Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

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sábado, 12 de junho de 2010

RELAÇÃO ENTRE SINTOMA E GOZO NA CLÍNICA PSICANALÍTICA:


***Trabalho apresentado por: MATEUS AUGUSTO PELLENS BALDISSERA. (Seminário em Psicologia e Processos Clínicos I - UNIJUÍ). Professora: Normandia Cristian Giles Castilho.

Freud fez com que sua ciência – a Psicanálise – emergisse, em grande parte, da histeria. Suas discussões com o médico Josef Breuer acerca desta permitiram um avanço clínico no que diz respeito a etiologia e ao tratamento das, até então chamadas, “doenças dos nervos”.

Os sintomas que a doença apresentava já eram amplamente conhecidos, mas de onde provinham e o que fazer com a enfermidade era uma incógnita. E foi a este questionamento que enveredou Freud. Através da escuta de suas pacientes histéricas, ele percebe que o sintoma só pode ser produzido para alguma finalidade e que este, muito provavelmente, era de origem traumática de ordem da sexualidade. Em suas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” (1915-1916), encontramos:

Os sintomas (...) são atos, prejudiciais, ou, pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por sua vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. (p.361)
E continua: “os sintomas neuróticos são resultados de um conflito, e que este surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido” (p.361), ou seja, apesar de haver um lado negativo no sintoma, ele também encontra uma forma de satisfação e é aí a gênese da resistência em eliminá-lo. Mas Freud já alertava que eliminar um sintoma não significa curar a doença, aliás, eliminar certamente não é o melhor termo, pois um sintoma supostamente eliminado deslocar-se-á à outra forma tão mais intrínseca, talvez, que outrora. Pois o que está em jogo na construção do sintoma? Freud, em “Inibições, Sintomas e Ansiedade” (1926) diz que sintoma é “o signo e o substituto de uma satisfação pulsional que não teve lugar (...), o resultado da moção pulsional tocada pelo recalcamento” (apud SCIARA, 2004, p.27). Se pensar que o sintoma atua como substituto de uma satisfação pulsional recalcada, afirma-se mais uma vez a impossibilidade de sua eliminação, pois, somente assim essa satisfação primeva toma forma. Aí entra a questão da cura em Psicanálise, o que se cura, já que o sintoma parece ser incurável? Sciara diz que “se quase não é possível mudar seu sintoma, como seu fantasma, ao menos isso ocorre quando advém nas curas, que se trata de ‘o que fazer com ele’, de se virar, de alargar sua perspectiva.” (p. 35).

Passa-se então a pensar no sintoma como algo inerente a todos. Segundo Lacan, o sintoma é substituição, é metáfora e assim sendo, só apenas ascende na linguagem. Entra-se agora em um novo conceito, o de gozo. Freud utilizava o termo alemão Lust para se referir a satisfação e, ao referir-se a uma satisfação excedente, recorria ao termo Genuss, que etimologicamente também pode ser traduzida por satisfação, prazer, etc., mas é aí que Lacan faz o desdobramento e a introdução do termo gozo, como o excedente e, por definição, à contramão da satisfação.

A partir disso, pode-se retomar a questão metafórica do sintoma, se a entrada simbólica do sujeito na linguagem só se dá através da inserção da Lei paterna, como pensar em gozo e sintoma se esse, segundo VALAS (2001), é proibido pela Lei? Segundo o autor é “porque ‘nem tudo é significante’ que Lacan é levado a introduzir a noção de gozo de modo conceitual em seu ensino” (p. 7). Assim, parte-se para a relação crucial entre desejo e gozo, onde o primeiro é conseqüência da Lei que impede o incesto e, por conseqüência o gozo deste sujeito, assim, é pelo ato da palavra que o gozo passa a existir.

Se desejo e gozo são marcados pela falta, por extensão sintoma também é.

O sintoma é para um sujeito “sua marca privada” (Melman) conforme, a marca de sua divisão, e a testemunha de seu inconsciente que fala. Ele é “viciado” nisso, de uma parte porque ele faz compromisso com seu desejo inconsciente e de outra parte, porque justamente seu gozo é ali correlato. (SCIARA, 2004, p. 32).
Lacan, em seu Seminário 20, “Mais, ainda” diz que “o superego é o imperativo do gozo – Goza!” (p. 11). Se, grosso modo, o superego (supereu) é a instância que incorpora a Lei, por que este ordenamento? No mesmo Seminário, Lacan lembra que o supereu é “correlato da castração”, esta herança da dissolução edípica só pode estar relacionada ao que Lacan chama de gozo fálico, ou gozo imparcial, ou seja, um gozo anterior (gozo do Outro) que foi impedido, e que a todo o momento precisa ser recuperado através da fantasia, por isso do mandato da instância do supereu, quase um pedido de “resgate o que perdemos”. E aí se encontra mais uma relação entre sintoma e gozo, ambos se mostram em posição objetal frente ao Outro.

Em suma, o sintoma que é apresentado pelo sujeito sempre como algo que o faz sofrer tem sim relação direta com um gozo, por isso de sustentá-lo por longos períodos em posição passiva, de queixa. Há um ganho aí, certamente de economia psíquica. Como visto, o sintoma faz parte de algo que constitui o sujeito, assim, não há como livrar-se dele, mas, em tratamento, há sim como mudar de posição frente a ele e por extensão, frente ao gozo e a fantasia, mesmo porque, segundo Lacan, “o gozo é aquilo que não serve para nada” (1985, p.11).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias sobre a Psicanálise (III) [1916-1917]. In: ______.Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 2006. v.16.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
SCIARA, Louis. O sintoma... é Real. Correio da APPOA, Porto Alegre, ano 11, n. 128, p. 26-36, set. 2004.
VALAS, Patrick. As dimensões do gozo: do mito da pulsão à deriva do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

2 comentários:

Mateus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mateus disse...

Como gozam...

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