Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Freud Obras Completas (Download) e o Lacan también! Uhulala:




Diz a lenda que ao entrar nos Estados Unidos, em sua 1ª viagem à América (1909), Freud comentou com Jung:

"Eles não sabem, mas estamos lhes trazendo a peste."

Geralmente, os ataques à psicanálise exaltam o fácil e a 'porta larga pro céu'... 

Bion, citando um provérbio árabe, dizia que o caminho do inferno é bordejado por viçosas rosas.  A psicanálise, não nos esqueçamos, não se trata de uma praga simplória, ela é a 'Peste'.


Edição standard das obras completas de Freud:


Freud en español:

López Ballesteros: http://migre.me/fXNX2

Editorial Amorrortu: http://migre.me/fXNYx


E Olha só quem resolveu se manifestar junto com o Freud:

Diz aí Lacan:

Lacan, 'seminários': http://migre.me/fZWsk


**Corram para baixar antes que saia do ar e virem flocos de nada. A Internet está muito líquida, da mesma forma que o amor.



*Colaborou com a postagem, Cássio Mattar, foi de Mattar!


O Paradigma Etiológico da Criminologia:



Neste artigo da professora Vera Regina Pereira de Andrade vamos tentar entender um pouco sobre a ciência da Criminologia.

ARTIGO: Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social: mudança e permanência de paradigmas criminológicos na ciência e no senso comum:


A autora logo nos avisa que antes de se tratar de uma pesquisa numa perspectiva histórica, ela é sincrônica, para dizer da mudança do paradigma etiológico para o paradigma da reação social que a Criminologia experimenta desde a década de sessenta de nosso século...

Panópticon

A autora nos deixa livre para nos questionarmos sobre, diz ela: “deixamos que o leitor extraia suas próprias conclusões”.

Pelo minha compreensão do artigo, a autora procurou trazer as questões da criminologia positivista que acaba por coisificar o ser. Outro ponto que ela traz é de como o sistema penal vigente trabalha com uma imagem estereotipada e preconceituosa da criminalidade e do criminoso, mesmo olhar do senso comum. A Criminologia positivista seria como uma mera reprodutora de controle social e higienizador que não consegue romper com certos problemas e não nos oferece nenhuma solução ou nem mesmo problematiza as questões sociais que envolvem o indivíduo. Como se o crime, a violência e a delinquência tivessem uma origem praticamente congênita. A Criminologia como está posta, nos passa uma imagem estereotipada e preconceituosa da criminalidade e do criminoso. Neste sentido eu concordo plenamente com a autora. Lembrei-me do livro do Melman, “Alcoolismo, Delinquência e Toxicomania”. De como "funcionam" os atos delinquentes dos adolescentes, quais as implicações... Não sei se concordo plenamente com o artigo. Mas, compreendo que quando trabalhamos com adolescentes infratores, por exemplo, estamos lidando muito mais com o ambiente social e a fantasmática familiar do que com o crime, o criminoso propriamente. Não existe um criminoso. Existe um sujeito atravessado pelo social. Acho que é por ai... Somos biopsicosociais!



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Os Estupros Fantasmas da Bolívia e o Filme Dogville:


Olhem essa matéria. Ela causa calafrios, além de provocar uma angústia frente à estranheza com algo tão REAL, ao ponto de não acreditarmos e supormos que se trata de uma ficção jornalística:





"Durante algum tempo, os residentes da colônia de Manitoba acharam que demônios estavam estuprando as mulheres da cidade. Não havia outra explicação. Como explicar o fato de uma mulher acordar com manchas de sangue e sêmen nos lençóis e nenhuma lembrança da noite anterior? Como explicar o caso de outra residente, que foi dormir vestida e acordou nua, coberta de impressões digitais sujas por todo o corpo? Como explicar que, depois de ter um pesadelo que consistia num homem a possuindo à força num campo, outra das colonas acordara na manhã seguinte com grama em seus cabelos?

