Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


sábado, 21 de março de 2009

Abaixando Troços Importantes

Download do Livro: Vigiar e Punir – Michel Foucault:

É só correr pro Abraço – Abaixa pô:
http://www.4shared.com/account/file/16187587/c80dca4c/Michel_Foucault_-_Vigiar_e_Punir.html

http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/mar0/13.pdf
Texto da Revista de Psicopatologia Fundamental.
Michel Foucault - Problematização do sujeito.
por:Chaim Samuel Katz

domingo, 8 de março de 2009

Não Conjecturarás em Vão


De repente aparece um louva-a-deus gigante e, logo, você acha que ele quer te comer – você fica numa angústia só. Daí a coisa fala contigo: “Oi, você sabe onde fica a loja da Daspu, qual a rua?” Ó puxa, que alívio! No mínimo você fica meio atordoado, confuso – um louva-adeus consumindo grife, bem, esse mundo tá perdido. Logo, a coisa deixou de ser coisa – ela siderou. No momento que a coisa começa a falar ela deixa de ser um monstro e passa a ser uma parte conhecida, ou reconhecida.

*

O eu ideal é um andrajo que você mesmo criou, assim como na história da roupa do rei.

*

O objeto mais valorizado na vida do camarada é a merda. Tá sempre reclamando e dizendo que a vida é uma merda, mas ele tá tão ligado à merda que toda vez que reclama, na verdade, proclama e valoriza a merda – já não pode mais viver sem ela.

*

Sonhar com duas garrafas de leite não significa, necessariamente, as tetas da mamãe.

*

O único que é feliz é o falo, basta endurecer e trazer a felicidade e, o melhor, brinca-se com ele e sem ele, esteja presente ou ausente.

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Essa é velha, mas vale a pena, denominei de Pacto Perverso:“Os alunos fazem de conta que estudam, os professores fazem de conta que dão aulas e a universidade faz de conta que forma”.

*

Freud diz que o amor é um engodo. Na verdade, o amor é um engordo – depois que casa engorda.

*

Psicanalistas são como prostitutas – viram, sempre, o objeto de algum sujeito.

sábado, 7 de março de 2009

O Alienista


Para quem quiser saber do Alienista, eis um pequeno resumo da obra e suas relações, no final do texto encontram-se os links que dão acesso ao livro digitalizado. Boa leitura! E não se esqueçam das palavras de Maomé:


“ Veneraveis são os dóidos, pois Alá lhes tirou o juízo para que não pecassem.”
- Machado de Assis -


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Machado de Assis

O Alienista é uma célebre obra literária do escritor brasileiro Machado de Assis. Para alguns especialistas, trata-se de uma novela, outros o consideram um conto. A maioria dos críticos porém, considera a obra um conto mais longo, por causa da sua estrutura narrativa.


Publicado em 1882, quando aparece incorporado ao volume Papéis Avulsos, havia sido publicado previamente em A Estação (Rio de Janeiro), de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. É a base para o tipo de conto brasileiro que viria a seguir, assim como peça fundamental do Realismo. Para muitos, é considerado como o primeiro romance brasileiro do movimento realista. Uma frase dita por Machado de Assis: "Se você não é um homem, então, não têm palavras o suficiente para falar a respeito de outros homens..."


Análise da trama

Observa-se nesta obsessão do alienista em experimentar - e justificar todos os seus excessos como um benefício ao futuro da ciência - uma crítica machadiana ao cientificismo predominante no século XIX.


A obra também é um retrato irônico e cruel do sistema de internação psiquiátrica da época, muito semelhante a um presídio.


Trata-se de um grande médico, que busca reconhecer em que consiste a loucura, mas sendo mais objetivo, tenta desvendar esse grande enigma que o rodeia.


Resumo da trama

Zona de Spoilers: Se ainda não leu o livro, pare agora.


Simão Bacamarte é o protagonista, médico conceituado em Portugal e na Espanha, decide enveredar-se pelo campo da psiquiatria e inicia um estudo sobre a loucura e seus graus, classificando-os. Funda a Casa Verde, um hospício na vila de Itaguaí e abastece-o de cobaias humanas. Passa a internar todas as pessoas da cidade que ele julgue loucas; o vaidoso, o bajulador, a supersticiosa, a indecisa etc. Costa, rapaz pródigo que dissipou seus bens em empréstimos infelizes, foi preso por mentecapto. A tia de Costa que intercedeu pelo sobrinho também foi trancafiada. O mesmo acontece com o poeta Martim Brito, amante das metáforas, internado por que se referiu ao Marquês de Pombal como o dragão aspérrimo do Nada. Nem D. Evarista, esposa do Alienista escapou: indecisa entre ir a uma festa com o colar de granada ou o de safira. O boticário,os inocentes aficcionados em enigmas e charadas, todos eram loucos. No começo a vila de Itaguaí aplaudiu a atuação do Alienista, mas os exageros de Simão Bacamarte ocasionaram um motim popular, a rebelião das canjicas, liderados pelo ambicioso barbeiro Porfírio. Porfírio acaba vitorioso, mas em seguida compreende a necessidade da Casa Verde e alia-se a Simão Bacamarte. Há uma intervenção militar e os revoltosos são trancafiados no hospício eo alienista recupera seu prestígio. Entretanto Simão Bacamarte chega á conclusão de que quatro quintos da população internada eram casos a repensar. Inverte o critério de reclusão psiquiátrico e recolhe a minoria: os simples, os leais, os desprendidos e os sinceros. O alienista contudo, imbuído de seu rigor científico percebe que os germes do desequilíbrio prosperam porque já estavam latentes em todos. Analisando bem, Bacamarte verifica que ele próprio é o único sadio e reto. Por isso o sábio internou-se no casarão da Casa Verde, onde morreu dezessete meses depois, apesar do boato de que ele seria o único louco de Itaguaí, recebeu honras póstumas.


Ligações externas

O Wikisource tem material relacionado a este artigo (dividido em capítulos): O Alienista

Onde Encontrar o Livro:

O Alienista em PDF
Texto do livro na íntegra
audiobook

# E para quem quiser, um pouco mais, dê um chego no endereço abaixo que encontrará um ótimo texto: “Mania de saber: ironia e melancolia em O Alienista, de Machado de Assis”.
http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/jun3/6.pdf .
Esse trabalho encontra-se na Revista LatinoAmericana de Psicopatologia Fundamental.

O que é Psicopatologia Fundamental:


Psicopatologia Fundamental é termo empregado, pela primeira vez, há mais de 30 anos, pelo Professor Doutor Pierre Fédida e seus associados, no âmbito da Université de Paris 7 - Denis Diderot onde, mais tarde, foi criado o Laboratoire de Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse, junto com um programa de Doutorado com este mesmo nome.


