Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


domingo, 24 de janeiro de 2010

“De te fabula”


“De te fabula”: A história, qualquer que seja, é sempre sobre você (ditado latino);



Sebastian


Sebastian Díaz Esquivel nascera numa chuvosa tarde de março na cidade de Valência, Espanha. Inicialmente relutou em pertencer ao mundo, como se soubesse desde então das adversidades as quais estaria sujeita sua existência. Parecia morto até a intervenção de uma branca palma estalar em suas nádegas, pressagiando o pranto por vir, despertando-o para a vida. Arrebatado nos braços da enfermeira, manifestava uma posição a qual não se livraria tão cedo. Na sala de parto pode-se ouvir o suspiro da mãe satisfeita ao perceber que a agitação vinha de um menino. “Sempre esperei sua chegada, pequeno rei dos meus sonhos...” e extasiada em seus pensamentos, Soledad admirava o recém chegado como uma obra-prima, envaidecida pela própria autoria. Mal podia esperar para vesti-lo com os pequenos conjuntos azuis que escolhera meticulosamente. Já havia preparado toda a trajetória do menino, do jardim à universidade. Seria um médico, como fora seu avô, de mesmo nome. Ao menos era isso que ela sonhava para ele.

Para acompanhar o crescimento do garoto, Soledad plantou um olmo (árvore da qual Arthur e seus cavaleiros extraíam a madeira para suas lanças, segundo as lendas). Esperaria ela ver emergir em seu filho um altivo cavaleiro? Quais os limites para a delirante fantasia de uma mãe desesperada? Sabe-se que nunca perdoou Esteban por tê-la deixado. Ele morreu, é verdade, mas não tinha esse direito!


Na escola Sebastian chamava pouca atenção. Passava introspectivamente observando as brincadeiras de seus colegas, esperando o sinal para voltar ao aconchego de seu lar, a seus brinquedos, aos braços de sua mãe. Com o passar dos anos se interessava mais e mais pelos livros. Preferia não pensar muito em como teria sido crescer com um pai ao lado. Para ele, as histórias proporcionavam um lugar seguro, um refúgio, onde a “loucura do mundo” – como escrevera em suas redações aos 16 anos –não destruiria seus sonhos, sua paz.


Iniciou, compelido por sua mãe, os estudos de medicina na Universidade local. Sabia que não era o que queria vendo-se perdido entre estudos de anatomia e fisiologia. Passou a dedicar seu tempo em aula escrevendo. Em suas histórias e poesias se reconhecia o talento de um escritor imaginativo e perceptivo. Considera que sua vida transcorreu tranquilamente esses anos todos, numa normalidade quase letárgica, mas isso não se estenderia por muito tempo...


Numa noite fria, enquanto saía carregado de livros embaixo do braço, caminhando apressadamente até sua casa, algo se moveu nas sombras. Estava escuro na calçada em que passava, e não pode ver o que estava sobre o muro e agora pulava em seu rosto. Deixou cair seu material, debateu-se por alguns instantes para retirar aquilo que agora percebia ser um gato preto pendurado em sua camisa. Tivera já a sensação de ser observado enquanto transitava por essas ruas, quando ficava a sós em seu quarto, sentado à escrivaninha com a janela aberta. E isso serviu para deixá-lo mais paranóico. Espantado o animal, tratou de recolher os papéis espalhados. Ainda ouviu um ruído vindo dos arbustos próximos, mas não ousou verificar de que se tratava. Seguiu seu trajeto para casa, tomou uma ducha demorada e foi deitar-se.


Pelo menos quatro noites se passaram até que sentado na biblioteca universitária, consultando obras de Balzac na estante, notou não estar só. Por entre os livros pode ver passar a figura esguia de cabelos negros e traços finos. Ela lhe fitou rapidamente, como se para certificar-se de que era observada. Seu pálido semblante revelou um leve sorriso de satisfação ao constatar que sim, ele a vira. “Que linda! Como pode haver criatura tão perfeita!” pensou, ao menos crê ele ter somente pensado. Recolheu alguns livros e retornou a seu lugar, próximo de onde ela se sentara. Ensaiou inúmeras formas de iniciar uma conversa, porém, sem êxito. Ela praticamente o ignorava, compenetrada em sua leitura. Passaram-se trinta minutos até que ela se levantou e saiu. Sebastian discretamente se pôs a segui-la. “O que estou fazendo? Como posso sair atrás dela assim? Mas eu preciso conhecer ela” Sebastian sente-se invadir a noite a dentro! “Sim! E por que não? Sim sou um Amante como aqueles que Balzac fala! Isso é mais emocionante que ficar ao lado daqueles mortos e estudos de medicina”. Mas para a sua decepção alguns quarteirões depois simplesmente a perdeu de vista, assim que dobrou a esquina. Haviam poucas casas naquela quadra, um prédio velho, lojas e uma casa grande e sombria, com altas grades cercando-a. Ela não moraria num lugar daqueles, isso era certo.


Chegara a semana de avaliações, e Sebastian tentava se concentrar em seus estudos. Mas a imagem daquela moça persistia em sua mente apesar dos esforços que fazia para afastá-la. O relógio digital sobre o criado-mudo marcava 02h45min quando uma voz feminina sussurrou docemente em sua cabeça: “Meu poeta querido... escreva para mim... escreva Sebastian, deixe transbordar pelas linhas o fogo que seu coração não pode dar conta...” E ele escreveu. Dominado por uma compulsão sobrenatural, escreveu durante toda a noite, parando só pela manhã, quando sua mãe levantou e pegou-o acordado ainda, o que ela não admitia. Já tinha 23 anos, mas não era saudável ficar tanto tempo acordado!


Soledad não entende o que está se passando com seu filho. Andando distraído pela casa, às vezes o surpreende admirando o jardim pela janela enquanto pronuncia baixinho palavras ininteligíveis. Sentado na varanda seu olhar se perde fitando o infinito... “isso não é bom!” pensa consigo. Já tivera conhecimento acerca dos poucos namoricos em que ele se envolvera anteriormente. Mas dessa vez tinha algo mais. Será que seu amado garoto estaria... apaixonado? Fica a se interrogar incredulamente quem ousaria roubar-lhe o bem mais precioso que dispunha. Caberia a ela a tarefa de protegê-lo, como sempre fizera nesses anos.


Vagando à noite pelas ruas em que seguiu aquela mulher, após fazer o caminho algumas vezes, decide por fim ir embora. Ao chegar a sua casa se depara com seu quarto bagunçado. Gavetas abertas, papéis espalhados, e nota a ausência de suas poesias. Sai pela casa aos gritos e pela primeira vez expressa furiosamente sua revolta para com sua mãe:
- Soledad! O que fez de meus papéis? Acaso está louca mulher?

De seu cômodo ela responde:

- Como ousa falar assim comigo? Tu és quem deve estar enlouquecendo!Não vê que só quero teu bem? Estou te protegendo e um dia irá me agradecer!
- Não sabe o que diz, onde colocou meus poemas?
- Queimei aquilo tudo!
- O que fizeste foi destruir o laço que me unia a ti, a quem não considero mais como mãe!

E ignorando as súplicas de Soledad, Sebastian arrumou suas coisas numa mochila e partiu. A madrugada chegara e o único lugar em que poderia descansar seria a estação do metrô para onde se dirige. Ele observa a sua sombra, uma após a outra ao passar pelos postes de luz, sente-se confuso não sabe o que fazer. “E agora qual será o meu próximo passo?” Mas Sebastian só escuta seus passos enquanto caminha até o metrô. “Tenho toda a minha vida pela frente” Dizia ele a si mesmo.


Encolhido em um banco duro, com um cão velho ao lado ele dorme. Acorda pela manhã ao som do trem que agora vomita pessoas de todos os tipos. Sobre seu corpo, um bilhete à mão com as palavras:


“E pensar que esteve perto tantas vezes meu poeta. Venha me ver onde as flores lamentam, o aguardo impacientemente.”


Leu a mensagem incrédulo, tentando entender como ela havia chegado ali. Seria daquela bela mulher?Como poderia?E onde seria o lugar onde as “flores lamentam”? Guardou o papel no bolso do casaco e partiu à procura de um hotel para ficar.


Ao cair da noite fria, saindo de um bar onde havia aquecido a garganta com umas doses de whisky, tenta decifrar o enigma. Segue impulsivamente o mesmo caminho de antes, quadras e quadras a pé, até parar diante a grande mansão. Esta ficava numa esquina, que para sua surpresa era o cruzamento da Avenida Flores com a Rua dos lamentos (local onde foram massacrados militantes contrários ao ditador Franco nos anos 30). Só podia ser ali, o portão principal estava semi-aberto e Sebastian sentiu seu coração acelerar a cada passo dado em direção à porta. Não podia ver o chão claramente devido a precária iluminação, que se limitava a uma fraca lâmpada na varanda. Ao fazer menção de bater, a porta se abriu lentamente revelando uma decoração suntuosa entre a penumbra. Sentiu-se entrando numa próspera mansão do século XVIII. Mas quem abrira a porta?


- Entre Sebastian, não tenha medo.


Hesitou por um instante e finalmente arriscou dar um passo para dentro da casa. Ouviu a porta se fechando à suas costas, deixando-o nervoso. Ainda assim, com toda insegurança típica de sua personalidade, via-se incapaz de recusar as gentis colocações da dama. Agora podia vê-la levantar de uma grande poltrona e caminhar lentamente até ele. Rosto altivo, lábios bem vermelhos, cabelos pretos. Usava com distinta elegância um vestido vinho e preto que remetia à era Vitoriana. Parecia deslizar pelo carpete avermelhado, num andar sutil e nobre que o hipnotizara. Tanto é que em momento algum suspeitou da casa, do figurino da anfitriã, da rubra coloração que os olhos verdes dela estavam tomando.


Ela parou diante de Sebastian estendendo a mão, a qual ele prontamente se inclinou para beijar.


- Permita que me apresente nobre poeta, me chamo Carenza.


Sorriu e indicou um lugar próximo ao crepitar da lareira para o convidado. Ele deu uma volta em torno dela, como se quisesse confirmar a veracidade da visão diante seus olhos.