O mistério de Sara Guenter era a corda. Às vezes, ela acordava em sua cama com pequenos pedaços de corda atados firmemente a seus pulsos e quadris, a pele embaixo deles azulada e dolorida. No começo do ano, visitei Sara em sua casa na colônia Manitoba, na Bolívia. Era uma construção simples de concreto pintado para se assemelhar a tijolos. Os menonitas são similares aos amish em sua rejeição à modernidade e tecnologia, e a colônia Manitoba, como todas as comunidade menonitas ultraconservadoras, é uma tentativa coletiva de se afastar o máximo possível do mundo dos não crentes. Uma leve brisa de soja e sorgo vinha dos campos próximos enquanto Sara me contava como, além das estranhas cordas, nas manhãs depois dos estupros ela também acordava com lençóis manchados, dores de cabeça arrasadoras e uma letargia paralisante.

Suas duas filhas, de 17 e 18 anos, estavam agachadas na parede atrás dela e me encaravam com seus ferozes olhares azuis. O demônio tinha penetrado na casa, disse Sara. Cinco anos atrás, suas filhas também começaram a acordar com lençóis sujos e reclamar de dores “lá embaixo”.

A família tentou trancar as portas. Em algumas noites, Sara fez de tudo para ficar acordada. Em outras ocasiões, um trabalhador boliviano da cidade vizinha de Santa Cruz chegou a montar guarda durante a noite. Mas, inevitavelmente, quando sua casa de um andar — afastada e isolada da estrada de terra — não estava sendo vigiada, os estupros aconteciam novamente (Manitoba não é ligada à rede de energia elétrica, então, a comunidade fica submersa na escuridão completa durante a noite). “Aconteceu tantas vezes que eu perdi a conta”, Sara me disse em seu baixo-alemão nativo, a única língua que ela fala, como a maioria das mulheres da comunidade."

(...)

(Click AQUI para ler toda a matéria.)




Isso dá um seminário, nem sei sobre o quê, pois fiquei atordoada e paralisada pensando nessa história. Horda Primitiva? Futuro de uma Ilusão? Perversão? Domínio do Patriarcado? Poder da Alienação? Poder da Religião? O que querem essas mulheres, se elas nem sabem o que é ser sujeito? Não tem sujeito! É estranho pensar que uma história dessas, em plena contemporaneidade, possa existir fora de um filme. É real demais! Tanto que demoramos a acreditar que não se trata de ficção jornalística.

Fiquei pensando que corremos o risco de silenciar frente a tal informação, justamente por ver tantos sinais de natureza primitiva nessa sociedade. Naturalizar, pois o que mais poderíamos esperar deste lugar, tomado de arcaísmo e moralismo religioso? Não, também não pode ser somente isso. As pessoas que ali vivem, parecem presas a um reduto extremamente limitado, com suas próprias regras e leis. Que leis são essas? Como podem estar a parte do nosso sistema? É possível? A todo instante me reporto a estudos de antropologia e lembro-me das sociedades primitivas, mas não é o primitivo que está em questão. Pois, o que existe ali de primitivo? A religião/mito? O domínio do macho sobre as fêmeas? Ou o que se coloca é justamente o que temos de mais contemporâneo em nossa sociedade, ou seja, controlar a verdade como forma de poder?!

Lembrei-me do filme Dogville (Lars von Trier), uma cena forte do filme é quando Grace é estuprada, como "pagamento" para que não seja denunciada às autoridades policiais. Neste filme temos a nítida percepção de que todos sabem o que se passa, mas fingem não ver. Existe uma cumplicidade entre os moradores, pois o que eles falam passa longe de significar o que realmente querem dizer. Neste filme a personagem Grace tem uma dívida com a comunidade que só cresce e ela torna-se uma escrava não só de trabalhos físicos como sexual.



A história da matéria em questão e a história do filme trazem a tona o quê de nós, sujeitos humanos? Um retrato de pessoas cruéis, mesquinhas, egoístas e arrogantes? A nossa perversão? O quê, afinal?

Sabe o que me parece? Justamente, por tamanho mal-estar, penso que se trata de uma eminente tragédia grega contemporânea!


Filme - DOGVILLE:




Kierkegaard e Dogville: a desumanização do humano:
A capacidade criativa humana está desumanizada, constata o filósofo Fransmar Barreira Costa Lima, ao analisar o filme Dogville, de Lars von Trier. A cidade fictícia metaforiza as grandes metrópoles, onde a natureza humana está contida e desaprendida.
AQUI o artigo completo sobre o filme Dogville.