Psicopatologia deriva-se de três palavras gregas: psychê, que produziu psique, psiquismo, psíquico; pathos, que resultou em paixão, excesso, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento e logos, que resultou em lógica, discurso, narrativa. A psicopatologia seria, então, um discurso sobre o pathos, a paixão que se manifesta no psiquismo, ou seja, um discurso sobre o sofrimento psíquico.


No início do século XX, Karl Jaspers publicou Psicopatologia Geral visando descrever, de forma sistemática, as doenças mentais. Esse importante trabalho deu nome àquilo que muitos médicos faziam, principalmente na França, na Alemanha e na Inglaterra durante todo o século XIX e inaugurou uma rica tradição médica que se manifesta, até hoje, em Tratados de Psiquiatria e em Tratados de Psicopatologia Médica. Essa tradição, que muito contribui para a Psicopatologia Fundamental, está, entretanto, interessada na descrição a mais cuidadosa possível e na classificação das doenças mentais.


A Psicopatologia Fundamental, não dispensando os saberes adquiridos nem pela Psicopatologia Geral, nem por outros saberes que contribuem para a compreensão do sofrimento psíquico - a filosofia, a psicologia, a psicanálise, a literatura, as artes, o jornalismo etc - não está tão interessada na descrição e classificação da doença mental como no que é vivido e expressado pelo paciente, pois baseia-se no pressuposto de que o pathos manifesta uma subjetividade que é capaz, através da narrativa, do relato, do discurso, da expressão em palavras, de transformar a paixão e o assujeitamento numa experiência servindo para a existência do próprio sujeito e, quem sabe, à medida que for compartilhada, para outros sujeitos.


Levando-se em conta o pressuposto de que nenhum conhecimento especializado é capaz de esgotar a compreensão do sofrimento psíquico, as pesquisas realizadas no âmbito da Psicopatologia Fundamental visam encontrar palavras que exprimam, de forma a mais precisa e compreensiva possível, o pathos psíquico que se manifesta na clínica psicoterapêutica. Neste sentido, a clínica psicoterapêutica não segue o procedimento médico visando suprimir o sintoma com o remédio e considerar, com isso, que se produziu uma cura.


Podendo utilizar o remédio como um elemento do tratamento, elemento que deixa de ser um objeto final para ser algo que possui um caráter enigmático e obscuro, a clínica psicoterapêutica, na ótica da Psicopatologia Fundamental, deve estar sempre orientada no sentido de encontrar as condições metodológicas que permitam, tanto ao paciente como ao psicoterapeuta, encontrar palavras que representem, da melhor maneira possível, o pathos que é tratado nesta clínica, pois o que se experimenta, nesta mesma clínica, é que o relato o mais preciso possível sobre o pathos produz uma transformação fazendo desaparecer o sintoma e alterando a estrutura mesma do psiquismo e até mesmo dos cérebros daqueles que estão envolvidos nessa prática.


A Psicopatologia Fundamental é, então, um trabalho que visa tanto a aquisição de uma experiência inerente ao pathos, como produzir efeito terapêutico qualitativo modificando a posição do sujeito em relação a seu próprio psiquismo e, conseqüentemente, alterando sua posição e dinâmica no mundo.


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Referência Bibliográfica


- Bento, Victor Eduardo Silva. "Formulando uma Psicopatologia Fundamental, justificando-a e ilustrando-a a partir da psicanálise", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Vol. 1, no. 4, dez. 1998, pp. 11-29.


- Berlinck, Manoel Tosta, Psicopatologia Fundamental, São Paulo, Escuta, 2000.- Berlinck, Manoel Tosta. "Catástrofe e representação. Notas para uma teoria geral da Psicopatologia Fundamental". In Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. II, no. 1, março 1999, pp. 9-34.


- Ceccarelli, Paulo Roberto. "A contribuição da Psicopatologia Fundamental para a Saúde Mental". In Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. VI, no. 1, março 2003, pp. 13-25.


- Fédida, Pierre e Patrick Lacoste, "Psicopatologia/Metapsicologia. A função dos pontos de vista", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. I, no. 2, junho de 1998, pp. 23-58.


- Fédida, Pierre, "De uma psicopatologia geral a uma psicopatologia fundamental. Nota sobre a noção de paradigma", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. I, no. 3, setembro de 1998, pp. 107-121.


- Kupfer, Maria Cristina. "É possível uma Psicopatologia Fundamental da infância?", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Vol. 1, no. 4, dez. 1998, pp. 101-110.


- Miranda, Ney Branco de. "Os caminhos de uma Psicopatologia Fundamental". In Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 1, no. 4, dez. 1998, pp. 125-130.


- Pereira, Mario Eduardo Costa, "Formulando uma Psicopatologia Fundamental", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. I, no. 1, março de 1998, pp. 60-76.


- Queiroz, Edilene Freire de e Silva, Antonio Ricardo Rodrigues da (orgs.). Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Escuta, 2002.- Singer, Flora, "La paradoja y lo negativo. Aportes para la Psicopatologia Fundamental", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. III, no. 1, março de 2000, pp. 131-142.


- Singer, Flora. "La paradoja y lo negativo. Aportes para la Psicopatologia Fundamental". In Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. III, no. 1, março 2000, pp.131-142.


- Singer, Flora. "Psicopatologia Fundamental: de uma cierta transmisión", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol III, no. 4, dez. 2000, pp. 112-121.


- Sonenreich, Carol, Giordano Estevão e Luis de Morais Altenfelder Silva Filho, "Notas sobre psicopatologia", in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. II, no. 3, setembro de 1999, pp. 124-145.


Presentation of The Field of Fundamental Psychopathology.


Mário Eduardo Costa Pereira



sábado, 17 de janeiro de 2009

VIVÊNCIA NA REALIDADE DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE - Ijuí