- Por favor, sente-se ali, suponho que não irá recusar uma taça de vinho.
- Bem... eu... é... claro! Aceito sim. Obrigado. Mas conte-me senhorita... Carenza, como sabe meu nome, e que escrevo poemas?
- Encontrei umas folhas perdidas voando pela calçada por onde passava, e me chamaram atenção. Então pude perceber que se tratava de poesia, e AMO poesia.
- Verdade, penso ter perdido alguns papéis outra noite dessas, mas como soube que eram meus?
- Para ser sincera, pude ver de longe que era você, só não pude alcançá-lo para devolver-lhes. Sua assinatura estava numa das páginas, daí fiz a ligação.


Satisfeito com a resposta, Sebastian perdeu a noção do quanto havia bebido, mas sentia o doce do vinho em sua boca e que do tempo transcorrido desde a sua chegada seguiu empolgadamente conversando sobre arte, música e literatura. “Que sorte achar uma mulher bela e culta como esta!” Em algum momento acabou comentando sobre o problema com sua mãe. Contou o quanto estava chateado com tudo isso, mas que queria mesmo ser livre e viver sua própria vida.


- Acredito que minha mãe só me deixará em paz quando morrer. Aposto que irá por toda a polícia atrás de mim, e não sossegará até que eu volte para casa.


Tendo ouvido isso, os olhos da mulher se apertaram ligeiramente.
- Esta tudo bem agora, fique aqui esta noite querido. Cuidarei de você.


Carenza levantou-se, tirou a taça da mão de Sebastian e beijou-o demoradamente.


Abriu os olhos, estava um pouco tonto ainda e a sua frente estava uma senhora com uma bandeja nas mãos. Parecia ter cerca de 50 anos, mas movia-se agilmente;


- Senhor, fui ordenada a trazer-lhe esta refeição.
Colocou a bandeja sobre ele, arrumando seu travesseiro.
- E a senhorita Carenza?
- Ah, a senhorita teve que sair para resolver uns assuntos pela cidade.


Eram 2 da tarde quando saiu da mansão, ainda zonzo pela bebida, - se é que bebera tanto assim. Voltou ao seu hotel e descansou um pouco mais. Fumando e pensando nela. Então pensou em dar uma passada em casa e ver como estava sua mãe. “Talvez tenha sido muito rude com ela”. Surpreendeu-se ao ver a frente da casa tomada por policiais. Correu para dentro da casa, rompendo o isolamento.


- Saiam da frente, eu moro aqui droga!


Subiu correndo as escadas e chegando ao quarto de Soledad ficou chocado. Sua querida mãe jazia sentada em sua cadeira de balanço. Os braços pendiam para os lados, a cabeça inclinada e seu rosto denotava uma expressão de terror incontido. Ainda assim a presença dela parecia demandar-lhe obediência. Caiu de joelhos aos pés dela e inevitavelmente desabou em pranto. Passados alguns minutos, levantou-se lentamente para fitá-la mais uma vez. Inclinou-se sobre ela encarando a profundidade daqueles mortos olhos negros, como os dele. Com uma das mãos acariciou aquela face marcada pela passagem de 54 primaveras e algo muito doloroso.


Nos dias que se seguiram não quis ver ninguém. Sozinho em seu quarto, Sebastian pode sentir intimamente a miséria de seu desamparo. Garrafas vazias e papéis espalhados emolduravam um corpo passivamente entregue. Indiferente ao passar das horas. Tentando dormir a maior parte do tempo e negligenciando os cuidados com seu corpo alimentava-se pobremente. Boa parte do seu mundo se fora com a morte de Soledad. Era nisso que pensava quando seus pensamentos foram subitamente tomados pela lembrança de Carenza.


Já se passara mais de uma semana e agora sentia falta da jovem mais do que nunca. Sentado ao chão, com a cabeça apoiada contra a parede, refletia quanto ao rumo que sua vida tomaria. Resolvera definitivamente abandonar o curso de medicina. Não precisaria mais tentar enquadrar-se na vontade de sua mãe. Poderia em fim realizar aquele desejo incontrolável que assaltara sua mente nos últimos tempos. Estudar literatura, escrever e tornar-se um escritor reconhecido. E um novo ânimo voltou a habitar aquilo que era praticamente um cadáver ambulante.


Nessa mesma noite teve a idéia de visitar sua amante misteriosa.


- Entre... Bem vindo a minha casa; Entre livremente e de boa vontade; Vá em segurança e deixe algo da felicidade que trás! – Exclamou ironicamente Carenza, parafraseando Drácula, de Bram Stoker.


- Vejo que estava à espera de alguém já?!
- Sim, ele acabou de chegar.


Sebastian forçara um sorriso, e na conversa que se seguiu falou muito a respeito da triste perda sofrida. Ela representava certo interesse, mostrando-se afetada e pesarosa com a notícia. Após ouvi-lo por um bom tempo, sua atenção desviou-se do relato para fixar-se no leve pulsar da artéria carótida no pescoço do rapaz. Decidiu intervir:


- Sei como se sente Sebastian, e lamento profundamente o ocorrido. Mas o que acha de conhecer o ateliê onde rabisco uns traços? Por favor, siga-me por aqui.


Conduziu-o através de um longo corredor precariamente iluminado. Chegando por fim numa ampla peça ricamente decorada com estátuas em jade, granito e ainda alguns quadros. Dos objetos estendiam-se largas sombras tremeluzentes como a chama das velas que ali queimavam. Prontamente reconheceu uma das obras expostas:


- “Caim matou Abel” – Sussurrou Sebastian fascinado;
- Ah, você viu, também adoro esse quadro. Tenho-o a um tempo considerável, e confesso ter sido muito inspirador para mim. Mas o motivo de tê-lo chamado aqui é outro... – Disse ela, acolhendo em seus braços um gato negro como a noite.


Sebastian ficou um pouco nervoso e desconfiado, aguardando impaciente que ela terminasse sua colocação.


- Gostaria de retribuir os poemas a mim endereçados, e confesso que eles seduziram os meus pensamentos, e que agora eles repousam sobre você! E não posso negar o que sinto ao ver as letras que você lança como flechas sobre o papel nu. Para tanto, permita-me tentar retratá-lo aqui e agora. Aceite como um modesto agradecimento esta minha obsessão por dar permanência ao que julgo belo.


- Assim você me deixa constrangido sabia?


Carenza ignorou o comentário e se pôs a pintar, selecionando cuidadosamente as cores que iria utilizar. Havia uma janela logo atrás dela, através da qual ele pôde ver o contorno escuro de uma grande árvore que contrastava com o brilho da lua. Imaginou se tratar do jardim da propriedade.


- Sabe... Fico um pouco sem jeito com essa situação, estar posando para você. – Desabafou ele ansiosamente. E apesar do que sua boca falava seus olhos a beijavam em silencio e em segredo “O que será que ela quer de mim? Será que ela me ama?” E em silêncio Sebastian estava a admirar aquela quem o admirava também. Ele observa como ela manuseava o pincel do qual dele ela extrai o belo, como ela mesmo afirmava “ao que julgo belo” – Estes outros quadros foram pintados por você? Que diferentes, muito originais mesmo.


Referia-se a algumas telas onde figuravam cenas perturbadoras e confusas, nas quais predominava a cor preta e o vermelho.


- Nada é assim tão novo querido, tenho visto sempre as mesmas coisas, apenas apresentadas numa ordem diferente. – A frase parece ter tido para ele um toque da anti-sabedoria surrealista. Ela acrescenta:


- Como disse Walter Pater, é a combinação de estranheza e beleza que constitui a atração romântica da arte.


Calou-se e permaneceu pensativo. Sua admiração por Carenza era tamanha que quase esquecera de seu luto. Quisera ter o talento da jovem para poder pintá-la também.


A sombra da arvore, atrás de Carenza, uma imensidão negra que parecia atravessar a janela e invadir a sala e abraçar a dama, e ela com a sua pele essa que ficava ainda mais branca a luz da lua, tudo isso era uma experiência que o jovem poeta até então só tinha vislumbrado em algum dos seus sonhos. “Ela parece estar entre a escuridão, que momento, que sensação, observar ela, mas talvez seja ela quem mais me observa” Sebastian mais uma vez olha para a escuridão que a arvore produz, “talvez seja eu o herói poético que a salvarei dessa sombra...”. E assim ele a contemplou e assim ele sonhou, “basta um beijo e eu serei feliz”.


-Pronto, vejamos o que vai achar... - Sinalizou ela para que se aproximasse.


A tela reproduzia ambos dentro deste mesmo aposento. Nela Sebastian observa através da janela a árvore do lado de fora, enquanto a jovem aparece abraçando-lhe pelas costas. De olhos fechados, boca levemente aberta e o nariz apontado para o pescoço dele, como se estivesse desfrutando de um doce perfume.


- Gostei! Ficou ótimo Carenza, você é capaz de captar a beleza escondida no mais trivial.
- Gostou mesmo é? - Indagou ela soltando uma breve gargalhada. – Às vezes penso que o belo é simplesmente o que nos dá prazer, supre nossa necessidade. Essa é apenas uma forma de mantê-lo junto a mim por mais tempo.


Se não se importa, vou trazer-lhe algo para beber.


Nesse momento o jovem poeta olha mais uma vez o quadro que Carenza pintou, a luz da lua ilumina a superfície, a tinta brilha úmida, suas mãos querem tocar a pintura ainda molhada como se estivessem a tocar o próprio corpo dela. Logo seu desejo é dissipado pelo silêncio ao qual estava envolto. “Preciso descobrir mais sobre ela, preciso entender o que ela quer de mim...”.


Sebastian aproveitou o momento a sós para analisar mais atentamente às obras. Não pode ignorar os ruídos vindos do quarto ao lado, aproximando-se deste para verificar. Entrou numa pequena peça empoeirada, onde constatou que a causa do barulho fora novamente o gato, que passara correndo por ele agora. Curioso diante das telas cobertas por lençóis brancos que ali estavam, adiantou-se para dar uma olhada no que ocultavam. Descobrindo uma a uma, interessou-se pela coincidência que manifestavam. Todas retratavam homens, aparentemente de diferentes épocas, devido a variedade dos trajes. O último deles, num uniforme militar parecia-lhe familiar, mas ao se aproximar uma voz interrompeu sua observação.