Obras de Bauman, Bourdieu e Norbert Elias (para download)



LINK: https://drive.google.com/folderview?id=0B4UG_F2QeFUlREdCR0N3RkktMlE&usp=sharing

BAUMAN, Z. A sociedade individualizada
BAUMAN, Z. Amor Líquido
BAUMAN, Z. Capitalismo parasitário
BAUMAN, Z. Comunidade
BAUMAN, Z. Confiança e medo na cidade
BAUMAN, Z. Em busca da política
BAUMAN, Z. et al. O Papel da Cultura nas Ciências Sociais
BAUMAN, Z. Ética pós-moderna
BAUMAN, Z. Globalização
BAUMAN, Z. Identidade
BAUMAN, Z. La cultura como praxis
BAUMAN, Z. La sociedad sitiada
BAUMAN, Z. Legisladores e intérpretes
BAUMAN, Z. Medo líquido
BAUMAN, Z. Modernidade e Ambivalência
BAUMAN, Z. Modernidade e Holocausto
BAUMAN, Z. Modernidade Líquida
BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade
BAUMAN, Z. Por uma Sociologia Crítica
BAUMAN, Z. Tempos líquidos
BAUMAN, Z. Vida a crédito
BAUMAN, Z. Vida Para Consumo
BAUMAN; MAY. Aprendendo a pensar com a sociologia

BOURDIEU, P. A Dominação Masculina
BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas
BOURDIEU, P. A ilusão biográfica
BOURDIEU, P. As regras da arte
BOURDIEU, P. Coisas Ditas
BOURDIEU, P. Escritos da educação
BOURDIEU, P. Homo Academicus
BOURDIEU, P. Lições da Aula
BOURDIEU, P. Meditações Pascalianas
BOURDIEU, P. O poder simbólico
BOURDIEU, P. Os Usos Sociais da Ciência
BOURDIEU, P. Para uma Sociologia da Ciência
BOURDIEU, P. Questões de Sociologia
BOURDIEU, P. Razões Práticas - Sobre a Teoria da Ação

ELIAS, N. A Condição Humana
ELIAS, N. A sociedade dos indivíduos
ELIAS, N. O processo civilizador, vol. I: uma história dos costumes
ELIAS, N. O processo civilizador, vol. II: formação do estado e civilização
ELIAS, N. Sobre o tempo
ELIAS, N. Teoria Simbólica


Postagem especial do Blog Prestes A Ressurgir:

Ahh, estes comunistas!!!

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores) 



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cantada de rua: apenas parem

Abordar mulheres desconhecidas em lugares públicos é agressivo. Pesquisa aponta que 83% das mulheres não gostam das cantadas de rua.

por Nádia Lapa — publicado 11/09/2013.



Durante vários anos, eu voltava de ônibus da faculdade e descia bem em frente a um quiosque de sorvete. Aqueles, de casquinha, que eu costumava pagar com um trocado qualquer encontrado no bolso. Morava no Rio de Janeiro, cidade calorenta, e a tal sorveteria fica em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana, a mais movimentada do bairro.

Eram dois quarteirões entre a lanchonete e a minha casa. Antes de chegar à portaria, já tinha tomado o sorvete todo. Não por gulodice, mas porque aquela experiência tinha que terminar logo. Logo. O mais rápido possível. Era sempre início da tarde, o céu muito azul, as pessoas indo-voltando de bancos, supermercados, trabalho, farmácia. E, no meio daquelas pessoas, gente como a gente, sem qualquer aparência monstruosa, alguns incontáveis homens faziam gestos e falavam palavras obscenas. Gente que eu nunca vi. Que eu nunca mais veria. Mas que transformavam o simples prazer de tomar sorvete num verdadeiro suplício.

A sensação era horrível. Os homens olhavam para mim e faziam gestos remetendo a sexo oral, das formas mais nojentas possíveis. Eu me sentia constrangida, mas nunca parei de tomar meu sorvete - só o fazia o mais rápido que podia, além de jamais manter contato visual com qualquer estranho.

Eu pensava que tal coisa só acontecia comigo. Mulheres não temos clubinhos ou encontros semanais, como os homens no futebol ou na antiga maçonaria, para compartilhar coisas do dia a dia. Depois que comecei a escrever sobre feminismo, perguntei algumas vezes no Twitter se a abordagem agressiva ao tomar sorvete também acontecia com outras mulheres. As respostas foram sempre positivas - e incluíam outros alimentos, como churros.