O Grupo de Estudos em Saúde Coletiva – GESC está realizando no período de 07 a 18 de janeiro de 2009 Vivências na realidade do Sistema Único de Saúde no município de Ijuí – RS, em parceria com a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) e Diretório Central dos Estudantes (DCE), com apoio da Secretaria Municipal de Saúde de Ijuí, Coordenadoria Regional de Saúde, Conselho Municipal (COMUS) e Regional (CRS) da 17 região de saúde.
Trata-se de certa forma, da reedição de estágios de vivências no SUS, recolocando a metodologia de compreensão e problematização do cenário sanitário. Sendo assim, objetiva problematizar o controle social, a formação, a gestão e a atenção em saúde, nos saberes e práticas e da produção de autonomia e incentivo ao protagonismo estudantil como agentes de mudança no campo da saúde e social em consonância aos princípios e diretrizes do SUS.
Estão participando desta Vivência 21 estudantes da área da saúde e afins da Unijuí, Ufpel, Unisinos, Unisc, Uri Santiago e Ufrgs. O mesmo é organizado por estudantes para estudantes, coordenado pela Comissão de Organização e Apoio, composta por Elton Dari Cossetin dos Santos, Franciane Scheren e Liamara Denise Ubessi, e conta com três facilitadores - um da área de Educação Física e Nutrição, um da Psicologia e outro da Biologia, envolvidos com o movimento estudantil na área da saúde e afins e práticas de educação popular em saúde.
A metodologia utilizada consiste de imersão na rede de atenção a saúde, entendendo-a de forma ampliada, não só como a articulação dos serviços, mas destes na relação com a rede e movimentos sociais. As atividades, até o presente momento, consistiram de muitas rodas de estudo e debates sobre a organização e funcionamento do SUS, roda de conversas sobre o movimento da Reforma Sanitária, políticas públicas, controle e participação social, saúde indígena, contando com a participação de Teresinha Heck Weiller, docente do Departamento de Ciências da Saúde da Unijuí, Liane Beatriz Righi, docente da Universidade Federal de Pelotas, Sr. Moacir Deves presidente do Conselho Municipal e Regional de Saúde, Lucia Otonelli Crescente, tutora do Humaniza SUS e Véra Guidolin da 17ª Coordenadoria Regional de Saúde, Eronita Vargas Barcelos, docente do Departamento de Pedagogia da Unijuí, Ieda Zimmermann e Jorge Alexandre Silva da Incubadora Solidária e Desenvolvimento Sustentável da Unijuí.
Os participantes foram a campo na Coordenadoria Regional de Saúde, nas Unidades Básicas de Saúde do Thomé de Souza e Luiz Fogliato no município de Ijuí, área indígena Três Soitas no Barra do Guarita, município de Tenente Portela –RS. No dia 13 de janeiro de 2009, os participantes da Vivência conheceram como se organiza o sistema de saúde no município de Pejuçara/RS e de como este opera com os dispositivos da Política Nacional de Humanização da Gestão e Atenção em Saúde.
Na quarta-feira estarão realizando roda de debate com o Secretário Municipal de Saúde de Ijuí, Sr. Claudiomiro Pezzeta. No turno da tarde, será realizado visita ao Centro de Atenção Psicossocial I de Ijuí e a noite discussão a organização da atenção a saúde mental e políticas públicas; no dia 15 de janeiro/06, ocorrerá ação de divulgação dos direitos dos usuários na Praça da República de Ijuí e a tarde, visita ao Hospital de Caridade de Ijuí (a confirmar) e no dia 16 de janeiro de 2009, visita a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis – ACATA.
Esta Vivëncia encerra-se no domingo, dia 18 de janeiro de 2009, quando os participantes firmam compromissos de intervenção na realidade sanitária e social e de fortalecimento do movimento estudantil na saúde, sob a premissa de que a construção do SUS passa pelas mãos de todos e de como se pode operar a produção de vida em uma dimensão ético-político-social.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Que é o VER-SUS?

Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde

Caracterização

O VER-SUS/Brasil é um projeto desenvolvido pelo Ministério da Sáude em conjunto com as entidades estudantis dos cursos da área da saúde e as secretarias municipais de saúde, com o objetivo de oferecer a estudantes universitários vivências e estágios no Sistema Único de Saúde com duração de 15 a 20 dias.
A missão é promover a integração dos futuros profissionais à realidade da organização dos serviços, levando-se em consideração os aspectos de gestão do sistema, as estratégias de atenção, o controle social e os processos de educação na saúde. Orientado pela abertura do sistema de saúde como espaço de ensino e aprendizagem para os estudantes da área da saúde, o VER-SUS/Brasil pretende tornar presente para os estudantes as ações de condução do sistema de saúde.
Outra dimensão contemplada nesse Projeto diz respeito à histórica dificuldade das diferentes profissões da saúde trabalharem de forma integrada. A cultura de fragmentação do setor ainda é uma realidade na qual a falta do hábito de convivência multiprofissional é uma de suas causas. Nesse sentido, o VER-SUS/Brasil oportuniza o convívio, a discussão da organização do sistema de saúde brasileiro e a aprendizagem crítica aos estudantes de diferentes cursos da área da Saúde e áreas afins.

Objetivos
Esses estágios, respeitando as diretrizes nacionais, apresentam programações diversificadas, respeitando as características locais e regionais; e têm o objetivo geral de oferecer aos estudantes a oportunidade de conhecer e refletir sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, visa:
· valorizar e potencializar o compromisso ético-político dos participantes do espaço de vivência no processo da Reforma Sanitária;
· provocar reflexões acerca do papel do estudante enquanto agente transformador da realidade social;
· contribuir para a construção da consciência acerca da saúde em seu conceito ampliado;
· sensibilizar gestores, trabalhadores e formadores do sistema de saúde, estimulando as discussões e as práticas de educação permanente, reafirmando o SUS em suas ações;
· contribuir para o amadurecimento da prática interdisciplinar e multiprofissional, para a articulação interinstitucional e intersetorial e para a integração ensino-serviço no campo da saúde;
· contribuir para o debate sobre o projeto político-pedagógico da graduação e sobre a implementação das diretrizes curriculares da saúde, de forma que contemplem as reais necessidades do SUS e da população brasileira;
· estimular a inserção dos estudantes no Movimento Estudantil e em outros Movimentos Sociais.

Público Alvo
O Projeto VER-SUS/Brasil destina-se aos estudantes universitários brasileiros da área de Saúde. A Resolução 287/98 do Conselho Nacional de Saúde define as seguintes carreiras como profissões de saúde para fins de elaboração das Diretrizes Políticas da Gestão em Políticas de Saúde: Biologia; Biomedicina; Educação Física; Enfermagem; Farmácia; Fisioterapia; Fonoaudiologia; Medicina; Medicina Veterinária; Nutrição; Odontologia; Psicologia; Serviço Social e Terapia Ocupacional. A estes foram acrescidos os cursos de Administração Hospitalar e Administração de Sistemas e Serviços de Saúde, totalizando 16 profissões da saúde envolvidas com o VER-SUS/Brasil. Também é prevista a possibilidade de participação limitada de estudantes universitários de outros cursos e de outros países.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Gaza

By José Saramago

A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.

sábado, 3 de janeiro de 2009

SIAMÉSICO*


“E não se esqueçam que em vossos lares tudo é muito mais falso do que aqui.”
- Jean Genet –

*


Acredita em espíritos superiores? São como víboras que comem energias das pobres almas – sugando eu’s dos reflexos...
Sabe, durante a noite eu não durmo, fico fazendo listas, lembrando rostos, lendo Nietzsche e a lista telefônica. Uma vez arrisquei um nome, corri o dedo de olhos bem fechados até marcar stop crazy. Ela atendeu ao telefone após três chamadas, acho que esperava a minha indiscrição. Ela possui uma passividade bem humana – sobrevivente e artificial. Confessei desejos e misteriosamente presenças, que não quero revelar, materializaram-se, senti um perfume na pele e o coração pulsou mais forte. Fiz uma caçada silenciosa por longas semanas, meses... beber, lamber, saciar a sede atrevidamente. Os nossos olhos queimavam-se neles mesmos, nada mais além de tua íris castanha e tuas pupilas dilatadas... Milagres não acontecem todos os dias e juntar corpo com corpo é uma estupidez emocionante, coisas que o ser racional aprimora diariamente, distraidamente para fugir do cotidiano – não é uma epifania? Para aceitar o imprevisto, nós premeditamos. Tudo bem, eu confesso o meu crime, sou impessoal demais! E minha bondade de caráter é uma arte.
Todos os dias eu te segui e todos os dias até te morder, me abstive de outros corpos. Posso, nesse instante, desenhar as violetas de tua janela, lembro da cor, da dor e do sabor. Posso te conjugar no pretérito mais que perfeito, porque é uma mulher de imprevisível sabor... olhos de víbora, assim como os meus. Você me comeu e roubou o meu reflexo. E agora, quem sou?