-Vejo que está Curioso sobre em mim. Ela ri, e quando Sebastian vira-se lá esta ela á sorrir graciosamente.


Mas logo sua expressão modifica-se, seu olhar constrange Sebastian. Ela aproxima-se dele – Cuidado Sebastian, cuidado com a curiosidade, ela pode levar você a descobrir segredos que retirariam esse brilho de vida dos seus olhos, olhos esses que desejo só para mim. Para sempre, e sei que os verei mesmo após a morte! Para sempre...


A casa


Construída por volta do século XVIII numa área residencial burguesa, a mansão se destacava das construções vizinhas. Desprovida do brilho de seu tempo, reconstruída inúmeras vezes. Era mais uma excentricidade arcaica no coração de Valência. Fundada para ser a residência da magistratura local, testemunhara boa parte da história recente da cidade. Da sacada no segundo andar podia-se ver a passagem do rio Túria poucos kilômetros a leste.


Seu primeiro morador, o juiz Júlio Márquez Mondragón, investira nela considerável soma de seus recursos. Recém chegado à cidade no ano de 1753, vindo de Madri, esperava pretensamente impressionar a todos. Tamanha ostentação custar-lhe-ia cara. No inverno seguinte fora fatalmente atingido num duelo de espadas. Não resistiu ao ferimento no peito, deixando uma esposa e dois filhos para trás.


Anos depois, após vingarem à morte do pai, Gabriel e Joaquín partem rumo a capital. A mãe falecera um ano antes, e estes concordaram em vender a propriedade. O comprador veio a ser um político de destaque, o qual passou a ser famoso pelas festas realizadas no local. A casa permanecera na família Vallejo desde então.


Em 1975, após enfrentar uma crise nos negócios de importação de grãos, o empresário Carlos Vallejo vai à falência. Os credores dividiram o patrimônio entre si, incluindo a propriedade. Esta ficaria desabitada até 1999, quando uma senhorita mostrara interesse em sua aquisição. Seu nome original, seu passado e a fonte de sua riqueza eram desconhecidos, embora se mostrasse socialmente ativa e com as contas em dia. Acrescentara ornamentos góticos em ferro, harmonizando com as gárgulas já existentes. Promoveu grandes reformas sem alterar, no entanto, o aspecto decadente do exterior.


Nos dez anos em que esteve sob os cuidados de sua nova dona, poucas pessoas viram seu interior. Durante o dia pode-se ver apenas uma senhora que sai cedo para fazer compras, e um jardineiro que encara com desconfiança os transeuntes. Circundada por altos muros, possui um pesado portão principal, único ponto de onde se pode ver o jardim da entrada. Uma calçada em mármore contornada pela vivacidade rubra das roseiras conduz até a porta da casa. Parece haver um jardim maior nos fundos, mas pode ser pura especulação. Empregados anteriores atestaram a presença de um pequeno cemitério também. Mas a imaginação popular não tem limites, e o que esperar quando as testemunhas estão internadas num hospital psiquiátrico?!



A árvore



Perdida em meio a um enredado de folhas e galhos, no que teria sido a muito um vasto jardim, uma árvore solitária. Era um antigo carvalho, talvez até centenário. Fora preciso o apoio de algumas vigas de madeira para sustentar o peso dos anos e mantê-lo em pé.


Ainda guarda a marca de pregos velhos pelos galhos inferiores. Servira de brinquedo a pelo menos três gerações dos Vallejo. As iniciais talhadas em seu tronco são quase imperceptíveis agora, a menos que se passe a mão cuidadosamente. São as iniciais de Martín Vallejo e Estela Escobar, pais de Carlos.


Conheceram-se no período entre - guerra, cada qual pertencente a famílias politicamente antagônicas. Martín, contrariando seu pai, foge com Estela para a França, onde se casam. Logo nasce Carlos, e com o fim da guerra civil retornam à Valência. O velho Alfonso, avô de Carlos, os acolhe surpreendentemente bem. Talvez por sentir seu fim próximo e esperar a continuidade do nome da família, dos negócios.


Não se pode dizer mais que é só uma velha árvore. Sobretudo pelos penduricalhos em seus ramos. Delicadamente amarrados por uma figura silenciosa, quase monástica debaixo de seu vermelho manto aveludado. Uma jovem que quando abatida pela solidão recorre ao carvalho, contando-lhe seus segredos, confidenciando seus desejos. De certo modo ela se identifica com ele. Sabe como é permanecer presa a uma existência que se nutre do calor, não da terra... mas dos demais. E ver a vida que se esvai a sua volta, a transitoriedade das coisas todas. É por isso que ela tem devotado tanto cuidado e atenção a essa árvore.


Carenza


Nascida em 1740 entre a nobreza Veneziana, Francesca Abruzzi Andolini era uma típica jovem de família rica destinada a uma vida reservada e um casamento arranjado. Gostava de desenhar escondida e contemplar as obras dos museus de arte. Tendo sua mão prometida a um abastado comerciante Genovês de 60 anos, opôs-se a vontade de sua família. Anunciou que preferia tirar a própria vida a casar-se com tal sujeito.


Foi nesse intento que aos 19 anos se lançara por um dos canais que serpenteavam a cidade. O sol já havia se posto, o que dificultou que fosse socorrida. Removida da água por um cavalheiro desconhecido, acreditava estar morta, exceto pelo distante som vindo da voz deste. Ordenava-lhe que bebesse e tudo ficaria bem. Confusa e delirando, sentira algo escorrer por sua garganta. Sentiu sua cabeça girar, sugando vorazmente o que após abrir os olhos, identificou como sendo o pulso do homem.


Como Francesca viria a descobrir mais tarde, estava morta. O cavalheiro explicou-lhe a nova condição a qual estaria sujeita. Alimentando-se de sangue, evitando o menor raio de sol, tomando a noite como guardiã. Esta seria sua “vida” desde então. Agora era uma vampira, e o estado das coisas mostrara-se irreversível.


Desmaiada com a novidade, ele a levou até sua propriedade, uma fortificação fora da cidade. Apresentou-se como Alejandro Cortez, Conde de Córdova. Assustada com a estranheza da situação, assim que despertou tentou fugir. Atravessou a janela do quarto onde repousava, no terceiro piso, arrebentando-se no chão. Ele ensinou-a como se curar rapidamente, acalmou-a com suas palavras gentis as quais se via incapaz de desconsiderar.


Ensinou-lhe muitas coisas, quase tudo o que sabia. Enamoraram-se profundamente, sem terem idéia dos perigos que os rondavam. Alejandro, certo dia surpreendera dois homens espionando seus aposentos do lado de fora. Inquisição, eles o acharam, pareciam farejar os do seu tipo. Seus guardas não estavam à vista, então decidiu agir. Quando despertou e desceu as escadas, Francesca o viu limpando o sangue da roupa diante de um espelho na sala. Os espiões estavam mortos.


Nenhuma palavra fora dita a respeito, mas ele esperava a compreensão por parte dela. E ela o entendia, estava disposta a segui-lo no que fosse necessário, sempre.


Na noite seguinte, ao despertar, deparou-se com um bilhete com a letra dele:

“Infelizmente precisamos nos separar minha amada. Temo por vossa segurança mais que tudo. Nunca me perdoaria caso algum mal se abatesse sobre vós por minha causa. Espero que entenda, não a estou abandonando. Deixei uma quantia considerável no baú, para prover vosso sustento. Não esqueça de manter sempre o máximo sigilo quanto a sua condição. Muitos são os que nos caçam. Mantém alertas aqueles que vos servem, nunca se alimente deles. Nunca deixe a fúria e a fome dominarem-na, é o caminho da destruição. Não seria seguro revelar-lhe para onde irei, poderia ser o fim de nós dois. Então peço que confie em Roberto, ele me foi fiel por muitos anos. O encarreguei de protegê-la e levá-la a um lugar seguro. Por fim, fica meu desejo de que nossos caminhos venham a se cruzar o mais breve possível. Lembre-se que a amo mais do que tudo... Seu na era por vir, Alejandro Cortez.”


Lágrimas de sangue escorreram de seu pálido semblante. Levou tempo, mas acabou aceitando sua situação de desamparo. Desde então Francesca passou a viajar pelo mundo, trocando de nome constantemente. Representava impecavelmente os mais variados papéis nas cidades em que passava. Desenvolvera suas habilidades de manipulação mental ao extremo. Podia seduzir praticamente qualquer um com um simples olhar. Concentrando-se um pouco, tornara-se capaz até de saber o conteúdo dos pensamentos alheios. Não fora difícil para ela acumular uma pequena fortuna em pouco tempo.


Mas dinheiro nunca fora problema. Buscava em suas viagens conhecer mais sobre a arte e o amor. Passados 45 anos desde a partida de Alejandro, decidira parar de procurá-lo. Não estava disposta a esperá-lo mais. Percorrera toda a Europa atrás de seu amado em vão. Aproveitando a onde renascentista, aperfeiçoou seu talento como pintora e escultora. Agora a mulher começava a ter seu lugar reconhecido diante a sociedade. Aproveitou a admissão de mulheres nas Universidades para aperfeiçoar seus conhecimentos. Em alguns anos tornara-se uma erudita.
Ao longo dos anos conhecera muitos homens, sem dúvida. Encontros vazios, fugazes que tinham por objetivo somente tentar saciar uma estranha fome. Ela não costumava matá-los, apenas tomava o necessário e então os deixava num sonolento torpor. Era tempo suficiente para que sumisse na neblina da noite. Era desse jeito que ele lhe ensinara.