Portanto, para nós, feministas, não foi nenhuma novidade o resultado da pesquisa feita pelo site Olga, de Juliana de Faria. Quase oito mil mulheres responderam o questionário elaborado pela jornalista Karin Hueck, e todas (99,6%) relataram já terem sofrido assédio na rua. "Os números são revoltantes. Mais do que isso, são assustadores. Mas, infelizmente, não são uma surpresa alguma para as mulheres. É uma prova de que nós não sentimos segurança em fazer atos corriqueiros, como caminhar pela rua", diz Juliana.

Ao contrário do que supõem os homens, mesmo sem nunca terem parado para perguntar como se sentem suas amigas, namoradas ou irmãs, as mulheres não gostam da abordagem feita por estranhos.

Segundo a pesquisa, 83% das mulheres não gostam do assédio nas ruas. A pergunta que sempre surge, como se qualquer coisa na vida da mulher tivesse o fim de se relacionar com um homem, é "como vamos paquerar agora?". Paquerando, oras. Paquera e assédio são duas coisas completamente diferentes. A primeira pressupõe o engajamento de todos os envolvidos. Isto é, existe reciprocidade. O assédio é diferente: o homem se acha no direito de importunar uma mulher que está indo para o trabalho, para academia, ou apenas tomando um sorvete.

São locais e situações que não oferecem segurança e conforto às mulheres. Nem mesmo na balada, local onde, segundo o senso comum as pessoas estão na guerra, o assédio deve acontecer. Reciprocidade, sempre. É incrível ter de explicar isso ainda hoje. E é necessário, pois 90% das mulheres já trocaram de roupa pensando no assédio. Oito a cada dez mulheres deixou de fazer algo com medo de ser assediada. O mesmo número diz ter sido assediada na balada, com puxões de cabelo e sendo seguradas pelo braço.

Isso é paquera?
Isso é saudável?

Alguma mulher já saiu correndo atrás do motorista de um carro qualquer que buzinou para ela ou fez comentários sobre alguma parte do corpo dela, constrangendo-a publicamente?

Isso é, na verdade, controle e poder - e o lembrete de que o lugar de mulher é na vida doméstica. Não ocupe espaços públicos, porque lá você será assediada/agredida/constrangida.

O assédio na rua é tão problemático que diversos cartazes na Marcha das Vadias trazem manifestações de mulheres cansadas de serem objetificadas e desumanizadas, como se seus corpos servissem apenas para deleite dos homens. O coletivo da Marcha das Vadias de São Paulo falou com o Feminismo pra quê? sobre a pesquisa do Olga: "Poder caminhar pela rua em segurança ainda não é um direito conquistado e, no dia em que se juntam a outras milhares de mulheres na Marcha, cada uma percebe que seus temores cotidianos não são exagero, mas fruto da cultura do estupro, que dissemina e legitima o assédio e o estupro como forma punição para as mulheres".

Para muitos, aqueles que não repensam a roupa e tomam sorvete numa boa nas ruas, falar sobre assédio pode parecer exagero. "O assédio sexual em locais públicos é tratado como uma não-questão. É um monstro invisível, sem estudos, pesquisas, matérias, relatórios sobre o fato. E é impossível lutar contra um problema que não temos nenhuma informação a respeito", comenta a jornalista Juliana de Faria, do Olga.

A Marcha das Vadias, mais recentemente, e outros coletivos feministas sempre bateram nesta tecla. Com a pesquisa realizada pelo Olga e as reações nas redes sociais, vindas de não feministas, já temos um panorama importante: assédio nunca é legal. Não é lisonjeiro, não faz bem pra autoestima, não deixa a mulher confortável. Chega de fiu fiu.

Para conhecer os demais resultados da pesquisa, clique aqui.



sábado, 7 de setembro de 2013

O Mundo:

Você faz o que com o mundo? O que você faz com o teu mundo?


Mundo é um termo utilizado em diversos contextos como sinônimo de planeta Terra ou mesmo para quaisquer outros corpos celestes assemelhados aos planetas, especialmente os rochosos. O termo carrega consigo ainda um ponto de vista humano, como um lugar que é ou que poderia ser habitado por seres humanos. Frequentemente é usado para querer dizer a soma de experiência humana na história, ou a 'condição humana' em geral. Especialmente num contexto metafísico, também pode referir a tudo que compõe a realidade, o universo.