* Vínculo Siamésico é o mais angustiante de todos os vínculos mãe-bebê, no sentido de que a criança pode experimentar a separação da mãe como se acarretasse a morte das duas, ou a impossibilidade de sobrevivência de uma delas, o que poderia acontecer, por exemplo, na situação parasitária ou na simbiótica, tal como observamos em determinadas esquizofrenias e em certos processos psicóticos. (Teoria do Vínculo – Pichon-Rivièe)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

AQUE TIPO DE CIÊNCIA É A PSICANÁLISE?

Alfredo Jerusalinsky
*
A descoberta freudiana do inconsciente colocou em xeque a ilusão da modernidade de poder transformar todo saber em conhecimento. Embora nascida no berço da ciência, a psicanálise acabou demonstrando a impossibilidade de formular qualquer enunciado capaz de capturar um real sem que nada venha a sobrar fora dessa redoma da linguagem.
*
Para tal demonstração a psicanálise não se apóia centralmente na evidência da vastidão inapreensível do real – o que a colocaria fora da ciência, exposta às especulações místicas – mas na condição mesma do sujeito que produz esse enunciado. Um sujeito tal que, na medida em que sua própria existência depende desse enunciado, é desse enunciado a matéria mesma que o constitui. De tal forma, o seu funcionamento não pode ser outra coisa que a lógica do discurso que, ao mesmo tempo, habita e do qual é, ele próprio, feito. Uma lógica, então, necessariamente paradoxal, já que é o sujeito mesmo quem produz a verdade que acredita descobrir.
*
Tal descoberta, produzida pela psicanálise, teve duas grandes conseqüências no campo do saber. A primeira foi o reconhecimento de que o corpo real dos humanos é regido por uma ordem simbólica que desdobra sobre esse corpo efeitos imaginários; uma ordem que prevalece sobre os automatismos neurovegetativos. Na medida em que se verifica que a condição humana desse corpo depende de que os enunciados que o simbolizam mantenham sua eficácia, a anatomia e a fisiologia perdem sua exclusividade no reino do patológico. Isto muda a leitura dos sofrimentos e estabelece os princípios de uma nova clínica. A segunda, é que, embora não constitua uma nova epistemologia (faltaria para isso ter a fé que, no método, a ciência contemporânea tem), certamente produz uma nova episteme, ou seja, um novo ponto de partida para a abertura de caminhos do saber.
*
Mais de cem anos de prática psicanalítica vieram produzir não somente o desdobramento dessas novas trilhas – nos campos da antropologia, das artes, da lingüística, da historiografia, da filosofia, das ciências jurídicas, da medicina, da psicologia, da literatura, entre outros – mas também um certo saldo de conhecimentos, emergidos de sua prática de leitura dos enunciados desde o vértice da enunciação. Dito de outro modo, leitura do saber não-sabido próprio do inconsciente.
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Porém, tal perspectiva exigiu do operador – o psicanalista, no caso – situar e definir o referente que permitisse o deciframento, a decriptação, a interpretação, em suma, desse saber entredito numa linguagem cuja lógica não se equivale com a da consciência. Isto introduziu uma condição incontornável: era imperioso tomar uma decisão, fazer uma escolha que, embora seja um momento comum a todas as ciências, não tem – na psicanálise – a contrapartida que tem em todas elas da configuração imaginária dos enunciados como universais.
*
O ordenamento acadêmico, precisamente, se rege por esses universais, que permitem supor os enunciados que se transmitem como certezas. Do mesmo modo que a regulamentação de profissões se apóia na idéia de uma garantia de saber, como se tal coisa pudesse se constituir simplesmente por obra de uma letra jurídica. As dificuldades da conjugação da prática analítica com a prática universitária, tanto como sua resistência a ser arregimentada por qualquer aparelho estatal, residem em tal contraposição de princípios e postulados.
*
Mas sua vocação pelas “rebarbas” dos enunciados – não podia ser de outra maneira – teve e tem conseqüências também para formulação de sua própria teoria. De fato, a formação – sendo ela sempre a do inconsciente – conduz os analistas a tomar sempre o que excede o enunciado do outro, com o qual ele não faz mais do que cumprir com seu papel de analista. O que em qualquer outra prática teórica constituiria uma posição gratuitamente implicante, aproveitando uma série de banalidades para questionar o trabalho do colega, no caso da psicanálise constitui a trilha mais apropriada – a via régia – da elaboração teórica. A multiplicidade de enfoques então, em lugar de desmentir, contribui para confirmar o fundamento de sua prática.
*
O risco do ecletismo se faz imediatamente presente diante de uma atividade científica assim delineada. Facilmente o conjunto das proposições derivadas de tal forma de trabalhar nas bordas do saber humano, pode tomar a aparência de uma torre de Babel. Eis ali que se faz necessário estabelecer a condição da prova que toda proposição deve passar. O rigor neste caso consiste em exigir a prova da interpretação. Isso quer dizer que qualquer formulação neste âmbito corre o risco (ou talvez devamos dizer a sorte) de, ela mesma, ser interpretada. Tal exigência, por sinal, não coloca as coisas no caminho de uma coexistência pacífica das diferentes versões. Mas, na medida em que a psicanálise pretenda se manter dentro do terreno da ciência, pela condição imposta pela sua própria descoberta, terá que sacrificar a paz para se aproximar à verdade. De outro modo, a psicanálise não seria outra coisa que a prática de uma opinião.
*
Mal faria a psicanálise se, com o pretexto da exigência de um rigor, pretendesse universalizar suas próprias proposições. Acabaria apagando com o cotovelo o que tanto a mão resistiu de – finalmente – escrever.
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domingo, 28 de dezembro de 2008

Alguns Livros de André Green

* Revelações do Inacabado: Sobre o Cartão de Londres de Leonardo Da Vinci.

* Um Psicanalista Engajado: Conversas com Manuel Macias.

* O Desligamento: Psicanálise, Antropologia e Literatura.

* Narcisismo de Vida: Narcisismo de Morte.

* Orientações para uma Psicanálise Contemporânea.

* André Green e a Fundação Squiggle.

* De Locuras Privadas.