Escolhera viver em Valência nos últimos anos, adotando o nome de Carenza de Rocio. Influente no meio artístico, organiza eventos periodicamente. Impressiona todos por sua apurada percepção e suas críticas sagazes. Tem o respeito e a admiração da elite intelectual da cidade. Aceita alguns convites para jantares reservados, mas recusa habilmente toda proposta de almoço. É uma pena que às vezes se sinta obrigada a ceifar vidas. Mas só o faz nas poucas ocasiões em que se apaixona realmente. Então pinta um retrato da vítima, para que fique algo bom desse amor... já que Alejandro nada deixara. Não suportaria ser abandonada novamente, então essa é uma solução que encontrara para se defender. Outra excentricidade sua é coletar algum objeto pessoal de suas vítimas e pendurá-los numa árvore em seu jardim.


E Sebastian? Bem, quem sabe ela sinta ter reencontrado algo perdido nesse rapaz. Pode ser a forma como escreve, a habilidade com as palavras que a faz recordar tanto Alejandro. E quem sabe ele sobreviva, se não for estúpido o bastante para tentar fugir. Diante a fragilidade de seu amante, olhando para ele, ocorre-lhe o pensamento de que às vezes aqueles que nos amam causam-nos males maiores do que os que nos odeiam.


Por: Gonzalo Penalvo Rohleder

Participação de: Ricardo Fitz

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Ranho da Subjetividade


“O próprio escrever perdeu a doçura para mim. Banalizou-se tanto, não só o acto de dar expressão a emoções como o de requintar frases, que escrevo como quem come ou bebe, com mais ou menos atenção, mas meio alheado e desinteressado, meio atento, e sem entusiasmo nem fulgor”.

(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego)


Poderia fingir sono e sonho e, então, viver na fantasia do eterno dormir. Poderia se não fosse à insônia e os monstros do dia a me perseguir. De lá para cá não sei mais ao certo quem sou. E onde é este lá e este cá? É dentro de mim. Vivo, faz quase um ano, uma espécie de in solidum. Toda minha alma está tomada pelo mal. Por conta disso dei, ultimamente, de ler o mal do século. Ler Rimbaud com dezoito anos é uma coisa e ler Rimbaud aos trinta e poucos é bem outra. O mesmo vale para Baudelaire, meu grande mestre, meu Satã da literatura.

Tenho pronunciado a célebre estrofe das litanias: “Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria”. Quando estou andando solitária, na rua povoada de civilização, me ouço em ladainha pedindo misericórdia para Satã. Sinto-me louca, miserável e em decomposição com a vida, diria melhor, em descompasso com a vida. Desculpo-me por tudo e por todos os sofrimentos do mundo, como se eu fosse a única causa dos males que afligem os humanos. Nas noites silenciosas sento-me na varanda e fumo pensando que quero ser deus – um deus cruel que mata a todos e depois chora. Aliás, como tenho chorado... Será que lágrimas curam? Momentaneamente sim. O desejo maior é voltar ao calor uterino, pois vivo um espedaçamento narcísico, diria Freud – ferida que jamais cicatriza.

Minha melancolia é fruto... fruto. E basta dizer isso. Fruto de uma missa fúnebre. Como me apraz à alma escutar cantos fúnebres... Estou num contínuo e interminável ritual de morte. Onde o morto, quase em decomposição, anseia ser enterrado e ninguém lhe acode, pois todos permanecem fixos. Fumam, silenciam, bebem e se encaram vez que outra para ter a certeza de que permanecem todos na sala. Uns vigiam os outros e ninguém pode sair. Lá fora aves de asas oblongas circundam a casa, cães magricelas disputam o território. Pediriam um osso de braço do defunto? Dizem que cães não comem homens. Sinceramente, não sei. Só sei que homens são capazes de comer homens – a velha história da antropofagia.

Lamentemos, de mãos suadas e dadas, para eu-infeliz e para outros infelizes:
“Vita detestabilis, nunc obdurat, et tunc curat... sors immanis et inanis, rota tu volubilis, status malus, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria”.

Incomoda-me toda esta inteligência do mundo sobre o mundo, querem curar a tudo e nos deixam mais loucos, mais sofridos. Quanto mais curam, mais doenças causam. Não quero fazer parte do mundo, quero estar alheia, se coragem não me faltasse – pois bem, eis uma fraqueza que escondo – a covardia – faria como Rimbaud, escolheria uma terra vulcânica para me esconder e sofrer, suar e sufocar... Pobre Rimbaud morreu amputado e solitário. Que roda da fortuna reserva-me o ocasio? Qual o trem que hei de pegar para encontrar deus – “Deus est anima brutorum?”

Vou agora fingir que durmo para dissipar as luzes que me ofuscam, pois já é dia e os passarinhos cantam para minha angústia. Detestáveis eles cantam... Insipientes eles cantam... Por favor, digam-me, onde está o botão para desligar tudo isso?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Música do Faminto


A música do faminto é escutar murmúrios que são seus -
Murmúrios de sua própria alma álacre.
É ouvir sussurros que não provocou;
Além dos gemidos perturbadores vindos de longe
A música do faminto é sentir um gozo que não é seu
Faz o outro gozar e passa fome
Satisfaz sua ânsia olhando a boca lambuzada do outro
A música do faminto é cantar canções de outros
A música do faminto são aspersões
Às vezes come ar,
Noutras, come e bebe nada,
Por isso é faminto.
O faminto despreza o que tem
E o que não tem, faz de música a imaginação à flor da pele.

Anatólia Akkale
18.01.2010 (que data horrenda)

domingo, 10 de janeiro de 2010

ASAS DO DESEJO À POESIA DE REINER MARIA RILKE


Os anjos catalisadores do filme “Asas do Desejo” de Wim Wenders renunciam à imortalidade para provar uma xícara de café e um cigarro. Os anjos ouvem os pensamentos dos humanos, perpassam pelo cotidiano catalisando as dores e emoções que eles não são capazes de sentir; vêem o mundo com seus olhares sem cores, sentem as coisas e os objetos sem sentir; são capazes de roubar uma materialidade para tentar provocar alguma sensação. A dimensão de dois mundos (mundo angelical espectro e mundo humano paixões-desejos) é confrontada com a realidade da dor – a dor do pós-guerra – 2º Guerra Mundial. A dimensão do real vem à tona com as imagens da Alemanha dividida pela guerra. O mundo espectral e onírico dos anjos é de um mundo sem angústias, embora lamentem a eternidade e invejem os humanos, mas sem angústias como dos humanos no sentido cotidiano e banal de suas pobres vidas mortais. Eles anseiam pelas paixões e banalidades, querem saborear dos sentidos e sorver as emoções, pois deus os privou deste emaranhado de coisas duras e saborosas, não há prazer maior para os anjos do que sair da moldura divina e encarnar a moldura humana, mesmo que seja uma moldura trincada.

Asas do Desejo nos oferece uma colagem de teorias filosóficas, uma espécie de síntese da humanidade – vai de Rilke (As Elegias de Duíno), Homero, Kierkegaard, Nietzsche, Sartre, Walter Benjamin... As pinturas de klimt ao roteirista do filme (Peter Handke) ...
Em Kierkegaar encontramos algo mais ou menos assim: “A angústia é a diferença que nos faz humanos. A angústia é humana! É isso que nos diferencia dos anjos e dos animais”.

Em Walter Benjamin: “O que é o anjo do futuro? Ele está com a cara voltada para o passado e não consegue prever o futuro – a memória já é fragmentada, a história é fragmentada”.

Asas do Desejo prevalece como uma grande obra prima do cinema; é sempre bom rever. É um filme carregado de poesia, encanto, dor e angústia. As musas de Homero são outras, a morte nos angustia, mas ainda assim podemos degustar um café e nos pulverizarmos interiormente com a fumaça de um cigarro que carrega nossas angústias em 5 minutos de fumaça. A angústia nos faz humanos – humanos que não conseguem vislumbrar um futuro, tudo é incerto, nossa memória se fragmentou, apesar da oralidade fluir; porém, só a partir de uma leitura singular... Só o sonho ainda pode nos transportar para a realização de nossos desejos – desejos de anjos, desejos de humanos, mas nunca esquecer que a angústia vem de nossos desejos mais profundos e desconhecidos.

O filme de Wim Wenders tem profunda reflexão sobre a subjetividade, sobre a humanidade, sobre a contemporaneidade, sobre o futuro e principalmente sobre as paixões humanas que, por último, constroem as primeiras. É muito para minha pobre associação livre do momento. Nada termina aqui. O filme ainda possui fantástica fotografia da dupla de velhinhos: Henri Aleka e Louis Cochet, além de uma gótica e ótima trilha sonora composta por Jürgen Knieper.

Um poema de Reiner Maria Rilke:


O Anjo


Com um mover da fronte ele descarta

tudo o que obriga, tudo o que corta,

pois em seu coração, quando ela o adentra,

a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas Ihe aparece

e cada qual demanda: vem, conhece.

Não dês às suas mãos ligeiras nem

um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,

cheio de ira, e com a mão mais dura,

como se fosses sua criatura,

te arranca do teu molde com desprezo.

domingo, 15 de novembro de 2009

ESTUDO PRELIMINAR DO CASO DORA – NOTAS SOBRE O FEMININO


Por: Luciana V. K. Mai

O presente trabalho é um estudo (parcial) do Caso Dora, de Freud. Objetiva levantar questões e discorrer sobre algum conceito que nos salte aos olhos. Detivemo-nos apenas na primeira parte do texto, antes de alcançar a descrição dos sonhos de Dora. Na introdução do Quadro Clínico, encontramos as descrições e conjecturas de Freud sobre Dora, sua família e os sintomas histéricos que a fizeram chegar até o seu consultório. Freud nos oferece uma espécie de biografia de Dora e das circunstâncias de sua atual condição, bem como, das circunstâncias familiares. Assim, nos inteiramos da vida e da história da paciente.


É notório dizer que no Caso Dora se faz presente os conceitos fundamentais da psicanálise, como o Recalque, as Pulsões, o Inconsciente, a Repetição, a Transferência e a Teoria dos Sonhos[1]. Todos os conceitos permeiam o Caso, de forma que podemos, inclusive, pensar densamente, a Sexualidade (Teoria da Sexualidade), o Complexo de Édipo, o Complexo de Castração e assim, discorrer sobre a estrutura histérica e a “complacência somática”, associando conceitos para culminar na histeria propriamente, com singulares características.


