Quadro "O Pesadelo" de Henry Fuseli (1741-1825)

* A Peste Onírica é um delírio subversivo. Postamos aqui nossas réles "produçõezinhas"; nossos momentâneos surtos de divagações em nome do Real do Simbólico e do Imaginário. Estão aqui nossos ensaios para que possamos alçar outros vôos num futuro próximo. Aproveitem os links, os materiais, as imagens, as viagens. Sorvam nossas angústias, nossas dores e masquem nossa pulsão como se fosse um chiclete borrachento com sabor de nada. Pirateiem, copiem, contribuam e comentem para que possamos alimentar nosso narcisismo projetivo. E sorvam de nossa libido, se assim desejarem.


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domingo, 22 de setembro de 2013

"Mundo Golden":




Ele nasceu na suíte deluxe de uma maternidade top, estudou em escolas prime, vestiu desde sempre roupas exclusive e acessórios authentic, morou em lofts de décor clean e arredores upper, passou temporadas em países first em numerosos quesitos, circulou por estabelecimentos de extreme class, degustou iguarias premium, bebeu pure drinks, dormiu em hotéis unique, conviveu com pessoas high, colheu vantagens express, dirigiu automóveis limited edition, namorou models, frequentou boates selected, associou-se a private clubs, colecionou certificados advanced, compôs uma cartela master de clientes, acumulou stars, encontrou um plus nas drogas – mas somente as fine -, deu entrada num hospital de reputação international, certo de ser special, até se ver soterrado por espasmos, fluidos e odores desconhecidos, embora gerados por seu próprio corpo, agora, sem power. Em posição fetal, trajando um camisolão disforme, atinou que deixava um mundo golden para passar a eternidade na vala commom-dark-low-dirty-impure dos mortais.



[Raphaela De Campos Mello]


sábado, 9 de abril de 2011

O BRASIL DIANTE DO HORROR

Reproduzindo um texto para pensarmos....

Marcos Rolim - 09/04/2011


Theodor W. Adorno disse que, após Auschwitz, seria mesmo impossível escrever poemas.


Com isto, talvez tenha tentado mostrar que depois da radicalidade do mal, mesmo nossos sentimentos haveriam de se alterar profundamente. Não é possível, afinal, ter acesso a uma dor tão disseminada sem que o mundo se mova e outras sejam suas formas. O massacre de Realengo é algo tão absurdamente cruel que é preciso que algo de substancial mude no Brasil. Se há uma homenagem a fazer às vítimas - após o silêncio a ser repartido entre todos como uma pausa para assimilar o que não pode ser compreendido - ela deve se feita nos termos de uma mudança.

Em 1996, em Dumblane, na Escócia, um homem invadiu uma escola e matou 16 crianças e um adulto. O impacto foi tamanho que a população recolheu mais de 700 mil assinaturas, com o apoio da imprensa, pelo banimento das armas de fogo, o que foi assegurado pelo parlamento logo depois.  Desde então, armas de mão (hand guns) só podem ser usadas por policiais, e mesmo assim, apenas por um grupo deles, especialmente treinados. Pois bem, penso que é chegado o momento do Brasil discutir esta proposta. David Coimbra a defendeu em sua coluna de sexta em ZH, em contraste com a névoa de opiniões desencontradas e especulações sem sentido que marcaram boa parte da cobertura jornalística no dia da tragédia.


Precisamos, é claro, reforçar a segurança nas escolas; especialmente para assegurar uma triagem efetiva de visitantes. Mais: toda escola deve possuir um plano minucioso para o caso de tiros em seu interior ou nas vizinhanças. Algo a ser treinado em diferentes versões e com simulações repetidas, de tal forma que todos saibam o que fazer em situações do tipo. Mesmo porque é possível que Realengo se repita naquilo que se convencionou chamar de “efeito copycat” (trabalhei este e outros temas em “Desarmamento: evidências científicas: ou tudo aquilo que o lobby das armas não gostaria que você soubesse”, disponível para download em:http://bit.ly/eDqCgu)


É impossível erradicar o mal da agência humana. Ele diz respeito à condição básica da liberdade mesmo. O que podemos e devemos fazer é diminuir suas possibilidades trágicas, reduzindo o potencial de letalidade da ação. O que será muito mais difícil de fazer com 16 milhões de armas de fogo circulando no Brasil. O assassino de Realengo era, muito provavelmente, um maluco que encontrou na moral sexual tipicamente religiosa o amparo para sua misoginia. Mas fosse só isto, jamais teríamos um massacre. A tragédia se tornou possível, porque o assassino tinha duas armas de mão e muitos carregadores. Sem estes instrumentos delineados para matar, nunca os danos seriam de tal monta. Não por acaso, massacres em escolas ocorrem com tanta freqüência nos EUA, o país com mais armas nas mãos de civis em todo o mundo. A propósito, em 1997, nenhuma criança foi morta por arma de fogo no Japão. 19 foram mortas no Reino Unido; 57 na Alemanha, 109 na França, 153 no Canadá e....5.285 nos Estados Unidos (!).  Queremos caminhar para uma realidade assim?


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