Entrevista com André Green

- Desde o final da década de 50, a metapsicologia freudiana foi severamente criticada, no início pelos filósofos do positivismo lógico e mais tarde por importantes psicanalistas, como M. Gill e G. Klein. Em sua opinião, que lugar ocupa a metapsicologia freudiana atualmente?
*

- As críticas de Wittgenstein, que eu saiba, não eram dirigidas à metapsicologia. Não creio que ele atentasse muito a ela. Penso que suas críticas eram principalmente dirigidas ao método de interpretação de Freud. As interpretações freudianas eram, aos seus olhos, demasiadamente convincentes. Mas quando disse isso, naturalmente tinha em mente que elas não eram convincentes, porque acreditava que a maneira de pensar de Freud, tão diferente daquela dos filósofos, não possuía procedimentos de testagem e de verificação, como ele mesmo tinha com sua análise da linguagem. Penso, portanto, que no que concerne ao positivismo lógico a verdadeira questão repousa em uma análise da concepção da linguagem na psicanálise e em sua filosofia de positivismo lógico, ou seja, até que ponto podemos pretender que a lógica seja uma maneira de entender o pensamento humano. Essa tradição origina-se da filosofia e, acredito, até onde alcança minha compreensão, até meu ponto de competência nessa matéria, surgiu após uma importante divisão ocorrida depois da filosofia de Husserl. Depois dele, por um lado tivemos Heiddeger, com a queda de Hésserl e, por outro, o positivismo lógico com Wittgenstein. É interessante notarmos que, ao final, o esforço para vermos o que as palavras significam realmente, o que queremos realmente dizer quando as usamos, conduz à conclusão, juntamente com os lingüistas, que a linguagem em si mesma não possui critérios da verdade. A linguagem é uma organização do homem que, para começar, deve produzir sentido e a idéia é que essa produção seja ampliada a partir da pessoa com quem se fala; outras propostas de significados serão assim refletidas. Existem movimentos, como por exemplo no campo da linguagem, o pragmatismo, com John Servant, que em alguma extensão aproxima-se mais de Wittgenstein que da psicanálise. Mas, com certeza, essas pessoas recusam destronar o poder da linguagem e dizer o quanto ela é influenciada por aquilo que pensamos que seja importante, ou seja, o inconsciente, e ainda pelo que determina o inconsciente: as pulsões, segundo o pensamento de Freud. O que devemos questionar, portanto, é esta concepção que considera apenas o que é lógico no homem e que deixa ao largo todas as partes ilógicas e irracionais. O que fez Freud, e ele foi o único, foi tentar produzir uma teoria centrada na inter-relação do irracional com o racional. Não é apenas uma teoria do irracional; ela tenta correlacionar ambos. Agora vemos isso na atualidade, nas ciências cognitivas, ou mesmo nas concepções das neurociências. É exatamente a mesma coisa se usarmos o modelo do computador ou das ciências cognitivas, o começo é sempre baseado na teoria da informação, em um esforço por considerar apenas os aspectos lógicos. Quando alguns dos filósofos da ciência, que baseiam seus estudos nas neurociências, são perguntados: "Mas o que vocês fazem com as crenças e os desejos das pessoas?", eles ficam muito embaraçados e por isso concluem que essas coisas não existem. Isso é o que se chama "Eliminativismo". A verdadeira questão, portanto, é um problema de lógica. Como costumo dizer, em uma teoria da atividade psíquica e sua relação com a ciência existem duas partes; a teoria da ciência e a teoria do sujeito que produz ciência, o qual tem que responder pelo funcionamento científico e não científico que coexistem na mesma pessoa. Agora, se levarmos em conta a discussão entre Freud e Putnam, veremos que a questão levantada à a da representação. Para os teóricos das ciências cognitivas, representação é aquilo que uma máquina pode registrar. Hillasry Putnam diz que para ele, como teórico de lógica, a interpretação está incluída na representação e não se pode separar uma da outra. Em minha opinião, a verdadeira crítica da década de 60 à metapsicologia veio dos psicólogos, que eram completamente incapazes de aceitar a idéia de uma metapsicologia. Por quê? Porque eles sabem apenas psicologia! É impossível para eles aceitarem a idéia de que Freud descreve hipoteticamente algo que está além da observação, que não pode ser alcançado pela observação e que ele considera como mecanismo psíquico algo que não pode ser lidado pela psicologia. Os psicólogos usam, por exemplo, conceitos como motivação ou comportamento: há uma enorme diferença entre motivação e desejo, entre comportamento e função psíquica. Ainda que George Klein fosse um crítico de Hartmann, e acredito que está certo, porque o modelo de Hartmann é simplificador, ele mesmo não pode fornecer com clareza uma boa teoria inconsciente. Apenas Gill, que fez um enorme esforço para compreender a psicologia - a metapsicologia em primeiro lugar - veio a campo mais tarde e disse que ela deveria ser totalmente rejeitada. Porque o maior problema em psicanálise é determinar o que é relacionado ao significado e o que é relacionado aos determinantes corporais, que não podem ser considerados "significativos" da mesma maneira que quando falamos da significação. Do ponto de vista de um francês, as críticas de Gil e Klein, ainda que ensejem o debate, são piores que a metapsicologia, com todos os seus enigmas, mistérios e hipóteses sem comprovação. Isso significa que desistimos dos assim chamados enfoques realísticos. Os americanos são obcecados pela realidade, mas nunca encontramos uma alusão ao que seja o desejo. Se eles se inclinam à psicologia, é uma psicologia muito pragmática, há um ódio da especulação, uma desconfiança da especulação, uma aversão à especulação, uma intolerência às idéias que não sejam unívocas. Isso é um - assim chamado - espírito científico que não tem nada a ver com psicanálise e onde tentam escapar disso e fazer outra coisa, chegando apenas ao enfoque psicológico que nomeei anteriormente e que não tem utilidade. Mesmo indo além, existem alguns pensadores que tentaram promover outra maneira de pensar, como Roy Schafer, ele tem a idéia da ação da linguagem, que é um modelo baseado na ação. Então eles querem ação, eles não querem pulsões! Bem, para discutir isso seria necessária uma longa oportunidade e, com certeza, admitir que a ação possa ser considerada como o mais próximo modelo para a pulsão. Mas é exatamente o contrário! Uma pulsão é uma ação internalizada que impulsiona à ação. Parece que essa idéia não pode ser aceita pelos americanos. Mas é verdade que hoje em dia nossos congressos da API (Associação Psicanalítica Internacional) não nos dão qualquer oportunidade para debater o assunto em extensão. Porque as pessoas temem derramamento de sangue.
Mas, de qualquer forma, se dermos às pessoas tempo suficiente, elas poderão explicar isso teoricamente. O importante é entender que a hipótese biológica de Freud, que hoje é rejeitada por todos, não foi substituída por outra com a mesma capacidade de explicação. É preciso aceitar as contradições. Freud lançou uma série de hipóteses que pensou que fossem biológicas, mas nunca firmou o mais débil compromisso do ponto de vista biológico. Sempre disse que, para ele, nenhuma descrição era boa o suficiente para explicar o que ele descrevia. Mas manteve a hipótese biológica e não se perturbou por isso. Foi capaz de mantê-la em segundo plano e dizer: "Vamos ver o que irá acontecer!". Mas, na atualidade, bem, nós a descreveríamos como psíquica. O que sucede agora? Eles (os americanos) não aceitam a descrição de Freud e o que oferecem é uma espécie de psicologia sem vida, sem inconsciente ou com um inconsciente muito formal. Não sei como conseguem pensar em tal concepção porque, como disse antes, se vocês querem sua teoria com algumas consistância, liguem a TV e perguntem-se o que está acontecendo na tela e o que está acontecendo em sua teoria. Foi assim que Freud fez. O importante para Freud não foi o bebê. Foi a observação daquilo que os homens estavam fazendo, o que procuravam, atrás do quê estavam correndo. É claro que, então, voltou à base, ao campo clínico, e como poderia ver este, o campo clínico, como uma espécie de exemplo. Mas Freud nunca disse que todo o conhecimento da psicanálise deveria derivar-se da clínica.