Observa-se, no Caso Dora, o que se poderia chamar de um malogro de Freud e, que Lacan vai discorrer inúmeras vezes em seus seminários. Aquilo que escapou a Freud seja por “preconceito de época” ou por não ter conseguido sustentar a análise de Dora por mais tempo, pois que esta o abandona após três meses de análise, é analisado por Lacan – aquilo que a estrutura histérica traz em seu discurso – o que sou? No caso, “o que é ser uma mulher?” O Caso nos remete a discutir a questão da feminilidade, tema que podemos encontrar em dois textos de Freud – um de 1931 e o outro, de 1932. Mas, para além deles, Lacan foi quem melhor elucidou ou problematizou a questão do feminino, pois para ele, “não existe um significante que diga o que é ser uma mulher”. A questão de sustentação do discurso histérico parece ser o ‘colocar-se’ (identificar-se) com a posição do Outro, para responder a demanda do que é ser (homem/mulher) de forma a assim se sustentar. Qual é o desejo da histérica? Ora, saber o que uma mulher deseja.


O que nos faz querer saber de Dora? Pensemos na fantasia e no desejo desta adolescente. Sim, uma adolescente envolvida numa trama sexual – um emaranhado de relações cuja base situa-se num quarteto amoroso. Não seria de estranhar o quão absurda é a sua história – o pai e a Srª K; Dora e o Sr K. O pai barganha com o Sr K para, em troca da filha, ter a esposa deste. O caso é implícito, feito de “inocentes intenções”, diga-se de passagem. Ambos movidos por seus desejos, não é mesmo?! Mas pensemos particularmente no desejo de Dora[2].


Primeiramente vamos aludir de que a adolescência não é uma estrutura, mas tem papel de “revalidação” dos processos infantis, ou seja, a sexualidade infantil terá um novo ideal e o sujeito uma nova posição discursiva. Para tanto citamos Freud:


Um estudo aprofundado das manifestações sexuais da infância provavelmente nos revelaria os traços essenciais da pulsão sexual, desvendaria sua evolução e nos permitiria ver como se compõe a partir de diversas fontes. (FREUD, 1905 – Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – Cap. II v. VII – Edição Eletrônica das obras Completas de Freud).

Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanças que levam a vida sexual infantil a sua configuração normal definitiva. Até esse momento, a pulsão sexual era predominantemente auto-erótica; agora, encontra o objeto sexual. (FREUD, 1905 – Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – Cap. III v. VII – Edição Eletrônica das obras Completas de Freud).

A afeição infantil pelos pais é sem dúvida o mais importante, embora não o único, dos vestígios que, reavivados na puberdade, apontam o caminho para a escolha do objeto. Outros rudimentos com essa mesma origem permitem ao homem, sempre apoiado em sua infância, desenvolver mais de uma orientação sexual e criar condições muito diversificadas para sua escolha objetal. (FREUD, 1905 – Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – Cap. III v. VII – Edição Eletrônica das obras Completas de Freud).

Trouxemos estas citações para melhor ilustrar o caminho que percorre a sexualidade e, assim, pensarmos que Dora, achava-se em plena crise subjetivante da adolescência. Freud não estava tratando de uma mulher histérica, mas de uma adolescente (ainda assim histérica) que lidava com o seu desejo – desejo que se escrevia gradativamente como um desejo de mulher. O grande impasse na história desta paciente era identificar o seu desejo que, por momentos, pensamos estar enamorada do Sr. K. – assim insistiu Freud. Dora, na verdade, estava sim enamorada da Srª K. – e por identificação toma o Sr. K. como objeto do seu afeto, produzindo recorrentes manifestações somáticas e psíquicas – um interessante revés na interpretação: estar no lugar do masculino para responder sobre o feminino. Mas como se tornar uma mulher sem ser como um homem? No texto “A Feminilidade” de 1932[3], Freud procurou responder sobre o feminino, mas logo avisou “(...) A Psicanálise não tenta descrever o que é a mulher – seria uma tarefa difícil de cumprir – mas se empenha em descobrir como a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual.”.


Quando Freud nos fala da bissexualidade, não se trata de dois sexos ao mesmo tempo, mas de dois gozos distintos, duas maneiras de buscar a satisfação. Pois, sem um objeto que de conta da falta e considerando-se, que o desejo é insatisfatório, o que se busca é o que falta; então, para satisfazer-se parcialmente, qualquer objeto que carregue as marcas do objeto perdido, pode ocupar lugares que dêem sentido ao vazio. Assim, podemos responder a questão de como Dora desejou a Srª K. identificando-se com o Sr. K. Ela coloca-se numa posição masculina, pois quem deseja é um sujeito que não tem sexo, sendo que é um efeito de significantes.


(...) A realização da posição sexual no ser humano está ligada, nos diz Freud – e nos diz a experiência – à prova da travessia de uma relação fundamentalmente simbolizada, a do Édipo, que comporta uma posição que aliena o sujeito, isto é, o faz desejar o objeto de um outro, e possuí-lo por procuração de um outro. (...) É na medida em que a função do homem e da mulher é simbolizada, é na medida em que ela é literalmente arrancada ao domínio do imaginário para ser situada no domínio do simbólico, que se realiza toda posição sexual normal, consumada. É pela simbolização a que é submetida, como uma exigência essencial, a realização genital – que o homem se viriliza, que a mulher aceita verdadeiramente sua função feminina. (LACAN – Seminário 3 – p. 203)

Lacan nos diz ainda mais, “é na ordem do imaginário que se situa a relação de identificação ($<>a).” Assim, entendemos que, no decurso do infantil é com uma imagem de sujeito que a família se relaciona, antecipando esse sujeito. Estamos no campo dos ideais narcísicos, consequentemente, no campo dos referenciais significantes que operam através de um circuito pulsional e que vão amarrando o desejo a partir deste Outro. A imagem contém uma significação fálica composta de elementos simbólicos. Então, o que o Outro quer de mim? Aderir a uma imagem que é formadora do eu, tomar para si a imagem que é do Outro – uma morte simbólica. O que Dora fez foi, senão, identificar-se com um homem para responder sobre a sua feminilidade – e ainda identificar-se com o Sr. K como que identificar-se com o pai que, por hora, relacionava-se com a Srª K, ou seja, “a fantasia é uma identificação do sujeito com o objeto”. Pois que, a questão histérica gira em torno do pai. Embora o objeto cause desejo, quem o mantém é a fantasia e como tal só busca desejar.


Aventuramo-nos a falar do Caso Dora, tomando os estudos sobre a sexualidade e a feminilidade, um caminho longo e denso. A satisfação foi parcial, pois necessitamos de mais leituras e estudos; sentimos dificuldade, mas avançamos gradativamente. Adentramos por este viés, porque a questão do feminino e do desejo de Dora pela Srª K é o que mais marca o Caso. Então, o desafio foi posto e queremos saber mais... Queremos saber do desejo feminino. Queremos saber o que quer uma mulher...

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BIBLIOGRAFIA:

FREUD, Sigmund. Conferência XXXIII – A Feminilidade – v. XXII – 1932. Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. A Sexualidade Feminina – 1931 v. XXI. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Algumas Observações Gerais Sobre Ataques Histéricos – 1908 v. IX. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica Entre os Sexos –1925 v. XIX. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. O Inconsciente – 1915 v. XIV. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. As Pulsões e suas Vicissitudes (Os Destinos das Pulsões) – 1915 v. XIV. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Além do Princípio de Prazer – 1920 v. XVIII. In:____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. A Interpretação dos Sonhos – 1900 v. V, Cap. VII. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução – 1914 v. XIV. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. O Recalque – 1915 v. XIV. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – 1905 Cap. II v. VII. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade – 1905 Cap. III v. VII. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]
____. A Dissolução do Complexo de Édipo – 1924 v. XIX. In: ____ Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. RJ: Imago [200?]

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 1: Escritos Técnicos de Freud (1953-1954) – 2º ed. – RJ: Jorge Zahar Ed. 1998.
____. O Seminário, Livro 3: As Psicoses (1955-1956) – 2º ed. – RJ: Jorge Zahar Ed. 1998.
____. O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto (1956-1957) – 2º ed. – RJ: Jorge Zahar Ed. 1998.
____. O Seminário, Livro 5: As Formações do Inconsciente (1957-1958) – 2º ed. – RJ: Jorge Zahar Ed. 1998.


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NOTAS:


[1] Na Interpretação do Sonho de Freud encontramos todas as bases fundamentais para falarmos de Recalque, Fantasia e Desejo. Alias, vale lembrar que o estudo do Caso Dora deveria chamar-se originalmente “Sonhos e Histeria”, pois seria este uma extensão dos estudos sobre os Sonhos. Diz-nos Freud: “(...) De onde se origina o desejo que se realiza nos sonhos? (...) Desejos são imortais como os titãs – desejos mantidos sob recalcamento são eles próprios de origem infantil, são moções inconscientes.” (FREUD – A Interpretação do Sonho 1900 – Cap. C. – Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud).


[2] Lacan fez a seguinte questão: “Ele (Freud) se pergunta o que Dora Deseja, antes de se perguntar quem deseja em Dora.” (LACAN, Seminário 3 – p. 200.)

[3] FREUD – Conferência XXXIII – A Feminilidade – Vol. XXII – 1932. Edição Eletrônica das Obras Completas de Freud.

Letargia


Por: Gonzalo Penalvo


Como quizera me desfazer, partir-me num infinito de pedaços, dissolver meu Eu no todo, anulando toda tensão em mim contida. Sem mais conflito, medo ou dor, minha essência dissipada na escuridão. Em meus pensamentos ressoa uma canção de morte, melodia inerte proibida para os ouvidos dos vivos. Morte, em suas mãos quero fazer meu leito, repouso absoluto, descanso eterno. Em ti encontrarei liberdade e salvação. Resolve, por fim, a incompletude de minha existência. Faz-me pleno em sua negra profundidade, absorva-me em seu vazio de perfeição. Meu ser a busca numa ansiosa passividade, letargia. Letargia me consome. Letargia, me consuma!