Animação Man:





O que nós vamos fazer esta noite?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Apocalypse Now, só um filme de guerra:


Cena clássica do filme.

Apocalypse Now (1979) ilustra, a partir de uma linguagem poética, inspirada em Joseph Conrad, o Real que nos aniquila. Somente em poesia, podemos contar deste Real. É um filme que traz a tona a inquietação existencial e o desregramento de indivíduos confrontados com a ruptura dos laços sociais. É um filme que fala de uma loucura... Ela é quase um delírio, caso houvesse uma outra voz, porém o narrador parece trabalhar para um Outro, que está mais próximo do discurso Perverso, então, não há delírio mas, uma escravidão voluntária que produz loucura e desordem, eis a obediência total, seja ela em nome de um sistema, seja em nome do fanatismo. Escravo das pulsões primitivas? Um dos personagens nos diz, “A dialética é muito simples, na lógica dialética só existe amor e ódio”. “Temos o direito de matar, mas não de julgar”.

Marlon Brando, nas filmagens.

O filme é o resultado de uma visão, visão de um quadro revelador da condição humana na sua travessia para uma margem outra, travessia fundada também pelo relato como se este fosse reflexo desta água vida navegada.

“Não eram monstros, eram homens... É preciso homens que tenham moral e, ao mesmo tempo, conservem seus instintos para matar e que não tenham julgamentos, pois é o julgamento que nos derrota”. 
(Personagem do Coronel Kurtz)

Marlon Brando.


A guerra do Vietnã, a guerra em si, é vista no filme como metáfora de uma perda – perda completa das humanidades. Não existe humanidade na guerra, talvez, nem mesmo nisto que é humano. "É um horror, horror!" Toda é qualquer guerra é a perda da linguagem. O filme mostra o homem – o homem impregnado de vida e morte, impregnado do horror verdadeiro da existência em todas as suas eras.


Francis Ford Coppola nas filmagens de Apocalypse Now.


A poesia de T.S. Eliot diz tudo que não queremos ouvir e, quando supomos ouvir, erroneamente interpretamos (Poesia citada pelo personagem, Coronel Kurtz):

The Hollow Men

I

Nós somos os homens vazios
Somos os homens de palha
Apoiados uns nos outros
A parte da cabeça cheia de palha. Ai
As nossas vozes foram secas e quando
Juntos sussurramos
São serenas e sem sentido
Como vento em erva seca
Ou pés de ratos sobre vidro partido
Na secura da nossa cave
Molde sem forma, tonalidade sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;
Os que cruzaram
Com os olhos certeiros, para o outro reino da morte
Lembram-se de nós - quem sabe - não de
Violentas almas perdidas, mas somente
De homens vazios
Homens de palha.

II

Olhos que não ouso encontrar em sonhos
No imaginário reino da morte
Esses não aparecem:
Aí, os olhos são
Luz do sol numa coluna quebrada
Aí, uma árvore balança.
E há vozes
No cantar do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela em fuga
Sem estar mais perto
No imaginário reino da morte
Que eu use também
Disfarces deliberados
Pêlo de rato, pele de corvo, estacas em cruz
Numa seara
Portar-me como o vento se porta
Mais perto não,
Não esse encontro final
No reino crepuscular.

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra de cactos
Aqui as imagens de pedra
Erguem-se, aqui recebem
Em súplica a mão do morto
Na fuga de uma estrela que cintila.
Será mesmo assim
No outro reino da morte
Acordar sozinho na hora em que
Trememos de ternura
Os lábios capazes de um beijo
Formam preces a pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas a morrer
Neste vale vazio
Este queixo quebrado dos nossos reinos perdidos
Neste último dos lugares de encontro
Em conjunto tateamos
E evitamos a fala
Amontoados nesta praia do túmido rio
Sem ver, a menos que
Reapareçam os olhos
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino crepuscular da morte
A esperança só
De homens ocos.

(T. S. Eliot, Quarta-Feira de Cinzas, trad. João Paulo Feliciano, Hiena Ed., Lisboa, 1994, ed.bil.)



Assistir Filme Online:



Apocalypse Now não é só um filme de guerra para assistir tomando cerveja. É preciso beber da realidade para assisti-lo.  


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