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- Depois da morte de Freud a psicanálise desmembrou-se em diversas teorias, a partir do freudianismo original, que se desenvolveram em suas próprias bases até tornarem-se hoje escolas psicanalíticas (escola kleiniana, Psicologia do Ego, etc.). Em sua opinião, como se situa a psicanálise francesa em relação as assim chamadas "escolas psicanalíticas"? E a obra de Lacan?
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- A situação da psicanálise francesa na atualidade é bastante interessante. Se considerarmos o que aconteceu no passado com o povo da Europa Central ao tentar escapar dos nazistas, veremos que não se estabeleceram na França por duas razões. Uma delas é óbvia, devido à guerra e à invasão da França, de onde teriam que sair de novo, também porque as autoridades francesas não eram muito receptivas e não ofereciam facilidades. Houve alguns que tentaram, por exemplo os que fizeram a guerra sob o uniforme francês em 1940 ...
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- Que tentaram a França, antes de irem para os Estados Unidos?
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- Sim, e analisaram Rash, Legrand e alguns outros... A originalidade da psicanálise francesa deve-se a ela ter tido dois inícios. Teve um início no período de 1926 até a guerra, foi interrompida durante a guerra e reiniciou em 1949, enquanto que na Inglaterra e também na América a psicanálise prosseguiu. Sabemos que na América os psicanalistas trabalharam nas universidades, onde os caminhos estavam abertos e existiam contribuições, instituições e assim por diante. Tudo isso teve por resultado o fato de, por ocasião do novo começo, os franceses não terem ninguém para transmitir a experiência da Europa Central, da psicanálise que era feita na Áustria, na Alemanha e na Hungria. A única pessoa próxima a Freud era a princesa Marie Bonaparte. Isso criou uma surpreendente situação. Como na França não tínhamos nenhum dos discípulos de Freud para nos ensinar e treinar tivemos que construir um Freud inteiramente novo. Uma imagem de Freud que pudesse ser esboçada a partir do seu trabalho. Os franceses tinham um conhecimento de filosofia, que é incluída na escola secundária... sei que existem muitos outros países onde a filosofia é incluída na escola secundária...
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- Aqui ela foi removida durante o período militar.
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- Não é preciso dizer mais nada! Alguns dos franceses, então, seguiram o jeito americano, mas não tão intensamente. Lacan veio e trouxe um renascimento ao estudo de Freud, no que seria uma espécie de leitura como um filósofo. Não uma leitura rápida, não uma leitura superficial, mas atenta a cada detalhe. Os que estavam no primeiro grupo chamaram a isso de um retorno a Freud. Por fim Lacan desenvolveu sua própria visão e obviamente o que disse era muito diferente do que Freud havia dito. Isso tornou-se o que vocês conhecem por lacanismo. Em duas palavras, eu diria que Lacan teve uma importante influência, primeiro porque era uma pessoa muito difícil e, segundo, por haver decidido lutar em campo público e com isso filósofos, pensadores e escritores agruparam-se em torno dele. Sofreu influência deles e com certeza foi esperto o bastante para apresentar-lhes uma concepção do inconsciente que se adaptava exatamente ao intelectual. Se vocês disserem que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, com certeza todos os profissionais da linguagem irão pensar que podem lidar com o inconsciente porque a linguagem é sua ferramenta e seu trabalho. E era, decerto, uma teoria muito sedutora, por ser sofisticada, mas é claro que sabemos como Lacan regulamentou a psicanálise, e isto eu penso é o que ainda acontece. Acredito que, por isso, acontecerá ao final que a teoria de Lacan será feita em pedaços, assim como as demais teorias, se forem ameaçadas pelos mesmos fatos. Mas o que aconteceu, creio, é que temos o que chamo de uma teoria pós-lacaniana, visto que todas as pessoas na França que contribuíram significativamente para o avanço da teoria foram, em algum momento, lacanianos, mas liberaram-se de Lacan. Alguns ainda incluem certa quantidade de teoria lacaniana. Outros, diversamente, estão tentando integrar aspectos da teoria psicanalítica que aprenderam com Melanie Klein, Bion, Winnicott. Penso que se quiserem compreender o que é a psicanálise francesa devem levar em consideração que desde os velhos tempos existe uma forte resistência à psicanàlise americana, mesmo a essa psicologia, que tem sido considerada como uma interpretação do trabalho de Freud completamente esvaziada, sem interesse, sem vida e que foi construída sobre a psicologia, novamente a psicologia! E tudo sobre o que falaram as ciência modernas são variações desse mesmo tema. A maioria delas acredita que a psicanálise deve ser muito claramente distinguida da psicologia. Essa é uma característica. A segunda é que os franceses opunham-se a uma supersimplificação do trabalho de Freud. Estudaram Freud, não como filósofos, e pensam que o trabalho de Freud é que se chama une oeuvre de pensê, que significa um trabalho do pensamento, e que ainda que muitos dos postulados de Freud sejam questionados ou até eventualmente descartados ou desconsiderados, a maneira de funcionar da mente de Freud permanece para muitos de nós um modelo do pensar, mesmo que adotemos hoje em dia outras atitudes e cheguemos a diferentes conclusões. Por isso continuamos a estudar Freud e posso dar-lhes um exemplo muito simples: existem trabalhos que já li trinta vezes e ainda encontro neles alguma coisa. Nenhum outro autor resiste a tal tratamento, ao menos, é claro, que não se queira saber do que ele fala.
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- Quais artigos, por exemplo?
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- "Negation"1, por exemplo. Posso dizer-lhes, como exemplo, que antes de vir para a América Latina li o "Outline"2 provavelmente pela trigésima vez, e achei novos aspectos que me haviam escapado. Vou possivelmente usá-lo no seminário no Instituto de Psicanálise no ano que vem e tentarei ampliar as reflexões que fiz. Penso, na verdade, que o fundamental é a correlação entre o significado e algo que não pertence ao significado, como sabemos da linguagem ou da filosofia, mas que está embasado na maneira em que Freud pensou que nós devemos considerar a relação entre o corpo e mente. O que estou afirmando é que a atual geração digeriu os conflitos surgidos há 40 anos. As pessoas não estão muito interessadas em saber o que aconteceu, quem estava certo ou errado; elas já digeriram o trabalho de Lacan e conhecem seus seguidores. Existem diferentes interpretações, algumas mais exclusivamente freudianas, mas no mesmo espírito não ortodoxo. Ninguém está interessado em ser um ortodoxo fiel a Freud. Interessam-se, como disse, em manter a mente de acordo com o modelo freudiano, mas não necessariamente com os mesmos ingredientes. Esses podem mudar. Existem, porém, alguns temas básicos que parecem importantes e dos quais não devemos abrir mão. Alguns transitam entre Freud e Lacan, outros, como eu, tentam criar algo novo com Freud e os que vieram depois, Bion, Winnicott e Lacan. Isso não é um jeito eclético de ser; é um jeito de tentar pensar nos problemas como fiz nesta manhã. Alguns interessam-se mais por Melanie Klein e análise de crianças, ainda que M. Klein não seja muito influente na França. Há quem tenha usado suas idéias, mas não exclusivamente dela. Essas pessoas, por exemplo, consideram que Francis Tustin seja pelo menos tão importante quanto Melanie Klein. Temos, então, todos esses grandes tipos de tendências com as características que apresentei. Há a recusa à psicanálise americana e à maneira de pensar americana. O único autor americano que realmente faz sucesso na França é Harold Searles. Há também reservas quanto à Melanie Klein, um enorme interesse pelo trabalho de Winnicott e Bion, é claro, pelo que restou de Lacan. São essas as características da psicanálise francesa, como as percebo. Com certeza há sempre pessoas interessadas nas tendências recentes de psicanálise infantil, nas idéias de Daniel Stern. Isso tem seu papel no pensamento global, apesar de existirem enormes reservas porque isso é comportamento.
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- O trabalho de Piera Aulagnier despertou interesse no campo psicanalítico e no meio cultural em geral no Brasil. Como situar seu trabalho no contexto da psicanálise francesa? Que espécie de crítica pode ser feita?