Desejo e Surrealidade

Deusa Isís

Um efêmero detalhe pode (e vai) trazer a mais viva lembrança da memória (para a memória). Com os desejos mais profundos também funciona assim, um signo – basta um signo para que voltemos ao tempo – um lugar, é bem verdade, atemporal.

Quando as Psyques flutuavam, bastava que elas sugassem uma pequena gota de sangue para voltarem a relembrar. Nossos desejos são iguais, basta que molhem os lábios, em alguma reminiscência, para que revivam, renasçam do escuro que tentamos deixá-los. Desejos não podem e nunca serão estancados, perpetuam até o último momento de nossas vidas. “Desejos são imortais como os deuses”.

É surreal?! (eu acho) Porém, não é um código, não é mensagem cifrada é, no mínimo, uma coisa louca, profunda e bem direta – na veia.
***

"Murmuras hen?
E é tudo tão simples, um azul seboso, um passar sobre, alguns tombos.
O que?
A vida, azul seboso. Tu crias um caminho de dores para ti, o coração e o UMM são ilusões, descansa.
Não posso, as coisas pulsam, tudo pulsa, há sons o tempo inteiro, tu não ouves?
Mas, são os sons da cor, teu som Srª K.
Como é o meu som?
Quando caminhas pela casa me dizendo mentiras, te fazendo leve, é estridente, uniforme, o apito do homem do trem antes do trem sair, tu sabes... aos poucos te incorporas ao existir do trem e começas a ser o som nevoento das rodas, expulsas uns chiados.
Senhora K, teu som do UMM, me assusta, sabes?
Depois quando te deitas e me tocas, uns graves curtos vão se fazendo, olhe, se os figos emitissem sons quando os abrimos seria esse teu som nessa hora quando me tocas
E depois?
Quando os cães raspam uma terra úmida
Sim, afundam o focinho também, aspiram
Expectativa, alguma coisa viva por ali
Alguns só raspam a terra para espojarem-se depois,
De costas
Não tu, Srª. K., é como se o vento, a terra, a dura cartilagem, em saliva e cheiro
me tocassem, tubas, flautas
Deves ouvir... nem sonatas, nem trios, nem quartetos de cordas, só vida, palpitação. Se pudesses esquecer, Srª. K., teias, torções, sentir a minha mão sem o teu vivo-morte, te acaricio apenas, olha, é a mão de uma mulher, vê que simples, dedos, mornura, te acaricio apenas, e a tua pele teu corpo vai sentir a minha mão como se a água te circundasse, mas não sou eu experienciada em ti, me vês como nunca me pude ver, eu não sou essa que vivencias em ti, és Srª. K. apenas, Srª. K. que pode ser feliz só sendo assim tocada, não é bom? Fecha os olhos procura imaginar o vazio, o azul seboso, pequenos tombos, eu uma mulher te tocando porque te amo e porque o corpo foi feito para ser tocado, toca-me também sem essa crispação, é linda a carne, não mete o Outro nisso, não me olhes assim, o Outro ninguém sabe, Srª. K., Ele não te vê, nem te ouve, nunca sabe de ti, sou eu, sopro e ternura, sim claro que também avidez e sombra muitas vezes, mas é apenas uma mulher que te toca, e metemos vida, é isso Senhora K., é apenas isso, agora vamos, maldita vem viver, vem ser feliz. Vamos, tira essa roupa poeirenta de passado, pega, beija, abre a boca e grita pro invisível, pra luz, pro nojo e fornicas o mundo e aspira as expectativas que nem um cão."


*É meio uma mistura de coisas – Temperos da Vida – Misturei as coisas pra dá certo ou errado o que desejo, então ficou assim...

(Pulsão de Morte)(?)


Por: Gonzalo Penalvo


“Noite passada encontrei-me nos braços de uma implacável dama. Em seu abraço repousei perdendo a realidade. Ela insiste em cravar-me suas presas noite após noite. Extrai-me a vida - e não para servir-se dela – despreza-a e o faz por deleite. Dormi em seu colo, envolto por hipnótico manto, que tal qual negro vórtice absorve minha essência subjugada.

“Siren” obscura, Senhora da noite, entoará novamente sua doce melodia, passaporte para a morada de Morpheus? Magnífica mansão etérea onde anseio refugiar-me. Mundo de ilimitados mundos, de infinitas portas. A cada adormecer vago errante por seus corredores onde o amado e o odiado se unem e pelos quais Desejo perscrutar entre a beleza sublime e a loucura.

Cara Dama, empresta tuas asas à minha percepção, para que nela encontre a chave da noite. Será que adentrando a senda do desconhecido verei o mundo além das aparências? Apenas fantasio o que lá encontraria: angústia? verdade? Êxtase e desespero poderiam surgir entrelaçados, não me admiraria, pois não é esse o caminho do impossível?

Diante dela ergue-se frágil, torpe e insignificante toda construção humana, cujo destino está assegurado na poeira do universo. Serenamente vê isso tudo, apenas observa a transitoriedade das coisas, sorrindo orgulhosamente por estar além destas, por transcendê-las.

Através da morte, tens o controle da vida. Comanda pela passividade. De ti emana uma aura pulsante, constante, letárgica. Em ti aposto minha esperança, oh pulsão de morte!
Dominadora do universo, guia da dispersão, tens assegurada a vitória final.”

sábado, 14 de novembro de 2009

O que é Escrever? Que Implicações tem este Gesto?

Por: Lu May


É estranho chamar de delicado aquilo que nos angustia. A arte, seja ela qual for, é de alguma forma, uma obra de angústia. É um processo criativo ligado ao inconsciente.


Existe um desejo que está presente em toda produção, está inclusive em nossa fala, em todos os versos possíveis. Então, escrever ou fazer arte é falar em nome do desejo movido pelas pulsões; é, sem dúvida, falar de vida e morte (princípio de prazer versus princípio de realidade).


A produção artística tem uma força (drag) que faz a simbolização e traz para a realidade a subjetividade do sujeito. É uma força voraz de significantes – uma vez instituída a linguagem, o sujeito não pára mais. A rede de associações significantes vai circulando infinitamente envolta do buraco faltoso. E não sabemos para onde isso vai nos levar.


Existe algo (que podemos dizer – um algo a mais nas escrituras)... Figuras que o sujeito oculta e revela simultaneamente – os mitos da estrutura do sujeito. A escritura não se faz por si só. Ao tomarmos a obra de algum autor, logo casamos com sua vida. Impossível tomá-la em separado.


Todos nós fazemos ficção, todos nós marcamos a vida com escrituras... A vida de qualquer sujeito daria um livro – escrever é fazer mitos e é representar esses mitos. Escrever é uma tragédia! Quem tem vivência, tem material e esse material tem um sentido. A fala é uma escritura (a escritura é uma fala) com sentido representativo que tenta dar conta do real...

O Louco


Por: Luciana Valquíria Kremin Mai


No Tarô de Marselha, a carta “O Louco”, é marcada pela ausência de numeração, para significar que está à margem de qualquer ordem ou sistema. As alegorias da figura mostram um homem de costas, caminhando com um bastão na mão e segurando no ombro um pau em cuja extremidade há uma sacola – simbologia comum para ilustrar um viajante, retirante – alguém que parte para o mundo desprovido de posses, ou ainda, sem lugar para ficar no mundo. O traje do Louco é de várias cores que se organizam de forma incoerente. Lembra um bufão, figura que fazia a caricatura da corte, de reis e senhores. O Louco lembra um homem solitário e errante que atravessa os campos, sendo agredido por um animal, pois ele não se preocupa com os perigos do caminho porque se sabe invulnerável e imortal, por isso mesmo exposto a todo tipo de faltas.

A representação mística desta carta fala de incoerências, impulsividade e ausência de racionalidade, perda do livre-arbítrio, passividade, inconsciência, perigo de se isolar da sociedade, entre outros auspícios, digamos, negativos, sob um ponto de vista do senso comum. Mas, três características fecham os desígnios do Louco: instinto ativo; irracionalidade e caos.

Na Renascença viu-se surgir uma nova e estranha figura ao longo dos canais flamengos e dos rios da Renânia: a Nau dos Loucos, como ilustrou Hyeronimus Boch. Já por aquela época, os loucos tinham uma existência errante. Escorraçados das grandes cidades, expulsos de suas fortificações e condenados à peregrinação, foi-se firmando o costume de confiá-los, também, aos barqueiros. Desta prática surgia a certeza de que os insanos iriam para longe o quê – nas palavras de Foucault – “os tornava prisioneiros de sua própria partida”. É o mesmo autor quem assinala o caráter simbó1ico da atitude: "A navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela, cada um é confiado ao seu próprio destino; todo embarque é, potencialmente, o último. É para outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca"[1].

A loucura, a partir do século XVI, passa a ser vista como o oposto da razão – loucura como sinônimo de irracionalidade. O Louco ultrapassou a loucura, no sentido estrito de uma preocupação ligada ao imaginário da renascença, para tornar-se um problema sócio-político-cultural e econômico. Ele passou a ser um transgressor da norma e, consequentemente, uma fonte de problemas, ligado ao coletivo/social, que presa pela moral e os bons costumes. Portanto, os loucos eram todos aqueles que, de alguma forma, transgrediam as leis da sociedade civil – vagabundos, prostitutas, agitadores, pobres, mendigos, criminosos – tratados de maneira uniforme. No mais, eram sempre aqueles que estavam a margem de um padrão considerado normal.

A partir do século XVII, a loucura perpassa por uma classificação de ordem médica, uma espécie de higienização dos costumes. O louco começa a dialogar com o médico, mas a dinâmica da exclusão ainda encontra-se presente, pois é sempre uma classificação por conta dos opostos normal/anormal, razão/desrazão. Novas práticas suscitam uma relação de cura – a loucura é uma doença que pode ser tratada, o louco é um doente que deve ser curado para poder integrar-se e cumprir seu dever de individuo, numa sociedade trabalhadora e produtora de normas.

