito do inconsciente não é pobre ou rico, branco ou negro, tampouco, homem ou mulher. É em sua relação com a alteridade em que para ele consistem a linguagem, a família, a sociedade, enfim, todos os elementos do que Lacan denominou o Outro, que o sujeito vai sexuar-se, definir-se homem ou mulher, e definir também seus demais atributos.”
 (Luciano Elia)





quarta-feira, 20 de julho de 2011

Da palavra errante



Por Gonzalo Penalvo Rohleder, 14 de julho de 2011

Uma velha sabedoria diz que "toda palavra é um erro". Faz sentido, a palavra sempre falha em representar aquilo que é particular, único e amplo numa alma. Palavra é símbolo, é limitada, espera interpretação, é deformada pela interpretação, ganha vida com a interpretação.

 A palavra é um erro, é verdade, mas essa é só meia verdade. Ela também é acerto, pois é tentativa de expressar o que se move sem palavras dentro de nós. A própria vida é constante ensaio e incompletude, e acaso a vida é um erro por ser incompleta?
  
Persistente e teimosa peregrina é a palavra, com uma vontade de ferro em seus percalços à busca de mencionar o que não pode ser dito. Insistente como é, chega a vacilar às vezes, mas logo encontra outros caminhos para seguir adiante - e quanto mais tortuosos mais verdadeiros me parecem. Ela é um negativo dos estados interiores e a própria vida positivada.
  
Muitas vezes a falta da palavra, o calar constitui um erro.

Que Cheiro tem o Amor?



*** Por Nairana Melo - 19/07/2011...

Ele tinha cheiro de vento norte! Disse uma amiga, numa conversa de bar. Olhares estranhos por segundos... Mas, o que é um cheiro de vento norte?
- Ora! Vocês nunca sentiram o cheiro do vento norte?
Não! Acho que nunca senti cheiro de vento norte! Mas, já senti cheiro de rosas, jasmim, de folhas secas caindo no outono, de inverno, verão, primavera... O amor é o cheiro de quem se ama. O amor é isso, cheiro, que só quem ama sabe descrever. Só quem já amou pode falar do amor. Aqueles que nunca amaram, não sabem retribuir, tampouco, entender o que é um cheiro de vento norte.
Amo porque amo o amor. Não consigo imaginar nada mais belo do que o amor, nada mais embriagante que beber do amor... amar não tem medida, não ora, não tem lugar, só sabemos discursar sobre o amor, quando dele somos tomados.
Amar é dizer de nós. É falar dos nossos desejos, dos nossos sonhos, das nossas esperanças, das nossas fraquezas. Amar é ser por vezes ridículo e, às vezes, loucos.. Nada é pequeno no amor. Quem espera os grandes momentos, para declarar seu amor a alguém, é porque não ama.
Para quem ama, o amor tem cheiro de vento, cheiro de rosas, cheiro de folhas caindo no outono, cheiro de jasmim, cheiro de chá... Cheiro do mundo, cheiro de vida!
Às vezes, esse cheiro nos reporta ao sofrimento. Esse tal amor pode nos doer. Mas, é preciso sofrer e depois de ter sofrido, amar mais ainda, depois de ter amado. Diria Mario Quintana "tão bom morrer de amor e continuar vivendo". É isso o amor, só é amor quando dele tiramos a força para viver e desejar sempre estar ao lado de quem se ama...
Enfim, ele tinha cheiro de vento norte! Tinha cheiro de amor...

Dedicado a todos que um dia já amaram e sabem falar do cheiro do seu amor... 

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