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- Piera Aulagnier tem a qualidade de ser uma pensadora independente. Sua separação de Lacan foi realmente dolorosa e tomou-lhe tempo. Lacan a estimava mas, como sabem, ele era uma espécie de trator, o que significa que se as pessoas não fossem integralmente dedicadas ao seu trabalho, e seguissem então uma trilha independente, ele as esquecia. Piera Aulagnier não deixou a Sociedade Francesa no mesmo momento que os outros, como Lagache, por exemplo, porque pensava: "Não posso fazer isso a Lacan". Era uma afirmação repetida por muitos. Finalmente decidiu que não poderia mais ficar porque Lacan estava em um período onde havia uma semelhança entre o que ele achava que ela deveria ser e a Revolução Cultural de Mao Tse Tung. Não estou brincando! E, para concluir, o treinamento era tão destrutivo que ela decidiu partir. Tornou-se uma pensadora independente e construiu seu trabalho devido, principalmente , ao seu interesse nas psicoses. Nessa área havia muito a ser feito, um outro enfoque que proporcionaria uma idéia diferente da construção teórica moderna da psicanálise, e ela se deu conta que havia coisas para as quais a teoria do significante de Lacan não tinha explicação. Foi assim que criou o Pictograma e construiu suas teorias, passo a passo. Posso dizer que ela estava em comunicação constante com o meu próprio pensamento e mantínhamos intercâmbios. Posso diferir dela em certos pontos que escrevi e que dei a ela para revisar, artigos que eram solicitados por ela e sobre os quais n?o posso entrar em detalhes. Mas sua teoria até hoje é uma viva concepção. Seu livro "The Violence and Interpretation" é certamente importante por abrir novos caminhos e à reconhecido em todo mundo. Claro está que existem pontos em desacordo que nós debatemos, como a questão do que ela qualifica como o "originário". Tentei mostrar que tal coisa não existe, mas isso é uma eterna discussão entre nós. É impossível entrarmos em uma crítica detalhada desse trabalho; o que posso dizer-lhes é que ela merece realmente ser estudada, só então pode-se fazer alguma crítica. Surpreendeu-me sua resistência às idéias de Bion, mas na França muita gente é relutante em aceitar suas idéias, porque eles pensam que o trabalho de Bion não é embasado em nossas referências usuais. Refiro-me, por exemplo, a negligência da teoria de Bion quanto a apontar o que seja o prazer. Isso é o que objetamos na teoria kleiniana, que se preocupa com o temor ao aniquilamento, ao caos, à fragmentação, ao desastre. É realmente como se pensássemos que os bebês vivem no inferno! E quando se fala no bom objeto, ele parece ser um objeto idealizado, uma questão de ilusão e onipotência; pensamos que esta idéia está errada. Quando estava certa ocasião em Buenos Aires e cheguei às conclusões finais da minha palestra, disse: "Vocês não podem fazer análise a não ser que se tornem conscientes de suas opções fundamentais. Do que pensam que seja o Homem, o que existe nele, seus valores, as coisas que esclarecem a maneira como vivem as pessoas. Há uma opção, que é dizer que as pessoas procuram segurança, procuram evitar ansiedade, tentam criar condições nas quais se sintam seguras e possam manejar as diversas possibilidades de perturbação e descompensação. Há outra opção, que é dizer que na verdade as pessoas estão gastando todo seu tempo em reparar um objeto interno destruído, e portanto a única solução é o eterno luto!. E há ainda outra opção que é a opção francesa de Freud, em que pensamos que o desejo do prazer é realmente o que mobiliza as pessoas na busca de algo perdido, o que implica naturalmente em diferentes tipos de perda". Isso é derivado de Lacan, a idéia de juissance, para a qual não há tradução em inglês, visto que enjoyment3 não é tão bom, ou talvez seja fun4. Vocês devem se perguntar: o que faz as pessoas correrem atrás de alguma coisa? E também os psicanalistas? Quais são as diferenças? O que nos move? O que queremos? É óbvio que a única possível resposta está relacionada ? idéia de prazer, a menos que vocês se tornem puritanos e digam: "Não, eu não procuro isso! Queremos ser boas pessoas!" É isto que vocês vêem na TV? Boas pessoas? Não! Agora vou permitir-me uma pequena brincadeira. Vocês conhecem a principal diferença entre o psicanalista inglês e o francês? A principal diferença é que na Inglaterra os sacerdotes casam-se, podem ter filhos e muitos destes se tornam psicanalistas. Quando os padres católicos têm filhos, eles são ilegítimos. Não estou brincando, há sinais desse puritanismo centrado nos bebês, em como tornar o bebê bom, em como criar as crianças e torná-los pessoas responsáveis e assim por diante. Mas atualmente a Inglaterra está mudando bastante e não estou certo se esses valores sobreviverão por muito tempo. Em todo o mundo sentimos que o apetite por sensualidade atualmente é ilimitado! Tenho observado recentemente uma grande mudança na mente das pessoas. Elas estão tendo consciência de que é o Princípio do Prazer que faz o mundo girar, não o Princípio da Realidade. Isso trará uma grande e imprevisível mudança, porque quando estiverem convencidas, não haverá limite para a violência que experimentamos agora e que está destinada a piorar com o tempo, para sempre. Não posso afirmar essas coisas, mas penso que são pensamentos aos quais vocês deveriam devotar algum tempo.
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- Vemos, na atualidade, teorias excepcionais sobre o "ser humano". Subitamente, entretanto, elas perderam espaço e importância no meio cultural. São exemplos o marxismo e o culturalismo. Qual será, em sua opinião, o futuro da psicanálise?
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- Preocupa-me o futuro da psicanálise pelo perigo que seja invadida pelas assim chamadas "teorias da relação", nas quais a especificidade do diálogo psicanalítico e da interpretação é empobrecida pela assim chamada "técnica do aqui-e-agora". Não me importo com essa técnica, apesar de discordar inteiramente dela. Enfim, por que não? Mas o que se observa é que ao adotar esse ponto de vista chega-se a uma supersimplificação do que acontece entre o paciente e o analista. Uma verdadeira teoria do aqui-e-agora, do aspecto intersubjetivo, significa que na intersubjetividade cada um tem que pensar o que ocorre na mente das duas pessoas que estão unidas na relação. É terrivelmente empobrecedor, porque há uma completa redução do que vai na mente de cada um dos dois sujeitos. Se vocês desejarem uma teoria da relação, então a sua interpretação da relação é preciso incluir o que ocorre na mente do paciente e também qual é a idéia, na mente do paciente, do que se passa na mente do analista. Essa seria uma teoria complexa, mas que faria justiça é complexidade da análise. Ao invés disso, temos interpretações arbitrárias, com freqüência sem profundidade, porque o paciente é sempre mais esperto que o analista. Bion diz que um paciente que não faz seu analista de bobo deve estar muito doente. Ele está certo. O paciente sabe muito bem como tornar o diálogo psicanalítico em uma espécie de rifa, em um impasse ou em uma situação na qual o poder do analista se transforma em um retorno é sugestão. Supomos ter feito progresso na contratransferência. Infelizmente, não vejo assim. O que vejo é que em nossa civilização ocidental a sexualidade foi ignorada por 25 séculos. Freud surgiu, esclareceu-nos sobre a sexualidade e agora voltamos ao período anterior a ele. Ninguém deseja ouvir sobre sexualidade, sobre a maneira pela qual somos marcados por ela desde pequenos; ninguém quer admitir que como adultos continuamos sob sua influência, mesmo curados. É aceitável apenas o tipo de relação que resulta em "Ama-me!" Para mim, isso é no máximo meia vertente da verdade. Então o que temos é um período em que a psicanálise estava preocupada única e exclusivamente com a destruição, agora está preocupada apenas com o amor sem sexualidade e por fim vamos nos tornar os chefes de um serviço religioso na forma deitada. Não penso que isso seja uma mudança real, uma consciência real do que somos, de quem somos! Precisamos do conforto de uma imagem de nós mesmos que não nos magoe demais. Muito obrigado.
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Tradução de Antônio Carlos Marques da Rosa
Transcrição: Margareth Dallagnol
Revisão Técnica: Paulo Oscar Teitelbaum