A exclusão do diferente permeia os discursos no modo como a loucura é vista nas diferentes épocas, seja o louco um personagem da caridade religiosa ou do tipo ocioso e perturbador da ordem ou ainda, um indivíduo doente que perturba a sociedade e é incapaz de integrar-se a ela e produzir, além de representar um perigo social. É a partir desta nova sensibilidade em relação à loucura que nasce a idéia de reclusão – as casas de internação ligadas à ciência da medicina, que no século XVIII desponta e então classifica, emergindo assim, a relação da loucura com a medicina.

Iniciamos com uma pequena ilustração histórica da loucura para, agora, nos questionarmos: O que é normal? O que é patológico? A partir de dois materiais ilustrativos, um de origem literária e outro do cinema – O Alienista, de Machado de Assis e o filme Estamira, de Marcos Prado – produziremos algumas considerações. Pensemos sobre as histórias dos personagens, até onde eles nos levam e o que querem? O que é a psicopatologia? E o que é a Psicopatologia Fundamental?

De acordo com o texto de Manoel Tosta Berlinck, “O que é Psicopatologia Fundamental”, podemos nos referir, ao sofrimento do corpo e ao sofrimento da alma. “(...) Phatos não nasce no corpo, pois vem de longe e de fora. Mas passa necessariamente pelo corpo, ele brota no corpo e rege as ações humanas.” Phatos é relativo à paixão, passividade, sofrimento, passível de tirar proveito para que se transforme em experiência – um discurso sobre o sofrimento, tornando-se patológico como entendimento terapêutico. A Psicopatologia Fundamental é uma posição – uma posição de escuta do Phatos, lugar de transformação do Discursus em experiência terapêutica, ou seja, ouvir a ficção e dar conta da arqueologia do sujeito. Enquanto isso podemos entender a Psicopatologia Geral tão somente como uma classificação das morbidades de um indivíduo, com um discurso voltado às doenças, um logos que prima pelo sentido pragmático e eficaz, na luta para manter uma normalidade hegemônica e herdeira do positivismo, mas nem por isso as duas posições psicopatológicas deixem de se visitarem e relativamente se respeitarem.

Em Estamira, vemos a história de uma senhora que trabalha em um aterro sanitário no Rio de Janeiro. Ela tem 63 anos e foi diagnosticada como esquizofrênica. Estamira nos traz a sua verdade, a sua loucura, o seu Phatos. Logo, nos amparamos não menos do que em Machado de Assis e o seu Alienista. São dois discursos permeados por aquilo que nos assusta, por aquilo que Michel Foucault melhor tematizou – a arqueologia da loucura.

Num primeiro momento queremos dissecar duas palavras. Aliénus, que do latim significa pertencente a outrem, de outrem, em conexão com o grego torna-se allótrios que significa afastar, tornar estrangeiro. De acordo com o Dicionário Houaiss, ALIENADO é que ou aquele que sofre de alienação mental; louco, maluco, doido. E ainda, que ou aquele que sofre de alienação, que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age. E por último, que ou aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam; alheado. Logo, ALIENISTA é o médico especialista em doenças mentais e que diz respeito ao tratamento dos alienados mentais.

A outra palavra é ESTAMIRA. Bem, Estamira é o nome da personagem do filme, não tem uma etimologia, pois que é única: “Eu sou Estamira”. Mas queremos, apenas a título de associação pessoal, dizer que o nome Estamira nos remete à palavra ESTAMINA, que no dicionário Houaiss, significa “capacidade vital de resistência, especialmente, a manutenção por longo tempo de uma atividade ou esforço”. Estamina é uma substância produzida pelo organismo capaz de gerar resistência física. Eis, então o que nos faz, realmente, pensar em Estamira como alguém capaz de gerar capacidade vital, frente a tantas adversidades da vida. Vemos Estamira como uma sobrevivente...

Vamos procurar algumas peculiaridades nas personagens Estamira e Alienista (citarei sempre a personagem de Machado de Assis como Alienista; refutamos o nome de Simão Bacamarte). Ambos nos oferecem um estatuto da verdade.

Em Estamira, vemos o saber religioso – o delírio místico de falar/manter contato com um ser que possui um controle remoto sobre todos os seres e que a escolheu, por assim dizer, como a transmissora da verdade. Em suas palavras: “A minha missão, além de ser Estamira, é mostrar a verdade, capturar a mentira e tacar na cara”. Estamira é o testemunho de uma condição e da condição de outros homens.

No Alienista, também encontramos o estatuto da verdade – uma condição de saber, por hora, um saber da ciência que o escolheu, ou que ele escolheu – um suposto saber, governado pela razão, mas que, no entanto, passará de Alienista para alienado. Vejamos suas palavras: “A saúde da alma, é a ocupação mais digna do médico”. Segue o narrador: “A ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas”. O nosso médico, mergulha, inteiramente, no estudo e na prática da medicina.

É digno de nota que, a ficção do Alienista, é uma crítica à ciência da época de Machado de Assis e, claro, permanece contemporânea. No seu conto, encontramos todas as referências ao movimento antipsiquiátrico, a classificação das patologias e a higienização dos costumes sociais, o que nos faz pensar numa associação ao texto lacaniano A Ciência e a Verdade. No entanto, por mais que nos sentimos tentados, o rumo dessa “prosa”, deveras, será outro.

Voltemos à Estamira. O mais provável, é imaginar Estamira, dentro do conto machadiano, sendo avaliada pelo Alienista e encaminhada imediatamente à “casa verde”. Mas, o Alienista transforma-se numa Estamira “moderada”. E, porque o médico passa a ser o Louco? Excessos! Tanto um quanto o outro, transbordam e passam a interagir com discursos delirantes, que sustentam verdades – a verdade de cada um.

O excesso é um critério para a maneira de ser, portanto, será sempre em relação a uma ordem de normalidade que, digamos, regula a diversidade. A palavra norma está na origem do termo normal, que significa “esquadro”.

Aparentemente, se quiséssemos classificar Estamira numa nosografia psiquiátrica e, ainda, o próprio Alienista, que realmente o fez a si próprio, quando se recolheu à “casa verde”, poderíamos ler os seus sintomas e procurá-los nos manuais de transtornos mentais e classificar, ambos, como esquizofrênicos ou algo do gênero – uma estrutura psicótica – pois, a relação deles com os outros e com o mundo que os rodeia, é delirante. Mas, essa leitura, nos coloca numa posição de observador enraizado numa cultura que reconhece a realidade e o valor da doença como relação de normal/anormal, saúde/doença. Mas, também, poderíamos embarcar na Nau de Estamira e do Alienista e, juntos, contradizermos o mundo, e dizê-lo delirante, pois só nós sabemos a verdade do indizível – e, nesse “trocadilho”, solicitarmos um controle remoto para parar tudo, pois, segundo Estamira, “o trocadilho faz as pessoas viverem na ilusão, e acreditar em coisas que não existem”. É aqui que damos ouvidos à Psicanálise e à Psicopatologia Fundamental, para que possamos ouvir o testemunho de nossa protagonista Estamira, diante das violências que sofreu, mas, sobretudo, da vitalidade e poder de criação, para suportá-las. Eis o poder da palavra.

Na renascença, os loucos foram levados por barqueiros a terras distantes, para bem longe da sociedade. Para Estamira, o aterro sanitário – a sua “terra distante” – transformou-se num refúgio, longe da cidade, mas muito próximo de seus resíduos...

A legenda que aparece escrita no quadro de Boch diz, Meester snyt die Keye ras, myne name is lubbert das, que significa Mestre, extrai-me a pedra, meu nome é Lubber Das. Lubber Das era um personagem satirico da literatura holandesa que representava a estupidez.



Algumas questões que nos nortearam e que podem, sempre, suscitar produções e interlocuções:

O que é a loucura?
O que é o normal?
O que é a psicopatologia?
O que é a psicopatologia fundamental?
Quem é estamira?
Quem é o alienista?
Quem somos nós?

[1] Michel Foucault – História da Loucura. SP: Ed. Perpectiva; 1972. (p. 10 – 12)

A Depressão na Literatura

(Anjo da Melancolia I - Albrecht Dürer - 1471-1528)

Por: Gonzalo Penalvo Rohleder


O termo depressão utilizado na atualidade remete-nos à antiga “patologia dos humores tristes”, citada desde a Grécia como “Melancolia”. Nessa época filosofia e tragédia andavam próximas. Para uma melhor compreensão de suas emoções, os gregos deslocaram-na para seus heróis e deuses. Homero descreve na Ilíada os sofrimentos do herói Belerofonte, condenado a vagar na solidão e desespero.

A melancolia fez-se presente desde os escritos filosóficos de Aristóteles aos textos de Hipócrates. “A melancolia, sintetizou o “pai da medicina”, é a perda do amor pela vida, uma situação na qual a pessoa aspira à morte como se fosse uma bênção.” (Scliar, 2003, p.70)

Enquanto Hipócrates a considerava doença (bílis negra), Aristóteles a relacionou entre a genialidade e a loucura. Associou a melancolia à criatividade: o homem triste é também um homem profundo. O melancólico seria, para ele, excepcional por natureza, não por doença.

São concepções contrárias que marcaram o pensamento ocidental e fundamentam o antagonismo presente ainda nos dias de hoje.

Mesmo na bíblia, podemos encontrar referências à melancolia. Temos “As aflições e paciência de Jó”, passagem bíblica que relata as angústias de um homem fiel a Deus ante todo tipo de provação. Sentado sete dias e sete noites, com amigos que vieram em seu auxílio, Jó passou a falar de suas tristezas:

Pereça o dia em que nasci

e a noite em que se disse:

Foi concebido um homem!

...

Por que não morri em minha mãe?
Por que se concebe luz ao miserável

e vida aos amargurados de ânimo,

que esperam a morte, e ela não vem?
Pois agora eu estaria deitado e quieto;
Teria dormido e estaria em repouso.

(onde se percebe uma transposição da máxima suicida que declara “Queria nunca ter nascido”.)

