Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


domingo, 28 de março de 2010

O Crime das Irmãs Papin (Sister my Sister)


O crime das irmãs Papin foi discutido por Lacan em sua tese de doutorado em Psiquiatria, datada de 1932: Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. O crime teve grande repercussão na França e foi, posteriormente, retratado no filme Entre elas (1994), dirigido por Nancy Meckler.

As irmãs Christine e Léa Papin (28 e 21 anos, respectivamente) trabalhavam na casa burguesa de um advogado, sua esposa e sua filha. Eram consideradas empregadas-modelo, mas não havia nenhum tipo de comunicação entre os patrões e as empregadas. As patroas eram muito rígidas, e as empregadas, consideradas misteriosas devido a seu silêncio e aos dias de descanso que passavam juntas trancadas em seu quarto.

Certo dia, quando as patroas estavam ausentes, houve uma pane no circuito elétrico da casa, causado acidentalmente por uma das irmãs. Ao chegarem as patroas, cada uma das irmãs subjuga suas adversárias, arrancando-lhes, ainda em vida, os olhos da órbita, e as espancando. Munidas de objetos que tinham a seu redor (martelo, pichel de estanho, faca de cozinha) amassam os rostos da vítimas, deixando o sexo à mostra. Cortam suas nádegas e coxas profundamente, ensangüentam o corpo de uma com o sangue da outra. Após o ritual atroz, lavam todos os instrumentos, banham-se e deitam-se na cama nuas e abraçadas. Trocam as seguintes palavras: "Agora está tudo limpo!"

Ao serem interrogadas no julgamento, não oferecem nenhuma explicação de raiva ou vingança como motivo do crime. Apenas fazem questão de assumir juntamente a responsabilidade do ato. São presas sem nenhum indício de delírio ou comportamento anormal. Algumas informações imprecisas a respeito de seus antecedentes são fornecidas por um secretário-geral e um delegado, que as conheceram na ocasião em que tentavam obter a emancipação da irmã mais jovem. Dizem tê-las considerado "meio piradas", "perseguidas". Sabe-se ainda de um pai violento e alcoólatra, que violara uma de suas filhas e as abandonara.

Na prisão, cinco meses após estar separada da irmã, Christine apresenta estados de agitação e autopunição. Em um desses episódios, tenta arrancar o próprio olho. A tentativa deixa lesões, e é necessário o uso da camisa de força. Posteriormente, indaga sobre suas vítimas, mostrando alteração na percepção da realidade. Diz que suas vítimas voltaram em outros corpos; ela mesma acreditava ter sido, em outra vida, o marido de sua irmã.

O filme Entre elas baseia-se nos fatos verídicos e se mantém fiel a estes na medida permitida por uma obra de arte. Lacan já nos falava da verdade em estrutura de ficção.
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Texto na integra:

4 comentários:

Eder José disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cilene Tanaka disse...

Interessante o conteúdo do blog. Uma observação quanto à forma: "relES" escreve-se com E e não "relis". Obrigada.

Aninha Moraes disse...

Não entendi pq elas matam a patroa e a filha? Qual o motivo?

Luciana Mai disse...

Bha Aninha, essa é uma boa questão. São várias as teses do pq eles matam as patroas e é justamente essa questão que pode nos guiar para entender um pouco sobre a psicose ou não... eheheheh... A resposta é fácil, elas estão em surto. Porém, respostas fáceis sempre são suspeitas. O que as patroas representavam na vida das irmãs? Qual a representação destas mulheres? Que Outro eles representaram como formas de ameaça?
Conforme a descrição do acontecido, após o crime elas fizeram uma referência muito interessante, “agora tudo está limpo”. Afinal, limpo de quê ou o quê está limpo? É certo que as patroas fizeram parte de seus delírios, da constituição de um delírio. Acho que é por aí...

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