Revista de Psicanálise - SPPA.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Eu Sou Uma Sensação Minha

Ele disse que não tinha certeza de nada. Que poderia ser mesmo uma alucinação, um pesadelo, uma projeção subconsciente ou qualquer outra coisa assim...
A verdade? É uma coisa exterior?
A única realidade dele eram as sensações que “eles” proporcionavam... das sensações que vinham de dentro dele... Nem da própria existência estava certo.
Estava preocupado... isso era certo. Enquanto falava gesticulava nervoso, enumerando suposições para o fato. Dizia também, que preferia não contar tudo porque, de alguma forma, “eles” poderiam falar por ele e as coisas seriam mal compreendidas. Temia ficar agressivo e, ainda, poderia por fim, negar tudo o que pudesse vir a dizer.
Acrescentou sem encarar meus olhos que, talvez, nada tivesse a ver com a vida dele. Sabia ele que sempre foi um obcecado, mas o que estava acontecendo já era demais. Ele próprio estava horrorizado. E falou ainda, em voz baixa, que parecia um abismo cheio de música, objetos antigos e outros nunca vistos. E, quando estava caindo, se deixava levar... calmo e doce. É um veludo vermelho – macio. Confessou gostar, amar profundamente, desesperadamente. Na verdade, repetia, “eles” são o mistério que não significa coisa alguma ou são a verdade que significa qualquer coisa?! É claro que era uma idéia ou sensação dele. Mas sabia, tinha certeza, que “eles” existiam. E até se prestava a ter ridículas crises de ciúmes quando alguém ousava tocá-los sem o seu consentimento. Sabia que o mundo todo poderia tê-los, mas ele irritava-se profundamente com as pessoas que não lhes davam o devido valor.
Ele falou mais uma vez que os amava, porém, estavam deixando-o maluco; mesmo assim, não saberia viver sem “eles”...
Ele falava muitas coisas. Eu tentava acalmá-lo. Ele dizia que todos “eles” estavam dentro dele. Então, apontava para a cabeça e o peito – “estão aqui, você pode não vê-los; mas sei que estão”. Começou a enumerá-los com a voz alta e rouca, depois foi acalmando e quase passou a sussurrar: “Heidegger, Marx, Freud, Pessoa, Baudelaire, Balzac, Shakespeare, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Eduardo Galeano, Genet, Darwin ...” falou tantos nomes quanto pode. Dos mais conhecidos aos que eu nunca ouvi falar. Fez uma salada de épocas, de áreas-filosóficas-psicológicas-literárias-políticas-teológicas-poéticas-modernas-contemporâneas-científicas e até de auto-ajuda... Sem falar na confusão de personagens, que começou a citar, como se estes fossem seus velhos e bons amigos, conhecidos, familiares...
Quando afastei meus olhos para o longe, ele sentiu minha confusão e, então, com urgência disse que eu precisava ler o último livro que ele havia lido. Sem perceber era penetrado por um reino de escuridão, dor, alegria, gargalhadas, luz, náusea, êxtase, amor... Quis voltar, mas já era tarde. As sensações cresciam e a voz dele repetia enlouquecidas coisas doces, difíceis, importantes, doentes e verdadeiras – acho mesmo que eram verdades o que ele proferia.

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