A passagem acima nos remete ainda à idéia de pulsão de morte. Vemos um sujeito que em seu sofrimento busca radicalmente na morte o alívio, a tranqüilidade e a paz. De certa forma, quisera poder dissolver-se em seu objeto primário de satisfação, a mãe.
Jó caminha pela negação de sua existência, maldiz o nascimento, lamenta e deseja a morte. “Deus, tu me lançaste na lama, e me tornei semelhante ao pó e à cinza”.

Na Renascença, seguindo os ideais de Aristóteles, a arte e a intelectualidade mostraram-se permeadas pela melancolia. Esta, sendo apreciada por seu teor erudito, fez-se muito presente no barroco.

Através do romantismo podemos fazer uma breve associação entre a depressão (melancolia) e sua influência na literatura. O movimento surgiu nas últimas décadas do século XVIII, na Europa. Manifestou oposição ao racionalismo vigente, com uma visão de mundo mais centrada no indivíduo e na subjetividade. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo (fuga da realidade).

Uma temática envolvendo pessimismo e morte também pode ser encontrada em autores como Byron, Goethe, Álvares de Azevedo, entre outros.

Para Manoel Berlinck e Pierre Fédida, no romantismo não é feito o luto da perda. “É assim na alma dos românticos, cultores do vazio da depressão por meio de atividades que visam sempre o encontro de um objeto de satisfação. Perambulam pelas cidades, bares, lugares habitados por outros, que expressam uma incessante agitação, porém, animados por um persistente vazio.”

O paraibano Augusto dos Anjos pode ser um exemplo mais próximo. Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa").

O romancista sempre revela algo de si nos personagens, e às vezes autor e obra se confundem. Foi o caso, por exemplo, de Virgínia Woolf, escritora britânica, autora de "Orlando" e "Ondas", que se suicidou por afogamento após uma crise de depressão, ou de Sylvia Plath, poeta norte-americana, que se matou intoxicada com o gás de cozinha. Na pintura, Van Gogh cortou a própria orelha e se matou com um tiro.

Logicamente, há autores que mantiveram certa distância entre a realidade e a ficção. É o caso, por exemplo, de Graciliano Ramos, autor de "Angústia", "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere", apenas para citar algumas.
Na filosofia, percebemos a herança pessimista legada a Nietzsche por Schopenhauer, o qual afirma-se ter sofrido de “depressão nervosa”. Para o segundo, o prazer é resumido como breve instante de alívio da dor. Todo prazer seria ponto de partida de novas aspirações, sempre frustradas e sempre procurando realização. Uma cadeia regida pelo desejo onde “viver é sofrer”.

Em 1994, Elizabeth Wurtzel lançou sua autobiografia “Geração Prozac: Jovem e deprimida na América”. No livro ela conta como era sua vida quando foi diagnosticada com depressão nervosa, de como era ao que se tornou devido ao uso de medicamentos, no caso, o Prozac.

Na mesma época, Susanna Kaysen lançava sua também autobiografia, “Moça, interrompida”. No livro ela conta uma fase de sua vida em que tentou suicídio e foi internada em uma clínica psiquiátrica. Seu diagnóstico: Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder).

Foi Adolf Meyer que favoreceu a substituição do termo melancolia por depressão, já que o primeiro fazia apelo a um estado do romantismo muito presente na literatura e inadequado a ciência psiquiátrica, que estava em pleno desenvolvimento.

Esses são apenas alguns exemplos, dentre inúmeros, da ligação entre a literatura e as doenças comportamentais como a depressão.

“Ninguém atinge a aurora sem passar pela noite”. - K. Gibran -

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

LIGAÇÕES PERIGOSAS: Medéia e Creusa X Sra. K e Dora e ainda Freud e Fliess.

(Creusa e os Filhos de Medéia quando da entrega do presente envenenado)

No Caso Clínico de Dora encontramos no texto os nomes Medéia e Creusa, de forma, digamos, estranha, pois, Freud insere esse fragmento mitológico sem dar nenhuma referência, a ponto de supormos um possível erro da edição brasileira (o que é bem provável, embora os indícios sejam outros).

Creusa faz parte da mitologia Grega e aparece na tragédia Medéia (gr. ΜΗΔΕΙΑ), uma das mais conhecidas obras-primas de Eurípides. Na tragédia que conta a história de Medéia e Jasão, os laços de amizade unem Creusa e Medeia numa trama de vingança. Resumidamente: “Creusa (filha de Creonte, rei de Corinto) casou-se com Jasão, depois que este se divorciou de Medéia Medéia fingiu fazer as pazes com Creusa, buscando vingar-se. Mandou que seus filhos entregassem à princesa uma túnica e um diadema impregnados de veneno. Quando Creusa colocou os adornos, sua pele começou a pegar fogo e decompor-se. O rei Creonte, vendo sua filha pedir socorro, tentou tirar-lhe os adornos, mas seu veneno era tão forte que acabou matando os dois. Medéia teve um acesso de loucura e matou também seus próprios filhos, para se vingar de Jasão.” (retirado da Wikipedia).

Agora, se especularmos além, podemos encontrar fatos mais curiosos ainda e, melhor, sobre o Dr. Freud e seu amigo/confidente Fliess. No livro “O Livro de Ouro da Psicanálise” (Manuel da Costa Pinto[org.], Ediouro, 2007) algumas referências:

“Freud, ainda sob o domínio de sua própria transferência sobre Fliess, não pôde superá-la durante o tratamento de Ida [nome verdadeiro de Dora]. Ele confidenciou a Fliess, a propósito de seu texto, que era “o mais sutil que havia escrito”. Este caso clínico seria para Freud uma oportunidade de reencontrar a afeição de Fliess? Seu texto assemelha-se a uma mensagem, em que tentaria persuadir o antigo confidente de que descobrira critérios objetivos, chaves para ler o pensamento do outro. Além disso, Ida era o primeiro nome da mulher de Fliess. Em 1900, Freud estava convencido de que ela, com ciúme da relação entre Sigmund e Wilhelm, fizera tudo para distanciá-los. O ‘Caso Dora’ não seria seu último apelo àquele que o abandonara?

Em seu estudo do caso Dora, Freud se refere à tragédia grega ‘Medéia’, de Eurípides: “Quando Dora [Ida] se hospedava na casa dos K. [os Zellenka], ela compartilhava o quarto de Sra. K. [Peppina]; o marido fora desalojado. Dora tornara-se confidente e conselheira da jovem esposa nas dificuldades de sua vida matrimonial; elas falavam sobre tudo. Medéia gostou que Creusa tivesse cativado as duas crianças. Sra. K. certamente não fez nada para perturbar as relações do pai de seus filhos com a mulher.”

Supomos que a Sra. K. era Medéia que se dedicava com devoção aos filhos do casal e Dora era Creusa. O que Freud estava dizendo com esta referência literária? Em alemão, “tosão de ouro” se diz ‘Goldenes Vliess’ e ‘Vliess’ tem a mesma pronúncia de ‘Fliess’: o elo se impõe ao leitor alemão (...).

Após essa explicação é feita uma relação entre a tragédia grega e Freud-Fliess. “Ida Fliess seria Medéia, feiticeira pela qual Freud nutre, em 1900, ressentimento, já que ela o teria afastado de seu amigo, seu ‘Jasão’.”

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Para saber mais sobre os Gregos:
PORTAL GRECIA ANTIGA – www.greciantiga.org

*Texto/Pesquisa: Mateus Baldissera
*Revisão/Pesquisa: Luciana Mai

domingo, 5 de julho de 2009

Obsessão Norte Americana pela “Personalidade Múltipla”: as querelas do inconsciente

"A extração da Pedra da Loucura - Hieronymus Bosch"
Por: Luciana Mai
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A síndrome da “personalidade múltipla” teve uma ampliação considerável nos Estados Unidos à medida que o DSM III e IV adotava uma nomenclatura da qual desaparecera a nosologia Freud-bleuriana – abandono da teoria da sedução e “descoberta” da teoria da fantasia. Os “estudiosos” estadunidenses lidavam com o conceito de inconsciente como algo dissociado, como se fosse um campo a mais na mente humana.

O fenômeno da “personalidade múltipla” foi definido como um distúrbio da identidade, tal conceito desenvolveu-se no século XIX e desaparece por volta de 1910. No entanto, posteriormente, descrita por Henri F. Ellenberger, essa síndrome deu margem a inúmeros relatos literários. No plano clínico, traduziu-se pela coexistência, num mesmo sujeito, de uma ou mais personalidades separadas umas das outras, e cada uma das quais podia assumir alternadamente o controle das demais.

A partir de 1986, estimou-se em 6.000 o número de pacientes afetados por essa síndrome. Em 1992, considerou-se que uma em cada vinte pessoas sofria desse mesmo distúrbio, a tal ponto que, em todas as cidades norte-americanas, clínicas se especializaram no tratamento da nova epidemia.

A obsessão Norte Americana não para por aqui, os tribunais estadunidenses andavam cheios de casos, assim como os psiquiatras e psicólogos, diga-se de passagem, que, praticamente, todos trabalhavam numa proposta antifreudiana – uma espécie de intifada Norte Americana contra Freud.

Em 1989 com a ajuda do DSM, diagnosticou-se uma mulher com “distúrbio de personalidade múltipla”. Quando foi sexualmente agredida por um homem e levou o caso aos tribunais, o promotor sustentou que a mulher tinha 21 personalidades, nenhuma das quais havia consentido em manter relações sexuais. Os juristas e os psiquiatras puseram-se então a discutir se as diferentes personalidades dessa mulher seriam capazes de depor sob juramento e se cada uma delas tinha ou não suas próprias aventuras sexuais. Em 1990, o homem foi julgado culpado, pois três das personalidades da vítima depuseram contra ele. Após uma contra-perícia, entre tanto, realizou-se um novo julgamento. Alguns psiquiatras afirmaram, na verdade, que a mulher tinha 46 personalidades, e não 21. Assim, era preciso saber se essas novas personalidades também prestariam depoimento no processo...

Casos como esse tornaram-se freqüentes nos EUA. Eles mostram com clareza a que fanatismo pode levar a idéia de que todo ato sexual é em si um pecado, um estupro, um trauma, e de que todo inconsciente é uma instancia dissociada, sem dar margem alguma a subjetividade.

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